Cuiabá, Segunda-Feira, 9 de Março de 2026
JOEL MESQUITA
09.03.2026 | 05h30 Tamanho do texto A- A+

O Agente Secreto

O filme que obriga o brasil a se olhar no espelho

Há filmes que passam; e há filmes que ficam. O Agente Secreto pertence claramente ao segundo tipo. Não é apenas cinema — é memória. É ferida aberta. É um espelho desconfortável que o Brasil evita encarar, mas que precisa, de tempos em tempos, olhar de frente.

 

Marcelo não é só um personagem; ele é o retrato de uma geração inteira que aprendeu a falar baixo, olhar para os lados e desconfiar até do silêncio

No centro da narrativa está Marcelo — ou Armando, dependendo de quem o observa. Um homem fragmentado pela própria sobrevivência. A troca de nomes não é apenas um detalhe de roteiro: é metáfora de um país onde, durante a ditadura militar, viver muitas vezes significava esconder-se de si mesmo. Marcelo não é só um personagem; ele é o retrato de uma geração inteira que aprendeu a falar baixo, olhar para os lados e desconfiar até do silêncio.

 

Mas há também, nesse personagem dividido, algo profundamente filosófico. O dilema de Marcelo lembra uma das ideias centrais de Jean-Paul Sartre: a existência precede a essência. Segundo o filósofo, o ser humano não nasce com um destino pronto; ele se constrói através de suas escolhas. Marcelo, forçado a viver sob identidades diferentes, encarna esse princípio de forma brutal. Ele não é aquilo que nasceu para ser — ele é aquilo que foi obrigado a escolher para sobreviver.

 

E cada escolha tem peso.

 

Sartre também dizia que a liberdade humana é inseparável da responsabilidade. Somos livres, mas essa liberdade nos condena a responder por nossos atos. No universo sufocante do filme, essa liberdade é paradoxal: Marcelo precisa escolher constantemente entre permanecer vivo ou permanecer fiel a si mesmo. Cada decisão — falar, fugir, esconder, confiar — carrega consequências que ultrapassam sua própria vida.

 

Essa consciência gera algo que o existencialismo chama de angústia.

 

A figura de Dona Sebastiana surge como aquelas presenças que parecem pequenas, mas carregam o peso moral da história. Ela representa o Brasil profundo — aquele que viu, ouviu, suspeitou e muitas vezes foi obrigado a se calar. Seu cotidiano simples é atravessado por algo maior: a sombra do medo.

 

E então surge o outro Brasil: o da pistolagem, dos acordos obscuros, dos homens que resolvem conflitos com armas e silêncio. O crime de pistolagem no filme não é apenas um evento; é um mecanismo social. É a engrenagem invisível de um país onde a violência muitas vezes serviu como ferramenta política.

 

E no meio dessa paisagem simbólica, aparecem os tubarões.

 

Eles não estão ali por acaso. Tubarões são predadores antigos, silenciosos, inevitáveis. Como o próprio regime que dominou o país por duas décadas. No filme, eles funcionam como imagem poderosa: lembram que, nas águas turvas da história, sempre houve algo à espreita.

 

Mas O Agente Secreto não é apenas um filme sobre política. É um filme sobre memória. E sobre trauma.

 

A ditadura militar brasileira não terminou completamente em 1985. Ela permanece em gestos, em medos herdados, em silêncios familiares. O filme entende isso com uma lucidez rara. Cada olhar de Marcelo carrega o peso de algo que não pode ser dito — porque certos traumas não desaparecem; eles apenas mudam de forma.

 

E é aqui que entra Wagner Moura.

 

Wagner Moura não atua: ele habita o personagem. Marcelo é feito de pequenas tensões — um olhar que dura um segundo a mais, um silêncio que pesa como uma confissão. Há uma intensidade contida em sua performance que lembra os grandes atores do cinema político mundial. Moura transforma cada cena em campo de batalha emocional.

 

Há momentos em que ele parece carregar não apenas o personagem, mas a própria história brasileira nas costas. Poucos atores conseguem fazer isso. Poucos filmes também. O roteiro entende que crítica social não precisa gritar. Às vezes ela sussurra — e o sussurro é ainda mais perturbador.

 

O filme desmonta, camada por camada, a ideia confortável de que a ditadura foi apenas um período distante da história. Mostra que ela está entranhada na formação do país, nas estruturas de poder, na naturalização da violência. Por isso, O Agente Secreto parece tão necessário.

 

Ele nos lembra que o Brasil tem uma longa história de opressão às liberdades. Uma história de perseguições, de censura, de desaparecimentos, de verdades enterradas. E que esquecer isso talvez seja a forma mais eficiente de permitir que tudo volte. No fim das contas, o filme deixa uma pergunta incômoda pairando no ar: quantos Marcelos ou Armandos ainda existem?

 

Quantos brasileiros ainda vivem com nomes trocados, memórias escondidas e traumas herdados? Se o cinema ainda serve para alguma coisa — é para isso. Para lembrar. Para incomodar. Para impedir que o silêncio vire versão oficial da história.

 

Por tudo isso, O Agente Secreto não é apenas um grande filme brasileiro. É um filme digno de Oscar. Mas mais do que isso: é um filme digno da memória que o Brasil ainda precisa ter coragem de enfrentar.

 

Joel Mesquita é sociólogo.

*Os artigos são de responsabilidade de seus autores e não representam a opinião do MidiaNews. 

 

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