Cuiabá, Quarta-Feira, 11 de Fevereiro de 2026
RÔMULO RAMPINI
11.02.2026 | 05h30 Tamanho do texto A- A+

Consenso silencioso

Por que o ano no Brasil só começa depois do Carnaval

Todo começo de ano vem carregado de promessas, planejamentos e metas ambiciosas. No papel, janeiro marca o início do ciclo. Na prática, porém, o Brasil funciona de outro jeito. Existe um consenso silencioso entre empresários, gestores e consumidores: o ano só começa de verdade depois do Carnaval.

 

Essa percepção não é folclore nem exagero cultural. Ela se sustenta em comportamento, rotina, decisões econômicas e, principalmente, em como o marketing reage, ou erra, diante desse contexto.

 

O Carnaval vai muito além de um feriado prolongado. Ele atua como um marco psicológico coletivo.

 

Janeiro e fevereiro são meses de transição. Férias escolares, viagens, equipes incompletas e agendas instáveis criam um ambiente em que a atenção está dispersa e as decisões são adiadas. Antes do Carnaval, o brasileiro ainda não “virou a chave”. Depois dele, a rotina se organiza, o calendário engrena e o foco retorna.

 

O mercado confirma esse comportamento. Leads gerados no primeiro bimestre costumam ter ciclos de resposta mais longos. Reuniões são remarcadas. Orçamentos ficam em análise. Decisões estratégicas são postergadas. Já no pós-Carnaval, a taxa de resposta aumenta, as conversões melhoram e os ciclos de venda encurtam. Não porque as campanhas ficaram melhores de repente, mas porque o público está mais disponível para decidir.

 

Mesmo assim, muitas marcas insistem em começar o ano em alta rotação desde janeiro, como se o Brasil tivesse o mesmo ritmo de mercados que não passam por essa pausa cultural. O resultado costuma ser previsível: campanhas caras, baixo engajamento e a conclusão equivocada de que o marketing não funciona. Na maioria das vezes, o problema não está na estratégia. Está no timing.

 

Marketing é contexto. É falar a coisa certa no momento certo. Antes do Carnaval, mensagens muito racionais ou agressivas encontram resistência. Depois, essas mesmas mensagens passam a fazer sentido. O público entra em modo de organização, crescimento e busca por previsibilidade.

 

Por isso, o pós-Carnaval não é retomada. É largada. É quando o marketing digital ganha tração, o tráfego pago responde melhor, o conteúdo educativo converte mais e as ofertas encontram um público disposto a decidir.

 

A leitura correta desse ciclo gera vantagem competitiva. Enquanto muitos tratam fevereiro como mês perdido, quem entende o ritmo do país usa esse período para estruturar ativos, ajustar campanhas, organizar funis e preparar a comunicação. Quando o Carnaval passa, entra forte, com clareza de mensagem e foco comercial.

 

O ano no Brasil não começa atrasado. Ele começa no momento certo para a nossa cultura. O Carnaval não trava o mercado. Ele define quando o mercado realmente entra em movimento. Quem entende isso para de brigar contra o calendário cultural do país e passa a usá-lo a favor. No marketing digital, respeitar esse timing é o que separa frustração de resultado. Depois do Carnaval, o jogo começa. E quem entra preparado, larga na frente.

 

Rômulo Rampini é estrategista em marketing digital.

*Os artigos são de responsabilidade de seus autores e não representam a opinião do MidiaNews. 

 

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