Está escrito no Gênesis que, no princípio, criou Deus os céus, a terra, as águas e a luz; fez o firmamento e apartou as águas; separou a porção seca da terra e fê-la produzir relva, flores, árvores e frutos; criou os astros e os colocou no firmamento; povoou as águas e a terra de seres viventes e, só então, completando a obra, criou o homem. Também a ciência admite que a espécie humana foi uma das últimas a surgir sobre a terra.

Pode-se presumir que, antes do surgimento do gênero Homo, tudo se encontrava harmoniosamente ordenado: as várias espécies de plantas e animais mantinham com o meio físico e entre si relações de interdependência, de forma a constituir um ecossistema equilibrado, permitindo, segundo leis naturais, a sobrevivência e desenvolvimento do conjunto.
O homem significou o primeiro e talvez o único fator de rompimento da ordem natural; o equilíbrio da biosfera jamais tinha sido ameaçado por nenhuma das inúmeras espécies vivas que a povoaram, até que surgimos como o mais espantoso dos predadores.
Com o aparecimento do Homo sapiens, há 600.000 anos, surgia a primeira espécie animal cujo impacto sobre os ecossistemas naturais constituía um elemento de desequilíbrio, capaz de alterar sua qualidade a ponto de comprometer sua estabilidade dinâmica. A evolução da inteligência do homem primitivo, associada a outros avanços biológicos, fez-se acompanhar de um crescente aprimoramento de novos métodos de exploração da natureza e do desenvolvimento de tecnologias cada vez mais aperfeiçoadas, as quais permitiram-no alterar, deliberada e consideravelmente, a superfície do planeta, em oposição às outras espécies animais.
A partir daí, o contínuo progresso da tecnologia, a par de vertiginoso crescimento populacional, exerceram sobre o meio uma ação destruidora sem igual na história da Terra. Não sem algum paradoxo, o homem, por seu comportamento nefasto incomum entre outros animais, passou a arruinar o seu próprio ambiente, movido pela cobiça, ignorante ou mesmo vândalo, aparece então como o único e só responsável pela degradação da biosfera.
O domínio do fogo constituiu a primeira grande conquista tecnológica do homem primitivo. Dispondo do fogo, caçadores do Paleolítico Superior, há cerca de 12.000 anos, exerceram sobre o meio uma forte ação degradante, inteiramente desproporcional a sua população. Hoje, sabe-se com certeza que o fogo provocou, há várias centenas de milhares de anos, uma completa alteração nas comunidades vegetais, em diversas regiões do planeta. Imensos incêndios destruíram a cobertura vegetal da Europa Central e África durante o Paleolítico.
Nos trópicos esses incêndios destruíram vasta superfície de florestas primitivas. Pela ação do homem, pouco mais tarde, em diversas regiões da África, Ásia e América tropical, a cobertura vegetal espontânea foi também alterada. Esses incêndios “criminosos” (?) de florestas contribuíram para a extensão das savanas na África e Ásia; procedendo da mesma maneira, há uma dezena de milhares de anos, os aborígenes da América do Norte queimaram suas florestas para estender a pradaria, criando áreas de pasto para os búfalos.
A destruição sistemática de coberturas vegetais pelo fogo reduz a capacidade biológica do meio; também o fogo, associado a técnicas dos caçadores paleolíticos, foi o grande responsável pelo empobrecimento da grande fauna de vertebrados que povoavam diversas regiões do planeta.
Há cerca de 6.000 anos, no início do período neolítico, os impactos gerados pela ação antrópica foram ampliados, de forma significativa, com o avanço da exploração agrícola - primeira grande causa de desequilíbrio devido a ação do homem - e com o crescimento populacional sem precedentes que daí resultou. O desenvolvimento da agricultura, que teve como conseqüência primordial aumentar a disponibilidade de alimentos, acelerou a modificação da fauna e resultou na substituição de macro ecossistemas florestais, de grande diversidade biológica, por pastagens e depois pelas culturas de cereais, havendo sido dessa forma definitivamente eliminada a cobertura vegetal primitiva, em favor de pequeno número de espécies vegetais.
A extinção de grandes áreas de florestas, a destruição da vegetação típica da savana e de cerrados, o crescimento de áreas de pastagens, a prática da monocultura, o inadequado uso de solos frágeis, entre outros fatores, trouxe como consequência a queda da produtividade do meio, já que este teve quase inteiramente destruído o revestimento vivo, animal e vegetal. Tais fatos deram início aos perigos que hoje nos ameaçam na forma dos processos de aridificação ou a desertificação.
Os desertos não existiram sempre na superfície da Terra, a maior parte deles decorre das ações do homem; na região hoje desértica do Oriente Médio, onde foi inventada a agricultura, há mais de 10.000 anos, havia, há 8.000 anos, florescentes civilizações agrícolas neolíticas. Textos antigos mencionam que, há cerca de dois mil anos, o Saara era uma savana, semelhante aos nossos campos cerrados e, também, relatam florestas verdes na Arábia, há menos de dez mil anos, donde foram extraídas as madeiras utilizadas na construção do Templo de Jerusalém e outras grandes obras do Oriente Médio. A exploração abusiva desses espaços essenciais à vida, animal e vegetal, destruíram pouco a pouco as florestas, a cobertura vegetal secundaria, o solo ...
O ritmo de crescimento da espécie humana, extraordinariamente acelerado a partir do século XVIII, demanda cada vez mais energia e matéria-prima, exige o aceleramento dos processos de produção, conduz à exploração crescente e predatória dos recursos disponíveis, e é agravado pelo ímpeto consumista associado a padrões não sustentáveis de consumo. Ainda, como consequência, acelera a produção de toda forma de rejeitos, ocasionando processos caóticos de urbanização, comprometendo a qualidade de vida em geral e elevando o risco de esgotamento dos recursos naturais.
A par do seu aumento populacional, o vertiginoso desenvolvimento tecnológico do homem potencializou os danos ambientais de sua presença na Terra. Como se não bastasse, o aparato técnico tem-se colocado a serviço de uma sociedade cuja ordenação parece atender mais às necessidades da produção de mercadorias do que às da preservação da vida.
Ao invés de pretender o domínio absoluto da natureza, primazia da sociedade tecnológica, o crescimento ininterrupto, a continuidade de práticas predatórias, que desestruturam os ecossistemas naturais e comprometem as gerações futuras, deve o homem compreender e fazer valer a noção de que, enquanto Homo eco-nomicus, é parte integrante do planeta.
Paulo Modesto Filho é doutor em Meio Ambiente e Biologia Aplicada, UCL – Bélgica.
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