Cuiabá, Terça-Feira, 13 de Janeiro de 2026
CLAITON CAVALCANTE
13.01.2026 | 05h30 Tamanho do texto A- A+

Dois lares, duas educações

A guarda pode ser compartilhada, mas a educação também precisa ser

Nos termos das Leis nº 11.698/2008 e nº 13.058/2014, a guarda compartilhada foi concebida para proteger vínculos e reduzir os danos da separação. No entanto, segundo especialistas, na prática, ela tem revelado um fenômeno silencioso e recorrente: filhos que mudam de comportamento conforme o endereço. Em um lar, regras claras, horários definidos e limites respeitados. No outro, permissões amplas, decisões terceirizadas às crianças e a sensação de que tudo é negociável.

 

Quando um adulto sustenta regras e o outro compete para agradar, a criança aprende rapidamente a identificar onde pode tudo

Não se trata de julgar pais ou mães, mas de reconhecer um efeito colateral real quando a educação deixa de ser um projeto comum.

 

Onde há rigidez saudável (aquela que ensina responsabilidade, respeito e convivência) surgem crianças mais seguras, capazes de compreender consequências. Ali, princípios orientam escolhas e a autoridade não oprime, organiza.

 

Já no ambiente em que limites são suspensos para evitar conflitos, a infância vira um território sem bússola, ou seja, horários elásticos, regras relativizadas, adultos que cedem para manter a imagem de “bons” e acabam governados pelas vontades dos filhos.

 

O ponto mais sensível está na contradição educativa. Quando um adulto sustenta regras e o outro compete para agradar, a criança aprende rapidamente a identificar onde pode tudo. Não é ingenuidade infantil, é adaptação. O filho passa a se comportar conforme o ambiente, testando limites, explorando fragilidades e escolhendo sempre o caminho mais confortável.

 

Com o tempo, essa lógica se aprofunda. A criança entende que regras não são valores, mas circunstâncias. Aprende que autoridade é negociável, que disciplina depende do humor do adulto e que o afeto pode ser comprado com concessões. Cria-se, assim, um terreno fértil para a manipulação emocional, para o desrespeito e para a dificuldade de lidar com frustrações fora do ambiente familiar.

 

Esse aprendizado não fica restrito aos lares. Ele transborda para a escola, para o convívio social e encontra nas redes sociais seu terreno mais fértil. Crianças sem limites claros são lançadas a telas que estimulam imediatismo, exposição precoce e busca obsessiva por aprovação. Consomem conteúdos que não compreendem, reproduzem comportamentos que não filtram e passam a medir valor pessoal por curtidas, seguidores e visualizações. A autoridade dos pais é substituída pelo algoritmo, a referência ética por influenciadores e a realidade por recortes artificiais. O resultado é uma geração mais ansiosa, intolerante ao “não”, com baixa capacidade de concentração e enorme dificuldade de lidar com frustrações.

 

Ser “bonzinho” não é amar mais. Amar exige constância, inclusive quando ela cansa. Exige dizer não quando o não protege, manter combinados mesmo sob pressão emocional e alinhar princípios, ainda que a relação conjugal tenha se rompido.

 

Dito isso, precisamos entender que a guarda pode ser compartilhada, mas a educação também precisa ser. Sem esse pacto mínimo, criam-se dois mundos para a mesma criança, e nenhum deles a prepara, de fato, para a vida.

 

Claiton Cavalcante é membro da Academia Mato-Grossense de Ciências Contábeis e do Instituto dos Contadores do Brasil.

*Os artigos são de responsabilidade de seus autores e não representam a opinião do MidiaNews. 

 

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