No domingo (08/02), o mundo parou para ver o que sempre para: um jogo que, no fundo, é só desculpa para um país olhar para si mesmo no espelho — com câmeras em 4K, drones e uma bandeira do tamanho de um prédio. O Super Bowl não é apenas futebol americano. É liturgia. É rito. É a missa civil de uma nação que aprendeu a transformar entretenimento em ideologia.
Foi por isso que doeu tanto. Bad Bunny subiu ao palco do intervalo como quem entra numa sala onde sempre mandaram calar. Entrou sem pedir licença. E fez o que artistas de verdade fazem quando a história aperta: cantou como se o canto fosse documento, como se a dança fosse denúncia, como se o corpo fosse um mapa.
Ao lado dele, Lady Gaga e Ricky Martin. Três nomes, três mundos, uma mensagem só: a América não cabe num slogan. Trump, fiel ao papel de sentinela do orgulho ferido, chamou o show de “repugnante” e “afronta à grandeza da América”. O detalhe é que, sem querer, ele confessou o essencial: a apresentação mexeu no coração do império. Não por atacar, mas por lembrar. Não por odiar, mas por existir.
O que enfurece o colonialismo não é o grito. É a memória. Há um tipo de poder que não precisa de tanques o tempo todo. Ele se instala na língua, na música, no cinema, na forma como o mundo inteiro aprende a sonhar. Esse poder tem nome antigo, mas cara moderna: imperialismo.
O imperialismo norte-americano é o colonialismo com roupa nova: jeans, fast-food e streaming. Ele não chega apenas com soldados; chega com padrões. Padrões de beleza, de sucesso, de “civilização”, de “liberdade”. E quando alguém não se encaixa, a culpa recai sobre o outro: “eles não se esforçam”, “eles não se adaptam”, “eles não merecem”.
Existe um detalhe que o império tenta esconder: ele foi construído com o trabalho, a dor e o sangue dos mesmos povos que depois chama de ameaça. Porto Rico é um desses paradoxos. Um território que é e não é. Americano quando convém. Estrangeiro quando incomoda. Um povo mantido num limbo político, como se a autodeterminação fosse um favor e não um direito.
Autodeterminação dos povos não é poesia acadêmica. É o básico. É o direito de decidir o próprio destino sem a mão pesada de um “protetor” apontando o caminho, como se proteção e dominação fossem sinônimas.
Bad Bunny não cantou apenas por Porto Rico. Cantou por uma América maior que o mapa oficial. Uma América que começa no Alasca e termina na Patagônia, mas que também mora no bairro latino de qualquer cidade dos Estados Unidos, nas cozinhas onde se fala espanhol baixinho, nas ruas onde o sotaque é julgado como defeito.
A política identitária do império detesta essa ideia porque ela desmonta um pilar: identidade cultural não é decoração. É soberania invisível. Quando um artista latino ocupa o palco mais assistido da TV americana e canta a própria cultura, ele não está apenas entretendo. Ele está reivindicando espaço. Está dizendo: “nós estamos aqui”. E isso, para um nacionalismo que se alimenta de pureza imaginária, soa como blasfêmia.
O slogan “No Kings”, que deveria ecoar o espírito fundador dos Estados Unidos, virou ironia. Porque há muito tempo o país que diz não aceitar reis aceita, sem perceber, uma coisa pior: aceita imperadores. Imperadores que não usam coroa. Usam discurso. Usam medo. Usam a promessa de uma grandeza que só existe se alguém for colocado abaixo.
O mais desconfortável, porém, é uma verdade simples: somos todos americanos.
Não no sentido do passaporte, mas no sentido histórico. O continente inteiro foi atravessado pelo mesmo processo: colonização, exploração, catequese, saque, escravidão, apagamento. Em cada país, a história muda de idioma, mas não muda de essência. A diferença é que alguns países conseguiram transformar a própria dor em narrativa heroica. Outros ficaram presos na dor sem o direito de narrar.
E quando alguém tenta narrar, o império chama de “vitimismo”, “politização”, “ideologia”. Como se o show do Super Bowl fosse neutro todos os anos. Como se neutralidade não fosse, quase sempre, apenas o nome elegante do lado que já venceu.
Trump se irritou porque o show foi uma rachadura na parede do mito. A parede que diz: “a América é isto”. A parede que tenta reduzir um continente a um único país. A parede que insiste em chamar de “imigrante” quem, muitas vezes, só está voltando ao lugar onde sempre esteve, porque as fronteiras é que foram desenhadas por mãos estrangeiras.
O imperialismo tem um medo específico: o medo de que os dominados parem de pedir desculpas por existir. E o palco do Super Bowl, por uma noite, virou um lugar onde ninguém pediu desculpas.
Havia línguas que não precisavam de tradução. Havia ritmos que não pediam permissão ao inglês. Havia uma justiça poética no fato de que, bem no coração do espetáculo mais americano do planeta, a América Latina cantou como dona de si. Não foi só um show. Foi uma lembrança. E lembrança é perigosa, porque memória é o primeiro passo da libertação. No fim, o que Bad Bunny fez foi simples: colocou um espelho no centro do estádio.
E o império, ao se ver refletido, fez o que sempre faz quando encontra a verdade: chamou de repugnante. Mas o repugnante, quase sempre, não é o que o outro mostra.
É o que a gente tenta esconder.
Joel Mesquita é sociólogo.
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