Cuiabá, Sexta-Feira, 3 de Abril de 2026
NEILA BARRETO
07.10.2023 | 05h30 Tamanho do texto A- A+

Mulheres e águas

As lavadeiras eram mulheres que lavavam roupas em suas próprias casas

As lavadeiras eram mulheres que lavavam roupas em suas próprias casas, de domicilio em domicilio ou, às margens dos rios, córregos, nascentes, poços, cisternas e ribeirões ou ainda, nos fundos dos quintais das casas cuiabanas, constituindo-se em trabalho árduo, pesado e exposto diretamente ao sol.

 

Eram corpos que também sustentavam pesados tachos de cobres repletos de roupas, a exemplo das lavadeiras Mina, Siá Joaninha, Nhá Germana, Shá Maria, Ana Luíza, Maria Taquara entre outras, hoje eternizada em praça da cidade de Cuiabá, com o seu gesto habitual, esculpida em bronze pelo artista plástico cuiabano Haroldo Civis Tenuta.

 

Nessas condições, distinguimos nos quintais enormes das casas, muitas negras-Minas, resmungando, lavando e pondo a corar as roupas. Joana era o nome de uma delas. Falava e ralhava com a sombra, alvejando a roupa no coradouro de pedras. Batia a roupa na laje e quarava, batia e quarava.... Utilizava-se somente de sabão e anil. Morava para os lados da Lixeira ou Baú. Hoje seus restos mortais jazem, em cova rasa, no Cemitério da Piedade.

 

Pelas bandas do Cai – Cai, antigo cemitério da cidade de Cuiabá, hoje bairro residencial aparecia Siá Joaninha. No bairro quarta-feira, hoje Alvorada, Nhá Germana, Shá Maria do Fim do Mês e Maria Taquara eram outras lavadeiras.

 

Essas lavadeiras eram descritas assim por Cora Coralina: (...) bate roupa em pedra bem. Canta porque canta e é triste. Porque canta porque existe; Por isso é alegre também. Ora se eu alguma vez pudesse fazer nos versos. O que a essa roupa ela fez, Eu perderia talvez. Os meus destinos diversos. Há uma grande unidade Em, sem pensar nem razão, E até cantando a metade, Bater roupa em realidade... Quem me lava o coração?

 

Hoje muita coisa mudou. As roupas são lavadas por máquinas apropriadas ou por lavanderias espalhadas pelas cidades, onde o espaço privado sofreu inúmeras transformações.

 

Agora cabe a essas mulheres, uma busca equilibrada entre esses espaços público e privado em benefício da sua felicidade pois, a passagem do século XX para o XXI parece marcar uma ruptura na história da invisibilidade das mulheres. Só lhes falta uma participação maior na política.

 

No mais, caminhamos para um pós-feminismo no qual a idéia de cuidar, de combinar, de associar, de mixagem tornou-se um valor fundamental, ético e universal, pois homens e mulheres não podem viver uns sem os outros.

 

Neila barreto é jornalista, historiadora e presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso.

*Os artigos são de responsabilidade de seus autores e não representam a opinião do MidiaNews. 

 

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