Cuiabá, Sábado, 31 de Janeiro de 2026
FLÁVIO ESPUNIER COSTA
31.01.2026 | 05h30 Tamanho do texto A- A+

Insatisfação: insaciabilidade do desejo

Para não deixar que essa força se apodere, olhe para as conquistas

O desejo do ser humano é um como um apetite que o inclina e impulsiona em direção à meta almejada por esse estímulo. Neste artigo o foco volta-se para os desejos relacionados aos bens materiais e a jornada intensiva em sua busca e acumulo de forma insaciável.

 

Após a conquista de um bem material que muito se quis, surge o sentimento de alegria do êxito alcançado, uma sensação de vitória pela conquista e recompensa pelos esforços realizados. Mas, essa sensação muitas vezes não se prolonga por muito tempo, pois é abreviada por outro novo anseio que se brota dos desejos, outra promessa vã de satisfação, atrativa e sedutora e, na mesma medida, enganosa.

 

A gratidão é a única força capaz de atenuar o domínio e os danos causados pelo vício da insatisfação. Às vezes, direcionar o olhar para o acervo do que se conquistou, reconhecendo e rememorando a batalha necessária para constituir aquele patrimônio, e assim estimular em nós a satisfação pelo que já se tem pode poupar da sensação de vazio de sempre estar faltando algo para nos preencher.

 

Essa sensação de vazio é o efeito colateral de tentar satisfazer os desejos de se adquirir mais e mais, pois a insatisfação vai ser sempre a erva daninha a desabrochar no semear dessa colheita.

 

O vício não é a simples realização dos desejos de se adquirir um bem material útil e necessário, mas a aflição em fazer do consumo a busca inesgotável de um prazer efêmero. O sentido que se busca nesse consumo compulsivo, de modo geral, não é encontrado nesse ato – sendo esse ato apenas medida paliativa da crise enfrentada.

 

A insatisfação pode ser notada em alguns casos, citemos como exemplo uma pessoa que sonhava com a autonomia financeira, e ao conseguir alcançá-la e conquistar uma casa em um condomínio fechado onde tanto sonhou, ao se instalar no local e deparar-se com o padrão de vida dos vizinhos que possuem casas de maior sofisticação que a sua, logo é atingida pelo sentimento de cobiça ou inveja, que reduz a dimensão de sua conquista e torna-a sedenta por ostentar a mesma condição ou condição melhor àquela de seus vizinhos.

 

A ambição de forma moderada é saudável e estimula o ser humano a desenvolver-se, implementar seus projetos e ser agente de transformação, talvez até mesmo sendo fonte de desenvolvimento para outros além de si. Mas a ganância, o lado extremo dessa ambição, sempre é devastadora, pois não mede esforços para alcançar sua realização, para ela os fins sempre justificam os meios.

 

A ganância é repleta de insatisfação e a pessoa que tem essa característica, conquistando ela o que for, nunca acreditará ser o suficiente. Suficiência é algo que varia de pessoa para pessoa, quem pouco tem, mas não necessita de mais nada já tem o suficiente; ao passo que, quem muito tem, mas não está satisfeito, não tem o suficiente. Existe uma frase que diz algo relacionado a isso: Rico é aquele que tem poucas necessidades, e pobre aquele que tem muitas. A frase tem como ponto de vista atribuir a riqueza a satisfação com o que se tem.

 

A insatisfação na persecução de bens matérias é causa de sofrimento. A vida para ser plena precisa de significado, um significado subjetivo conforme o valor de cada indivíduo (que lhe faz sentir confortável e bem consigo mesmo e sua consciência). Os bens materiais têm função de cumprir as nossas necessidades, trata-se de possuí-los e não ser possuído por eles (no segundo caso, a pessoa reconhece todo seu valor e distinção pelas coisas que ostenta e não por características pessoais que lhe dão relevância).

 

Dessa maneira, sempre que surgir o sentimento de insatisfação, para não deixar que essa força se apodere de nós, uma alternativa é olhar para as conquistas já realizadas e ser grato por elas, e também questionar a real necessidade na busca frenética por adquirir de forma compulsiva e inconsciente. Assim estaremos construindo maior resiliência de espírito, focados em adquirir algo na esfera íntima, com maior probabilidade de preencher o vazio do que algo material cujas promessas são ilusórias.

 

Flávio Espunier Costa é advogado.

*Os artigos são de responsabilidade de seus autores e não representam a opinião do MidiaNews. 

 

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