Cuiabá, Sábado, 28 de Março de 2026
JUACY DA SILVA
28.03.2026 | 05h30 Tamanho do texto A- A+

O lixo nosso de cada dia

Lixo Zero deve ser uma bandeira da verdadeira cidadania ecológica

Lixo Zero deve ser uma bandeira da verdadeira cidadania ecológica e a chave para uma economia da vida em substituição `a Economia da Morte, como atualmente acontece, para dar lugar `a Economia de Francisco e Clara, como tanto nos recomendou o Papa Francisco ao longo de seu magistério.

 

“A terra, nossa Casa Comum, parece transformar-se, cada vez mais, num imenso depósito de lixo. Os resíduos industriais, como os produtos químicos utilizados nas cidades e nos campos, produzem um efeito de bioacumulação nos organismos dos moradores nas áreas limítrofes...Muitas vezes só se adotam medidas corretivas  quando já se produziram efeitos irreversíveis na saúde (e na vida) das pessoas” Papa Francisco, Laudato Si, 24 de Maio de 2015.

 

“O mundo está sendo inundado por lixo plástico. Se as tendências atuais continuarem, em 2050 nossos oceanos terão mais plástico do que peixes, por isso é urgente o combate a todas as formas de poluição. O mundo deve se unir para vencer a poluição por plásticos". António Guterres, Secretário Geral da ONU, pronunciamento por ocasião do Dia Mundial do Meio Ambiente, junho de 2018.

 

Tendo em vista a gravidade da poluiçao e da degradação ambiental produzidas pela geração de resíduos sólidos/lixo em todos os países e os impactos ecobômicos, sociais e políticos, com índices muito superiores ao crescimento demográfico, `a urbanização e ao crescimento do PIB mundial, a ONU, em sua Assembléia Geral de 14 de Dezembro de 2022 e proclamou que anualmente  30 de Março passaria a ser considerado o DIA INTERNACIONAL DO LIXO ZERO.

 

O movimento Lixo Zero  tem como objetivos: conservar os recursos naturais através da produção, consumo e reutilização responsáveis e sustentáveis, o reaproveitamento máximo de materiais para evitar aterros e incineração. Esses objetivos focam na economia circular, mudança de hábitos, no combate ao consumismo, ao desperdício, `a obsolescência prematura dos produtos, `a redução de todas as formas de poluição e na transformação de resíduos em matéria prima para  novos produtos, garantindo sustentabilidade integral e integrada.

 

De forma sintética podemos elencar os seguintes objetivos: Gestão sustentável dos sistemas produtivos/sistemas econômicos; Preservaçãoa e conservação  dos recursos naturais, através da redução do consumo, consumismo e desperício; Aplicação dos cinco Rs; estimular a Economia Circular, conscientização popular através da Educação ambiental crítica e libertadora. 

 

A primeira celebração com o aval da ONU e de inúmeros países ao redor do mundo aconteceu em 2023, abordando os impactos do aumento acelerado da geração de lixo e a falta de um cuidado melhor tanto na economia quanto na saúde humana.

 

Em 2025, o tema que serviu de base ou foco das clebrações foi "Rumo ao desperdício zero na moda e nos têxteis", destacando a necessidade de sustentabilidade na industria textil”.

 

Em 2026, o tema do Dia Internacional do Lixo Zero é “Reduzindo o desperdício de alimentos”, para combater a degradação ambiental, as mudanças climáticas e aumentar a segurança alimentar, tendo como slogam “ Lixo zero começa em seu prato”.

 

Todavia, o movimento pela redução da geração de resíduos sólidos e os vários tipos de lixo teve início nos Estados Unidos bem antes de a ONU criar oficialmente um dia especial para conscientizar a população mundial e também os vários níveis de governo e as empresas a investirem mais em Reciclagem e na Economia Circular, dando mais “vida” aos produtos através do reaproveitamento do que aparentemente não tem mais utilidade, mas que, no contexto da economia circular, onde a reciclagem e um passo importante, torna-se matéria prima para novos produtos, reduzindo, assim os impactos negativos que o aumento da geração de lixo impõe ao planeta e a vida humana principalmente.

 

O movimento Lixo Zero teve início na década de 1970, na California, EUA, mas só ganhou força a partir dos anos 90, quando se espalhou pelo mundo. No Brasil, a iniciativa começou a se popularizar na década de 2000, com a publicação do livro “Lixo Zero: a Revolução da Reciclagem”, de Bea Johnson.

 

A Aliança Mundial pelo Lixo Zero, surgiu e tem sede em San Diego, na California e conta com instituições parceiras em  inúmeros países, inclusive no Brasil, onde em 2010 foi fundado o Instituto Lixo Zero Brasil, uma organização sem fins lucrativos que promove a disseminação do conceito no país através de cursos, workshops, consultorias e campanhas estimulando as pessoas a lutarem por políticas públicas voltadas ao enfrentamento dos impactos negativos da geração e má gestao do lixo em nosso país.

 

Outro marco significativo ocorreu em 2015, quando a ONU estabeleceu os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável e a Agenda 2030, para orientar a definição de políticas públicas nos diversos países, visando a sustentabilidade como fundamento básico de sistemas econômicos que resepeitem a natureza (“recursos naturais” finitos), respeitem os consumidores (reduzindo o marketing que estimula um consumismo desenfreado e um desperdício sem limites), respeitem os trabalhadores e também respeitem as futuras gerações, considerando que o planeta terra tem um limite e não “aguenta” uma expliração irracional como acontece com os atuais sistemas econômicos. Este limite é denominado do “ponto do não retorno”.

 

A economia circular, da mesma forma que a economia solidária, a agroecologia, a produção orgânica combatem as distorções dos atuais sistemas produtivos e de consumo. Esses foram os fundamentos do ODS (Objetivos do Desenvolvimento Sustentável) principalmente o número 11 – Cidades e Comunidades sustentáveis, buscando tornar as cidades seguras e sustentáveis, em que a questão da geração, tratamento e gestão dos resíduos sólidos é uma dimensão super importante e também o ODS 12 – Consumo e produção responsáveis, buscando garantir padrões de consumo e de produção sustentáveis, principalmente ao estimular uma redução do consumismo e do desperdício que são os fatores determinantes na produção de lixo e, também, uma ênfase na economia circular.

 

A economia circular além de reaproveitar o que é descartado pelas empresas e pelas famílias, transformando “lixo’ em materia prima para novos produtos, também estimula uma mudança dos hábitos de consumo e estilo de vida perdulários e do desperdício.

 

Anualmente o mundo perde em torno de 200 bilhões de euros, ou R$1,2 trilhão de reais por nao reciclar e reaproveitar  produtos e materiais que podem ser reciclados, e no Brasil, conforme matéria do “Site” Sustentabilidade Brasil de 12/08/2024, este “prejuizdo”, por deixar de reciclar é de R$ 120,0 bilhões de reais anualmente, um volume superior, quase o dobro do destinado, por exemplo, para a agricultura familiar pelo Governo federal em 2024 que foi de R$64,9 bilhões de reais.

 

Todo este movimento e as preocupações a ele relacionadas decorrem da gravidade da situação do “lixo”, resíduos sólidos no mundo, em que os padrões de consumo, principalmente nos paises desenvolvidos estão colocando em risco a vida do e no planeta.

 

Só para termos uma idéia, em 1970, a geração de lixo foi de 0,64 bilhão de tonelada (ou seja, “apenas” 640 milhões de tonelada/ano), passou para dois bilhões de toneladas em 2020; com previsão de chegar a 3,8 bilhões de toneladas em 2050, ou seja, um crescimento de 212,5% entre 1970 e 2020, e 90% entre 2020 e 2050.

 

Entre 1970 até 2050, ou seja, em menos de um século o aumento do volume da geração/produção de lixo deverá ser de 493,75%. Neste mesmo período o crescimento da população  mundial foi de “apenas“ 164,9%, ou seja, menos da metade do aumento da geração de lixo.

 

Em termos de produção de lixo per capita ano, também podemos observar este crescimento “exponencial”. Em 1970 cada habitante do planeta, em média, produzia 172 kg, ou seja,  0,47 kg (menos de meio  quilo por dia), passou para 256 kg ano em 2020 (0,70 kg dia) e a previsão é de que em 2050 a produção de lixo per capita ano seja de 388kg, um pouco mais de 1,06 kg/dia, um crescimento de 225,5%  entre 1970 e 2050. Considerando em conjunto, o crescimento da economia, da renda média per capita, e também o crescimento demográfico urbano, com certeza o cosnumisno, desperdício terão um imenso impacto na geração de lixo e suas consquência tanto para o planeta, para a economia e, principalmente, para a saúde humana.

 

Diante disso, agir é preciso, fundamental, antes que as tragédias socioambientais causem mais danos, sofrimento e mortes desnecessárias.

 

Apesar da gravidade da situação, no entanto, esses indicadores representam uma “média” mundial, e não refletem as diferenças  quanto a produção de lixo entre países desenvolvidos, principalmente da Europa, América do Norte e alguns países asiáticos e paises de outros continentes,  de menor renda per capita e de PIB nacional, como na África, a maior parte da Ásia e America Latina e Caribe e os diferentes hábitos de consumo e desperdício.

 

Os dez paises que mais produzem lixo são os seguintes: Estados Unidos que lideram em volume total e lixo plástico; China que é o maior produtor de lixo plástico e eletrônico; Índia  ostenta um alto volume devido à população, a maior do mundo atualmente, mais de 1,4 bilhão de habitantes; Brasil, que é 4º maior produtor mundial de lixo em geral e de lixo plástico em particular, apesar de ser a 10ª maior economia do planeta e depois vem a Indonésia, a Rússia, a Alemanha, o Reino Unido, o Japão que também é um dos líderes mundiais na produção de plásticos e a Arábia Saudita, que também tem uma grande produção de lixo e de resinas pláticas.

 

Os dez paises que mais produzem lixo são responsável por mais de 70% de todo o lixo gerado no mundo em 2025, com média de mais de 1,3kg a 1,5kg per capita/dia, bem acima da média mundial, demonstrando que, da mesma forma que são os maiores poluidores em geral, também são os maiores geradores de lixo, principalmente lixo plático e, mais recentemente, lixo eletrônico.

 

Apesar da gravidade da situação do lixo na grande maioria dos países a presença da economia circular e os índices médios de reciclagem são bastante variáveis. Por exemplo, a Europa Ocidental apresenta um índice de 56% de reciclagem, a América do Norte (que inclui Canadá, Estados Unidos e México) a reciclagem fica em apenas 37%, a América do Sul recicla apenas 6% do lixo produzido e o Brasil, apesar de ser o quarto maior produtor de lixo só recicla 4,5 %, bem abaixo da média dos países desenvolvidos e até mesmo da média mundial de reciclagem que em 2025 foi de 6,9%. Isto demonstra que ainda estamos muito aquém de uma gestão correta, eficiente e recomendável dos resíduos sólidos, principalmente o lixo plástico.

 

De acordo com dados recentes do Ministério das  Cidades (SINISA, 2024),  apenas 1.300 cidades, ou seja, 36,7% dos municípios brasileiros tinham coleta seletiva e reclicagem. Em termos de população apenas 22% dos habitantes do país são atendidos por reciclagem e coleta seletiva.

 

O panorama é bem variável e distinto entre as regiões, Na Região  Norte apenas 23 cidades tem reciclagem, ou seja, 5,9% das cidades e 4,8% da população; na região Nordeste 124 cidades, apenas 9,4% dos municípios e 4,4% da população, já na Região Sul 516 cidades, 46,1% dos municípios e 69,3 % da população tem reciclagem; na Regiao Sudeste são 543 cidades , 36% dos municipios e 44,6% da populaçao, finalmente, na Região Centro Oeste apenas 94 cidades tem reciclagem, o que representa 22,3% dos municípios e 45,5% da população.

 

Mais da metades das cidades com 100 mil habitantes e mais, incluindo diversas capitais, como Manaus, Belém, Cuiabá, Porto Velho e outras mais, ainda continuam destinando o lixo para lixões a céu aberto e aterros mal administrados, apesar da Lei que regulamenta a questão dos resíduos sólidos ter sido aprovada em 2010.

 

O marco dos resíduos sólidos no Brasil, conhecido como Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS) foi aprovado e sancionado em 02 de Agosto de 2010, Instituída pela Lei 12.305, essa legislação define diretrizes, obrigações e metas para a gestão de lixo no país, incluindo a responsabilidade compartilhada entre os diferentes níveis de governo (Federal, Estaduais e Municipais). 

 

Diante dessess números e indicadores, percebemos a importância de um Dia Internacional do Lixo Zero, para possibilitar uma reflexão mais crítica e construtiva em relação a esta questão e, ao mesmo tempo, pressionar os governantes para que definam e implementem  políticas públicas voltadas para os problemas e desafios socioambientais, inclusive em relação aos resíduos sólidos/lixo, envolvendo poderes públicos, empresariado , as diversas organizações não governamentais e a população em geral.

 

De leis, regulamentos, estudos e discursos sobre questões ambientais e em relação ao lixo o Brasil e diversos países já estamos “cheios”, faltam na verdade ações concretas, pois somente as ações transformam a realidade!

 

 

 

Juacy da Silva é professor fundador, titular e aposentado da Universidade Federal de Mato Grosso.

*Os artigos são de responsabilidade de seus autores e não representam a opinião do MidiaNews. 

 

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