Cuiabá, Quinta-Feira, 26 de Março de 2026
GABRIEL NOVIS NEVES
20.04.2025 | 06h00 Tamanho do texto A- A+

Choque cultural

O evento que abalou profundamente minha crença religiosa

Já escrevi, ao longo destes anos, sobre um dos maiores choques culturais que marcaram a minha vida. Foi intenso e abalou profundamente minha crença religiosa.

 

Minha mãe era católica praticante; meu pai, católico não praticante.

 

Fiz a catequese para a primeira comunhão, celebrada em oito de dezembro de 1942, na Catedral Metropolitana de Cuiabá.

 

Fui coroinha da Catedral e afilhado de crisma de Dom Aquino Corrêa.

 

Em março de 1953 mudei-me para o Rio de Janeiro para completar os estudos para ingressar na faculdade de Medicina.

 

Fui morar numa pensão, ocupando uma vaga em quarto dividido.

 

Na primeira Sexta-feira Santa que passei no Rio, aceitei o convite do filho da dona da pensão — um pouco mais velho que eu.

O convite era para subir o Pico da Tijuca, um dos pontos com vista mais deslumbrante da cidade

 

Era bancário, remador, praticante de esportes.

 

O convite era para subir o Pico da Tijuca, um dos pontos com vista mais deslumbrante da cidade.

 

Ele cuidaria da matula. Pegamos o ônibus no Largo do Machado e seguimos até o ponto final, no Largo da Tijuca.

 

Ali começaria nossa aventura rumo ao topo do morro.

 

No local, havia guias.

 

Mas, para economizar, resolvemos fazer a escalada sozinhos — uma temeridade.

 

Adentramos a mata, atravessamos riachos onde a luz do sol mal penetrava.

 

Chegou a hora do lanche. Meu companheiro retirou da mochila, um generoso sanduiche, envolvido em papel fino, e uma latinha de refrigerante.

 

Devorei a minha parte.

 

Saciada a fome, perguntei do que era feito o sanduiche.

 

 — Pão com carne assada e queijo.

 

— Mas... hoje é Sexta-feira Santa!

 

— Não faz mal — respondeu, com naturalidade.

 

Meu mundo veio abaixo. Naquele instante, não sabia o que fazer!

 

Pensei logo em procurar um padre para me confessar. E foi o que fiz assim que voltei para casa. Achava ter cometido um pecado grave.

 

Senti um alívio profundo quando no confessionário, o padre me perdoou.

 

Nunca mais me esqueci desse passeio que terminou em tragédia espiritual — há 72 anos.

 

Gabriel Novis Neves é médico e ex-reitor da UFMT

 

 

*Os artigos são de responsabilidade de seus autores e não representam a opinião do MidiaNews. 

 

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