Cuiabá, Quinta-Feira, 19 de Fevereiro de 2026
MÁRCIA AMORIM
19.02.2026 | 05h30 Tamanho do texto A- A+

Por que a boa vontade não basta na inclusão

O mundo de um aluno no TEA costuma ter um volume próprio

O mundo de um aluno no Transtorno do Espectro Autista (TEA) costuma ter um volume próprio. Às vezes, o som de um lápis caindo ou a textura de uma folha de papel nova ocupam todo o espaço da mente, deixando pouco lugar para a voz do professor.

Neste 18 de fevereiro, data que nos convida a refletir sobre o perfil anteriormente conhecido como Síndrome de Asperger, hoje compreendido como TEA Nível 1 de Suporte, a pergunta que as escolas precisam responder não é se elas "aceitam" esse aluno, mas se possuem a engenharia pedagógica necessária para ensiná-lo.

O acolhimento, embora essencial, é apenas a porta de entrada. Para o aluno que requer nível 1 de suporte, o desafio costuma ser invisível: a criança apresenta funcionalidade acadêmica, mas tropeça na falta de previsibilidade e nas nuances da comunicação social. Sem o suporte especializado, o que era para ser aprendizado vira apenas permanência física. Acolher, sob o olhar da psicopedagogia, é uma decisão de gestão que exige técnica, não apenas boa vontade.

A inclusão real depende de um pilar inegociável que é a capacitação docente. Não se trata de "ter paciência", mas de dominar o manejo de comportamento e o Desenho Universal para a Aprendizagem (DUA).

Quando o professor não é treinado para ler os sinais de uma sobrecarga sensorial, ele corre o risco de confundir uma desregulação com indisciplina. O rigor técnico é o que protege o tempo pedagógico e garante que o potencial cognitivo desse estudante não seja desperdiçado por falta de mediação adequada.

As diretrizes da Unesco, que buscamos fortalecer em Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, são enfáticas ao dizer que a qualidade da educação inclusiva exige suporte real aos profissionais da ponta. Isso significa garantir que a equipe escolar saiba transformar o hiperfoco em motor de engajamento. Uma escola capacitada não apenas "inclui", ela entrega autonomia e respeita a neurodivergência como parte da diversidade humana, sem tentar silenciá-la.

Na prática, a inclusão se faz com conhecimento aplicado ao cotidiano e formação contínua. É esse conjunto que permite ao aluno sentir que, finalmente, ele cabe no ambiente escolar. Inclusão é método. É transformar o olhar sensível em prática técnica para que o aprendizado, de fato, aconteça para todos.

Márcia Amorim Pedr’Angelo é psicopedagoga.

 

*Os artigos são de responsabilidade de seus autores e não representam a opinião do MidiaNews. 

 

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