Cuiabá, Segunda-Feira, 23 de Fevereiro de 2026
GABRIEL NOVIS NEVES
23.02.2026 | 05h30 Tamanho do texto A- A+

Conversa que evitei

Enquanto a memória me acompanha, continuo conversando

Hoje evitei uma conversa. Não por medo, mas por cansaço. Percebi que nem todo assunto precisa ser enfrentado imediatamente.

Lembro da figura carismática do Marechal Rondon batendo papo com Álvaro Duarte, acomodado em sua cadeira de balanço na rua do Campo

 

Há momentos em que o silêncio também é uma forma de resposta — provisória, mas necessária. Com o tempo, aprendemos que escolher as batalhas é uma forma discreta de sabedoria.

 

Nem sempre consigo evitar conversas, principalmente quando são familiares. E isso, muitas vezes, é um erro, pois algumas terminam em conflitos desnecessários, daqueles que deixam um peso maior do que o próprio assunto.

 

Na minha idade, torna-se cada vez mais difícil encontrar contemporâneos para uma boa conversa de lembranças.

 

A maioria já partiu, deixando apenas recordações espalhadas pela memória. Quando tento esclarecer dúvidas dos meus tempos de juventude, percebo que já não há a quem perguntar.

 

Enquanto a memória me acompanha, continuo conversando todos os dias com antigos amigos através das crônicas que escrevo. São diálogos silenciosos, mas vivos.

 

‘Conversa fiada para boi dormir’ — como dizíamos — nunca precisou ser evitada. Era conversa sem pressa, sem cobranças de respostas, apenas o prazer de estar junto.

 

Na antiga Cuiabá, conversar era um hábito social. Após o jantar, as famílias sentavam-se nas portas das casas e falavam com quem passasse.

 

Lembro da figura carismática do Marechal Rondon batendo papo com Álvaro Duarte, acomodado em sua cadeira de balanço na rua do Campo.

 

O historiador Estevão de Mendonça preferia conversar da janela do quarto, observando a vida passar devagar. 

 

Na minha casa, ao escurecer, todos ocupávamos as cadeiras na porta da rua.

 

Personalidades ilustres, como o governador Fernando Correa da Costa, muitas vezes paravam para uma conversa simples, como se todos fossem velhos conhecidos.

 

As calçadas dos antigos casarões eram as verdadeiras salas de visita da Cuiabá de ontem — espaços onde as cadeiras de balanço ficavam apinhadas de gente conversando sem pressa e sem maldade.

 

Hoje, aos sábados, quando recebo a criançada para o almoço da família, volto à cadeira de balanço. Converso, abraço, beijo e me deixo fotografar ao lado de filhos, netos e bisnetos.

 

Ali percebo que algumas tradições ainda resistem. O progresso retirou as cadeiras das calçadas e as levou para dentro dos espigões de concreto.

 

Mas a necessidade de conversar — essa não desapareceu. Ela apenas mudou de lugar.

 

E talvez, no fundo, eu continue conversando com todos aqueles que já se foram, sempre que escolho o silêncio para escutar a memória falar.

 

Gabriel Novis Neves é médico e fundador da UFMT.

*Os artigos são de responsabilidade de seus autores e não representam a opinião do MidiaNews. 

 

Entre no grupo do MidiaNews no WhatsApp e receba notícias em tempo real (CLIQUE AQUI).




Clique aqui e faça seu comentário


COMENTÁRIOS
1 Comentário(s).

COMENTE
Nome:
E-Mail:
Dados opcionais:
Comentário:
Marque "Não sou um robô:"
ATENÇÃO: Os comentários são de responsabilidade de seus autores e não representam a opinião do MidiaNews. Comentários ofensivos, que violem a lei ou o direito de terceiros, serão vetados pelo moderador.

FECHAR

Clarissa  23.02.26 09h12
Eu adoro ler seus artigos, Dr Gabriel. Essas lembranças cuiabanas fazem um bem a alma. Sentar na cadeira de balanço na calçada é lembrar da minha infância, muito obrigada!
3
0



Leia mais notícias sobre Opinião: