Cuiabá, Sábado, 4 de Abril de 2026
AIRTON REIS
06.02.2012 | 07h45 Tamanho do texto A- A+

Combustão humana

Mulher queimada em forno é vítima da crueldade brutalizada de cada dia

Vítima da crueldade brutalizada de cada dia. Vítima da violência armada contra a mesma cidadania. Vítima do corpo carbonizado numa pizzaria. Vítima em grito derradeiro ouvido pela vizinhança. Vítima em sangue encontrado no local da ocorrência. Vítima nas laudas de uma mesma evidência. Vítima sem qualquer clemência.

Vítima da mesma decadência das virtudes e dos valores. Vítima das senhoras e dos senhores legisladores inoperantes na urgência do novo Código Penal condizente com a realidade de uma pátria infestada pela desigualdade. Vítima nas margens distanciadas pela mesma fatalidade sem qualquer parágrafo e sem nenhum travessão.

Lenha do mesmo osso fragmentado na derradeira fornalha incandescente. Cordão sem pescoço. Anel sem dedos. Bracelete sem braços. Cremação aos pedaços ou esquartejamento parcial?

Mais do que um inquérito policial. Mais do que uma manchete de jornal. Mais do que um indicativo agravante da sociedade esfacelada pela indiferença. Mais do que a ausência num credo ou crença. Mais do que uma ofensa consumada em fogo e fumaça. Mais do que uma ameaça sem qualquer pedido de desculpa. Mais do que a força bruta em vantagem masculina. Mais do que uma esquina sem bueiro. Mais do que a chama instantânea de um isqueiro.

Execução sumária ao raiar do dia. Cuiabá maculada pela covardia. Cuiabá defasada no quesito da segurança pública institucional. Cuiabá citada em noticiário nacional. Cuiabá da rua com nome de general. Cuiabá do córrego transformado em esgoto em conseqüência do mesmo crescimento populacional sem qualquer planejamento efetivo em ação. Cuiabá do "lenhador" foragido procurado. Cuiabá do assassinato qualificado. Cuiabá do verso publicado em condolência.

Cuiabá da combustão humana sem o fundamental direito do corpo presente em funeral cristão. Cuiabá da combustão humana agonizante diante da nação republicana. Cuiabá da combustão humana sem qualquer poesia advinda da paisagem urbana. Cuiabá da combustão humana sem cardápio e sem prato principal. Cuiabá da combustão humana nas imediações da área central.

Cuiabá da combustão humana no mesmo sertão do desbravador Paschoal Moreira Cabral, antes, durante e depois de qualquer parlamento. Cuiabá da combustão humana nos anais da imprensa livre de qualquer esquecimento. Cuiabá da combustão humana num mesmo tempo repleto de feras investidas em requintadas formas de matar. Cuiabá da combustão humana descrita em opinião poética além de um olhar.

Lágrimas de pesar em mais de uma face oculta ou indeterminada. Justiça na mesma balança e na mesma espada embainhada!

AIRTON REIS é poeta em Cuiabá.
[email protected]

*Os artigos são de responsabilidade de seus autores e não representam a opinião do MidiaNews. 

 

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COMENTÁRIOS
2 Comentário(s).

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maria jose  06.02.12 14h23
amei o seu artigo e bom para refletirmos a que, estamos chegando.
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André Portocarrero  06.02.12 11h48
A poesia como instrumento de indignação...Parabéns meu irmão! Não vamos nos calar! Cumpre a quem não perdeu a a capacidade de se indignar...protestar!
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