Minha ancestralidade feminina pulsa na iluminada Chapada dos Guimarães. Nesse lugar enigmático e grandioso de Mato Grosso, a beleza da natureza é tão magnífica que parece habitada por um Grande Espírito.

Minha avó materna nasceu em solo chapadense e se chamava Bárbara. Seu nome evoca a força que reconheço nela e em suas filhas, com quem tive a bênção de conviver. Do ventre de Vovó Babita como carinhosamente a chamávamos, vieram ao mundo nove mulheres - duas das quais partiram precocemente.
Mamãe, a caçula delas, contava-nos, nas rodas de família em sua casa, que vovó sempre fez questão de que o nascimento de seus filhos se desse em Chapada dos Guimarães. A minha mãe narrava suas memórias, revisitando a jornada da existência da Vovó Bárbara, de suas irmãs e a sua própria.
Uma a uma, as filhas de Bárbara de Campos Pereira desfilam pela minha memória, e constato uma qualidade comum a elas - todas foram dotadas de grande força interna e amavam a dança! A força vital presente em minha mãe e suas irmãs, remete-me à canção “Maria Maria”, de Milton Nascimento:
“Quem traz na pele essa marca
Possui a estranha mania
De ter fé na vida.”
Mulheres que enfrentaram muitos desafios, o primeiro deles foi o casamento, ainda adolescentes, fato comum à época. Mamãe foi a única exceção, casou-se aos 22 anos. Na história de vida dessas mulheres bonitas por dentro e por fora, constam profundas dores e muitas lágrimas vertidas, cada uma por seus motivos. Contudo, souberam viver com confiança e, em meio a tristezas e a tantas incertezas, nunca desistiram da vida!
Contos existenciais reais de mulheres fortes, corajosas, dotadas de resiliência e alegria, mesmo sacudidas por intensas tempestades que acometeram suas vidas, em um momento ou outro.
A amada tia Plinia, por exemplo, passou por perdas impensáveis: Seis de seus filhos faleceram precocemente, invertendo a ordem natural da vida, em que os filhos velam seus pais.
Diante das dores apresentadas, mostrou-se capaz da mais completa rendição e entrega à Vida. Jamais julgou, reclamou ou blasfemou contra o Criador. Ela sequer questionou: - Por que comigo, meu Deus? Em estado de aceitação incondicional, enfrentou com profunda serenidade a árdua realidade da morte daqueles a quem desejava, acima de tudo, vida em abundância.
A oração que testemunhei sair de seus lábios foi: “Senhor, dai-me forças, já que foi Vosso desígnio, dai-me forças!”. Agora compreendo que essa é a verdadeira oração em momentos de passagem por uma grande dor existencial.
A força celestial de Tia Plínia foi meu maior exemplo de resistência após a inesperada partida da minha filha, ocorrida sob circunstâncias controversas.
Como tia Plinia - que, um mês antes dessa fatalidade, me aparecera em sonho envolta com o manto da santidade de Maria -, minha primeira oração diante da inimaginável realidade foi a mesma dela: Senhor, dai-me forças! Ampara-me na travessia desta dor.
Nunca me esquecerei das palavras sussurradas pela minha iluminada tia chapadense, no momento em que o ataúde com o corpo do último filho que sepultou descia à terra: “Coração de mãe é um coração cheio de amor e dor”.
Quanto a esta descendente de Bárbara Cipriano e de sua filha Quita, sigo de pé e em marcha, ainda
que carregue no peito a imensidão da dor pela irreparável e precoce partida da minha filha, que tinha diante de si um vasto e inexplorado horizonte.
Procuro honrar a força da minha ancestralidade e o que aprendi espiritualmente no Oriente com o Sufi Kiran Baba.
Esta mãe ressignifica a cada dia a trajetória do luto em luta pela memória e dignidade de sua filha, bem como de seus descendentes. Que a mentira se desfaça e a verdade resplandeça - do céu ao solo de Cuiabá, onde Fernanda nasceu.
Gratidão à avó Bárbara e a suas filhas de coração valente e bonito, nascidas na imensidão da terra santa de Chapada dos Guimarães.
Que o Grande Espírito do Universo nos proteja, ampare e transmute nossas mais profundas dores em pura Luz!
Que esta intenção também chegue à alma de Fernanda Corrêa Stumpp, de sua linhagem ancestral e de todas as mulheres que estão na dimensão do Eterno; em especial, neste momento, àquelas alvejadas, feridas de morte e tombadas pela violência masculina!
Namastê!
Enildes Corrêa é administradora, cronista e palestrante.
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