A violência contra a mulher em Mato Grosso — especialmente em Cuiabá — não pode mais ser vista como algo isolado, como se fosse um caso ou outro. Não é. É algo que acontece de forma repetida, constante, e que já foi comprovado por várias instituições, como o Ministério Público do Estado de Mato Grosso, por meio do Observatório Caliandra, e também através de dados oficiais da Polícia Judiciária Civil de Mato Grosso.
Entre 2019 e 2026, foram registradas 342 mortes de mulheres por feminicídio no estado. Isso dá, em média, quase 48 por ano — ou seja, aproximadamente uma mulher assassinada por semana. Esses números mostram o tamanho do problema, mas também revelam algo ainda mais preocupante: essa realidade praticamente não muda com o tempo. Isso indica que as políticas públicas ainda não estão conseguindo resolver o problema de forma efetiva.
Quando a gente olha mais de perto os dados do Observatório Caliandra, a situação fica ainda mais clara. Cerca de 65% desses crimes acontecem dentro de casa. E em 71% dos casos, quem mata é o parceiro ou ex-companheiro. Ou seja, o lugar que deveria ser seguro — o lar — acaba sendo o mais perigoso. Isso mostra que o problema não está na rua, mas dentro das relações, muitas vezes marcadas por controle, ciúme e violência.
A Polícia Judiciária Civil de Mato Grosso confirma esse cenário: cerca de 85% dos feminicídios começam com situações de violência doméstica. Em 2025, por exemplo, foram registrados 53 casos no estado — um aumento de 13% em relação ao ano anterior. Esses crimes representam mais da metade das mortes violentas de mulheres, o que deixa claro que a principal causa está ligada à condição de ser mulher.
Outro ponto importante: a polícia tem conseguido resolver praticamente todos os casos e prender a maioria dos autores. Isso é importante, mas também mostra um problema: mesmo com investigação eficiente, os crimes continuam acontecendo. Ou seja, prender depois não está sendo suficiente. É preciso evitar que a violência se concretize.
Em Cuiabá, a situação também tem relação com o lugar onde as pessoas vivem. Em bairros mais pobres, onde há mais dificuldades sociais e menos presença do Estado, a violência tende a ser maior — embora muitos casos nem cheguem a ser denunciados. Nesses locais, a vulnerabilidade social aumenta ainda mais o risco para as mulheres e meninas.
Mas é importante deixar claro: o feminicídio não acontece só na periferia. Ele também ocorre em bairros de classe média e alta. A diferença é que, nesses lugares, muitas vezes a violência fica escondida, protegida pelo dinheiro, pelo status e pelo silêncio. Como a maioria dos crimes acontece dentro de casa, isso mostra que não depende apenas do bairro, mas das relações dentro dele.
Em 2025, casos foram registrados em 36 municípios de Mato Grosso. Isso mostra que o problema está espalhado por todo o estado. Cuiabá, por ser uma cidade maior, concentra muitos desses casos — inclusive com autores que vivem na própria cidade. Ou seja, não é um problema “de fora”: ele nasce dentro da própria sociedade.
Diante de tudo isso, dá para entender que o feminicídio envolve três pontos principais: acontece principalmente dentro de casa, é mais frequente em áreas com maior vulnerabilidade, mas também atinge todas as classes sociais. Os dados do Ministério Público do Estado de Mato Grosso, do Observatório Caliandra e da Polícia Civil de Mato Grosso ajudam a mostrar como esse problema funciona.
Mais do que números, esses dados mostram uma realidade dura: a violência contra a mulher ainda é vista como algo “normal” em muitos contextos. Para mudar isso, não basta só prender quem comete o crime. É preciso investir em prevenção, fortalecer a rede de proteção e, principalmente, mudar a forma como a sociedade enxerga as relações entre homens e mulheres.
Em Cuiabá — e no Brasil — a violência contra a mulher não está só no mapa. Ela está nas relações, nas atitudes e na cultura. E é aí que a mudança precisa começar.
Joel Mesquita é sociólogo.
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