Cuiabá, Quinta-Feira, 26 de Março de 2026
CRISTHIANE ATHAYDE
09.05.2025 | 05h30 Tamanho do texto A- A+

Mães empreendedoras

O empreendedorismo materno carrega uma variável ausente para muitos: a culpa

No debate sobre empreendedorismo feminino, existe uma narrativa subterrânea que raramente chega à superfície: a realidade das mães que empreendem não por escolha estratégica, mas por necessidade existencial.

 

Para muitas mulheres, empreender não representa liberdade geográfica, autonomia financeira ou realização pessoal

Sou mãe de quatro filhos e empreendedora. Esses dois mundos não se tocam ocasionalmente – colidem diariamente, às vezes violentamente. É dessa colisão que nasce uma economia invisível aos olhos do mercado tradicional e das estatísticas oficiais.

 

Para muitas mulheres, empreender não representa liberdade geográfica, autonomia financeira ou realização pessoal – inicialmente, é a única arquitetura possível para uma vida em que ser mãe e profissional não seja uma equação impossível.

 

Quando o mercado exige presença integral e inflexível, a maternidade exige presença fracionada, mas constante. Entre esses dois modelos irreconciliáveis, o empreendedorismo surge não como sonho, mas como o caminho viável.

 

Existe um PIB produzido em horários que nenhuma planilha contabiliza. É o trabalho executado de madrugada, quando a casa silencia. São e-mails respondidos ao amamentar, estratégias desenvolvidas no trajeto escolar, negociações conduzidas em estacionamentos de hospitais pediátricos.

 

Este é um mercado paralelo que gera bilhões, mas que não aparece nos índices. Uma economia construída nos interstícios da vida familiar, nos momentos de "entre": entre uma tarefa e um treino de futebol, entre uma emergência infantil e outra, entre um aniversário e uma apresentação de negócios.

 

O empreendedorismo materno carrega uma variável ausente para muitos: a culpa. Ela opera como taxa de juros emocional sobre cada minuto dedicado ao trabalho que poderia ser para os filhos, e sobre cada momento com os filhos que poderia fazer o negócio crescer.

 

Isso cria um paradoxo: mesmo quando o empreendedorismo é a solução encontrada para estar mais presente, ele se torna fonte de ausência. E na impossibilidade de resolver esta equação impiedosa, muitas mulheres adotam como estratégia trabalhar mais, dormir menos, e aceitar que perfeição não faz parte do vocabulário.

 

Tanto que o capital da empresa materna tem uma coluna extra: resiliência. É a capacidade de pivotar em segundos quando a babá cancela, de conduzir reuniões com uma criança febril no colo, de reformular estratégias inteiras entre um dever de casa e outro. Esta resiliência não é só um traço de personalidade. É um ativo econômico tangível.

 

Como especialista em propriedade intelectual, protejo o ativo intangível – a criatividade que emerge em paralelo à capacidade de fazer muito com pouco, de maximizar minutos, e desenvolver uma inteligência contextual que apenas nasce sob pressão constante. Blindo justamente os legados construídos contra todas as probabilidades.

 

E não. Mães empreendedoras não são heroínas de exceção. São mulheres que estão inadvertidamente reinventando modelos de negócios para que estes comportem a humanidade, a fragilidade e a imprevisibilidade que fazem parte da maternidade real – não a romantizada.  

 

Enquanto construímos negócios e inovamos, educamos a próxima geração sobre resiliência e autodeterminação. Nossos filhos aprendem que sistemas podem ser recriados; impossibilidades podem ser desafiadas; e que o cuidado é parte intrínseca da economia, não seu opositor.  

 

O que proponho aqui não é apenas reconhecimento – embora este seja necessário –, mas uma reflexão. Para que o trabalho reprodutivo (criar humanos) e o trabalho produtivo (criar valor econômico) não sejam mais tratados como mundos separados e antagônicos. 

 

Afinal, a pergunta não é se é possível ser mãe e empreendedora simultaneamente. A pergunta é: o que seria da economia se todas nós desistíssemos?

 

Cristhiane Athayde é empresária  

*Os artigos são de responsabilidade de seus autores e não representam a opinião do MidiaNews. 

 

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