O mês de março é marcado como o mês das mulheres, período em que se celebram conquistas e avanços na busca por igualdade. Mas também deve servir como um convite à reflexão sobre desafios que ainda persistem. No Brasil, milhões de mulheres aprendem desde cedo algo que muitos homens raramente precisam considerar no dia a dia: a preocupação constante com a própria segurança. É uma rotina silenciosa de cuidados, estratégias e alertas permanentes. E, de tempos em tempos, algum episódio escancara de forma brutal essa realidade.
Foi o que aconteceu recentemente no Rio de Janeiro, no caso do estupro coletivo de uma adolescente de 17 anos. Um dos suspeitos se apresentou à Polícia vestindo uma camiseta com a frase “Regret Nothing”, expressão em inglês que significa “não se arrependa de nada”.
O gesto não foi uma simples provocação. Diante de um crime que choca pela violência e pela brutalidade, a mensagem afrontosa estampada no peito soou como um deboche cruel. Isso não apenas em relação à vítima, mas também à indignação da sociedade. É preciso ressaltar que a frase também não surge de forma isolada. Ela aparece com frequência em ambientes digitais associados ao chamado movimento “red pill”.
Para quem nunca ouviu falar, é uma expressão popularizada na internet, inspirada no filme Matrix, usada por grupos que afirmam ter “despertado” para uma suposta verdade sobre as relações entre homens e mulheres. Na prática, são difundidas narrativas de ressentimento e hostilidade contra mulheres. Dentro desse universo também aparecem grupos ainda mais radicais, como os chamados “incels”, abreviação de involuntary celibates, ou “celibatários involuntários”.
O termo se refere a pessoas que se descrevem como incapazes de ter um relacionamento ou uma vida sexual, apesar de desejarem estar em um. Em diversos manifestos publicados em fóruns da internet, como Reddit e 4chan, os incels culpam abertamente as mulheres pelo "fracasso sexual". Partem da premissa de que todas as mulheres seriam interesseiras e oportunistas, preocupadas apenas com dinheiro e aparência. Evidentemente, a disseminação dessas ideias pode contribuir para banalizar o desrespeito e até a violência contra mulheres.
O episódio do estupro coletivo, por si só, já seria chocante. Mas ele também revela uma diferença silenciosa entre a forma como homens e mulheres vivem o cotidiano nas cidades. Homens costumam sair de casa preocupados com trânsito, compromissos e trabalho, entre outros fatores. Mulheres, além de tudo isso, frequentemente precisam calcular riscos. Pensam se a rua está bem iluminada, se é seguro voltar sozinha em um carro de aplicativo tarde da noite ou onde devem sentar quando o motorista chega, tentando evitar qualquer situação de possível assédio. É comum, inclusive, compartilharem a corrida em tempo real com amigas ou familiares.
As preocupações aparecem também em situações aparentemente banais como caminhar sozinha até o carro em um estacionamento à noite, esperar em um ponto de ônibus pouco movimentado ou entrar em um elevador com um desconhecido em um prédio. São precauções que parecem simples, mas revelam uma realidade em que o medo muitas vezes acompanha decisões cotidianas. Com o tempo, muitas mulheres passam a adotar pequenos mecanismos de proteção. Observam quem está por perto, atravessam a rua ao perceber um grupo de homens ou seguram as chaves entre os dedos ao caminhar sozinhas.
Para muitas mães, essa preocupação ganha uma dimensão ainda mais pessoal. Além de cuidarem da própria segurança, carregam também o medo constante pela segurança das filhas. Quem tem filha mulher entende imediatamente esse tipo de preocupação. Quantas vezes uma mãe pede para a filha mandar mensagem quando chegar ao destino ou em casa? Quantas acompanham pelo celular o trajeto de um carro de aplicativo ou pedem que a filha compartilhe a localização? São gestos simples, mas que revelam uma ansiedade cotidiana presente em milhares de famílias brasileiras.
Essa realidade não para por aí. Ela também se reflete de forma cruel nos noticiários. Muitas manhãs de segunda-feira começam com reportagens sobre mais um caso de feminicídio ocorrido no fim de semana. São histórias que seguem um padrão dolorosamente conhecido: mulheres assassinadas por companheiros ou ex-companheiros, muitas vezes após histórico de ameaças ou agressões. Em alguns casos, câmeras de segurança registram cenas brutais, como espancamentos dentro de elevadores de prédios residenciais. Em outros, vizinhos relatam ter ouvido gritos ou pedidos de socorro antes da tragédia. Facadas, tiros e espancamentos são sinais evidentes de uma violência extrema que, na maioria das vezes, não surge de um episódio isolado.
Nesse contexto, a segurança pública é, obviamente, uma preocupação de toda a sociedade. É preciso deixar claro que homens também são vítimas de crimes e violência urbana. Mas ignorar que mulheres enfrentam riscos específicos, como assédio, violência sexual e feminicídio, é fechar os olhos para uma realidade concreta. Políticas públicas eficazes precisam proteger todos os cidadãos, mas também considerar as vulnerabilidades que afetam grupos diferentes de maneiras distintas.
Por isso, planejamento urbano com iluminação adequada, transporte público mais seguro, policiamento preventivo em áreas de risco, ampliação de delegacias especializadas e políticas de prevenção à violência são medidas que fortalecem a segurança de toda a população e fazem diferença especial para mulheres que convivem com diversos tipos de insegurança no dia a dia.
Lidiane Aburad é advogada e gestora administrativa.
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