Cuiabá, Domingo, 29 de Março de 2026
GABRIEL NOVIS NEVES
29.03.2026 | 05h30 Tamanho do texto A- A+

Primeira aula clínica

O verdadeiro mestre, muitas vezes estava deitado no leito

Uma das aulas mais marcantes do curso de Medicina foi aquela em que tivemos o primeiro contato clínico com pacientes. Até então, nossos estudos estavam concentrados em livros, desenhos anatômicos e explicações teóricas.

Estudar diretamente no corpo humano, frágil e vulnerável no leito de um hospital, é algo quase sagrado.

 

Quando entramos na enfermaria, tudo ganhou outra dimensão. O corpo humano deixava de ser apenas um capítulo de livro e passava a ser uma realidade viva diante de nós.

 

Aquela aula abriu uma nova etapa no aprendizado médico. O professor Cruz Lima ministrava as aulas teóricas da disciplina Semiologia na Santa Casa de Misericórdia, no Rio de Janeiro.

 

As atividades práticas ficavam sob a responsabilidade dos seus assistentes.

 

A turma era dividida em grupos, e seguíamos para as amplas enfermarias da Santa Casa, onde aprendíamos a examinar o paciente.

 

Iniciávamos pela anamnese — a história clínica do doente em seu leito. Identificação, queixa principal e o registro cuidadoso dos sintomas. Cada aluno deveria portar um termômetro, aparelho de pressão e estetoscópio.

 

A partir da queixa principal e de um breve relato da história clínica, iniciávamos o exame físico. Com uma anamnese bem feita e um exame detalhado, já era possível chega a uma hipótese diagnóstica.

 

Na década de cinquenta, as enfermarias da Santa Casa estavam frequentemente lotadas de pacientes com esquistossomose. Isso se devia à intensa migração de nordestinos para o Rio de Janeiro em busca de trabalho.

 

Muitos permaneciam internados por longos períodos e, de tanto ouvirem as explicações dos professores, acabavam também nos ensinando sobre a própria doença.

 

Nas provas práticas, não raro, eram eles que nos orientavam, nos ensinavam sobre como escrever uma boa anamnese, estabelecer o diagnóstico clínico e indicar o tratamento.

 

Em Cuiabá, durante sessenta anos de exercício profissional, não atendi um único caso de esquistossomose. Mas foi ali que aprendi a escrever uma boa anamnese.

 

Estudar diretamente no corpo humano, frágil e vulnerável no leito de um hospital, é algo quase sagrado.

 

O paciente, que mesmo na doença se dispõe a ensinar, nos mostra que a Medicina começa, antes de tudo, no respeito e na humanidade.

 

E foi ali que entendi: o verdadeiro mestre, muitas vezes estava deitado no leito.

 

Gabriel Novis Neves  é médico e fundador da UFMT.

*Os artigos são de responsabilidade de seus autores e não representam a opinião do MidiaNews. 

 

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