Cuiabá, Terça-Feira, 13 de Janeiro de 2026
ROSANA LEITE
13.01.2026 | 05h30 Tamanho do texto A- A+

Agatha Christie

Agatha exerceu o seu lado humanitário durante a Primeira Guerra Mundial

Agatha Mary Clarissa Christie nasceu em 15 de setembro de1890, em Torquay, no Sul da Inglaterra, e fez a passagem em 12 de janeiro de 1976. Foi educada pela mãe em casa, que a incentivou a “dar asas à imaginação” com muita leitura e a criação de histórias. Os seus contos traziam o foco policial e misterioso.

           

A escritora não foi moldada por instituições de saberes masculino, sendo a sua inteligência desenvolvida de forma sensível para observar comportamentos, contradições e as violências visíveis no cotidiano. Quanto à trajetória pessoal, à sua época de crescimento e desenvolvimento foi marcada pelo silenciamento feminino imposto às mulheres, o que também a incentivou a escrever com profundidade, habilidade e resistência.

           

Agatha exerceu o seu lado humanitário durante a Primeira Guerra Mundial, quando trabalhou como enfermeira voluntária. Foi nesse labor que se aprofundou em seus conhecimentos sobre venenos, substâncias químicas e os respectivos efeitos no corpo humano. Esses saberes foram por ela utilizados em seus contos com detalhes precisos dominados pela autora e captados durante a prática.

           

Ela não se declarava feminista. Todavia, as suas obras são recheadas de fortes traços feministas, com a criação de heroínas complexas e independentes, tal como Miss Marple. Nas suas escritas foram exploradas a discriminação feminina e a presença de mulheres poderosas para o gênero policial e a representatividade feminina, inclusive com mulheres ocupando espaços e profissões vistas como masculinas para a era. Além disso, Christie fez reflexões sobre estereótipos e preconceitos, incluindo o racismo e a xenofobia em alguns personagens, muitas vezes, se utilizando de sátira.

           

Um dos destaques feministas de Agatha Christie vai para a personagem Jane Marple, conhecida por Miss Marple, e que esteve presente em doze romances e vinte contos policiais de autoria de Christie. Ela é uma mulher solteira, idosa, e socialmente subestimada, como muitas mulheres que o patriarcado costuma ignorar. A detetive vive em um vilarejo fictício de St. Mary Mead e atua como detetive. Agatha Christie deixa nas entrelinhas que a “invisibilidade” da personagem carrega a sua força, já que ela observa, escuta e analisa a todo momento. Enquanto os homens investigadores confiam em técnicas, estatísticas e autoridade, a personagem aposta no seu conhecimento produzido a partir das suas vivências.

           

A escritora ficou conhecida como a “rainha do crime”, transformando dor em método, invisibilidade em poder narrativo e experiência feminina em inteligência literária.  Dentre tantos enigmas resolvidos, ela provou que o intelecto feminino não é exceção, sendo regra quando tem espaço para existir.

           

Ao reconhecer seu sucesso editorial, também se compreende a mulher que construiu, com inteligência estratégica e imaginação radical, um espaço de autoridade em um campo literário historicamente dominado por homens, subvertendo hierarquias intelectuais e criando personagens femininas que, silenciosamente, desmontam estereótipos.  

           

Christie começou a publicar no início do século XX, período em que o lugar social da mulher era fortemente delimitado pelo casamento, pela maternidade e pela esfera doméstica. Assim, escrever já era um ato de transgressão. Mas, escrever com autoridade intelectual romances policiais, quebrava paradigmas, onde lógica, inteligência e racionalidade não era campo feminino.

           

Nas histórias por ela narrada, não foram criadas mulheres tidas como exemplares, mas, sim, humanas, rompendo com tradições que reservavam a elas apenas papéis morais. Escreveu sobre enredos frios, engenhosos e desafiadores intelectualmente. Nas linhas por ela traçadas as mulheres agem, tomam decisões, erram, conspiram, vivem e sobrevivem.

           

Com sucesso mundial, foi traduzida em mais de 100 idiomas, com bilhões de exemplares vendidos. Mas, o seu legado não se encontra apenas nos livros vendidos, trazendo a normalização de que mulheres podem ser autoridades intelectuais. 

           

Agatha Christie não escreveu sobre o feminismo; ela praticou o feminismo escrevendo.

             

Rosana Leite Antunes de Barros é defensora pública estadual, mestra em Sociologia pela UFMT.

*Os artigos são de responsabilidade de seus autores e não representam a opinião do MidiaNews. 

 

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