Passei parte da minha vida correndo atrás da bola, e ela foi minha amiga, minha companheira de todas as horas.
Com o tempo, aprendi que você, minha querida bola, me ajudou muito: fez de mim um atleta e, por sua causa, nunca tive vícios — nem os proibidos, nem os aparentemente permitidos.
Minha bola querida, você me ensinou a lutar pelas vitórias e a comemorar os resultados, mas também a chorar nas derrotas. E, sobretudo, ensinou-me a aceitar o empate, sem diminuir o adversário, sabendo respeitar os iguais e compreender os desiguais.
Foi você quem me deu o prazer de desenvolver a arte de jogar com os pés — algo que muitos não sabiam fazer nem com as mãos.
Com você aprendi disciplina, equilíbrio e o verdadeiro sentido da ação coletiva.
Quanta saudade de você, minha querida bola.
Você foi minha companheira e, muitas vezes, o único brinquedo da minha infância pobre, nas peladas jogadas pelos bairros de Cuiabá. Foi você quem me fez um menino boleiro feliz.
Em resumo, foi também, minha professora. Ensinou-me a lutar pela vitória e, durante o jogo, a não desistir, mesmo quando o resultado se apresentava adverso. Ensinou-me a seguir lutando até extrapolar os limites do esforço, a transformar uma quase derrota em uma vitória prazerosa e a sentir o intenso prazer emocional de ser um vencedor.
Obrigado, minha querida bola.
Por sua causa, assinei um contrato profissional com o Mixto Esporte Clube por dois anos, e depois viajei pelo Brasil em busca de uma oportunidade no mundo do futebol. Em 1973, joguei a Quinta Taça São Júnior de Futebol, em São Paulo, e depois fui convidado para atuar no Bragantino/SP. Não tive coragem de seguir carreira profissional fora de Cuiabá, e voltei às minhas origens.
Mas não te abandonei, minha bola querida.
Foi a velhice que, com o tempo, me obrigou a me afastar de você.
Ficou a saudade.
E ficou também o eterno agradecimento por tudo o que sou, minha querida bola.
Wilson Carlos Fuah é escritor, cronista e graduado em Ciências Econômica.
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