Após 25 anos de negociações, a aprovação do acordo entre a União Europeia (UE) e o Mercosul representa muito mais do que a criação da maior zona global de livre comércio: é um sinal político e econômico poderoso de que, mesmo em um mundo marcado por tensões geopolíticas, protecionismo e nacionalismos econômicos, o comércio internacional continua sendo visto como um caminho racional para o desenvolvimento. Como bem resumiu a jornalista Míriam Leitão, “o acordo é um sinal de que o mundo quer mais comércio” — e essa mensagem não poderia ser mais atual.
Desde o século XVIII, Adam Smith já defendia, em A Riqueza das Nações, que a prosperidade surge quando os países se especializam naquilo que produzem com maior eficiência e trocam livremente entre si. Para Smith, o livre mercado, guiado pela “mão invisível”, aloca recursos de forma mais eficiente do que sistemas fechados e excessivamente regulados. O acordo UE–Mercosul dialoga diretamente com esse princípio ao reduzir tarifas, eliminar barreiras e ampliar o acesso a mercados para bens agrícolas, industriais e serviços.
Os benefícios do livre mercado são amplamente conhecidos. Para os consumidores, a maior concorrência tende a reduzir preços e aumentar a variedade de produtos. A expectativa de vinhos europeus e chocolates mais baratos nos países do Mercosul é apenas um exemplo concreto de como a liberalização comercial impacta o cotidiano das pessoas. Para os produtores, o acesso a novos mercados amplia a escala, incentiva investimentos, inovação e ganhos de produtividade. Ao invés de proteger ineficiências, o livre comércio estimula a modernização econômica.
O acordo também reforça o multilateralismo comercial, um pilar fundamental da ordem econômica internacional do pós-guerra. Diferentemente de relações comerciais baseadas apenas em força ou interesses unilaterais, o multilateralismo pressupõe regras comuns, previsibilidade e mecanismos de solução de controvérsias. Nesse sentido, o entendimento entre UE e Mercosul ecoa o espírito do Acordo de Bretton Woods, que, em 1944, estabeleceu as bases para instituições como o FMI e o Banco Mundial, com o objetivo de promover estabilidade econômica, cooperação internacional e expansão do comércio global após a devastação da Segunda Guerra Mundial.
Embora o acordo UE–Mercosul não faça parte formal das instituições de Bretton Woods, ele compartilha a mesma lógica: integrar economias, reduzir conflitos e criar interdependência positiva entre países. A história mostra que nações que comerciam entre si tendem a cooperar mais e a resolver disputas por meios diplomáticos, e não pela confrontação direta.
Do ponto de vista econômico clássico, o acordo também fortalece a dinâmica de oferta e procura. Ao ampliar mercados, produtores passam a responder a uma base maior de consumidores, ajustando preços e quantidades de forma mais eficiente. A entrada de produtos europeus no Mercosul aumenta a oferta, pressionando preços para baixo; ao mesmo tempo, exportadores sul-americanos ganham acesso a um dos mercados mais ricos do mundo, ampliando a demanda por commodities agrícolas e produtos industrializados da região. Naturalmente, resistências existem.
Na França, deputados chegaram a apresentar moções contra o presidente Emmanuel Macron, classificando o acordo como uma “humilhação”, sobretudo por preocupações com agricultores locais e padrões ambientais. Essas críticas não devem ser ignoradas. Todo acordo comercial gera vencedores e perdedores no curto prazo, e cabe aos Estados implementar políticas de transição, qualificação profissional e proteção ambiental. No entanto, transformar o medo da concorrência em veto permanente ao comércio é uma estratégia que, historicamente, empobrece mais do que protege.
Em um mundo cada vez mais fragmentado, a aprovação do acordo UE–Mercosul reafirma uma ideia central da economia política liberal: o comércio não é um jogo de soma zero. Quando bem estruturado, ele cria ganhos mútuos, fortalece instituições e promove crescimento de longo prazo. Ao resgatar princípios defendidos por Adam Smith, pelo multilateralismo de Bretton Woods e pela lógica básica de oferta e procura, esse acordo simboliza uma escolha clara — a de apostar na cooperação, na integração e no diálogo econômico como instrumentos de prosperidade compartilhada.
Joel Mesquita é sociólogo.
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