Cuiabá, Quinta-Feira, 26 de Março de 2026
LUIZ HENRIQUE LIMA
23.03.2025 | 05h30 Tamanho do texto A- A+

Quero ser baiano

Ser baiano é carregar consigo um patrimônio imaterial de arte, história e cultura

Costumo dizer que tenho tríplice naturalidade. Catarinense por nascimento, carioca por formação e mato-grossense por opção. Mas sinto que ainda falta algo na minha brasilidade. E vou confessá-lo em alto e bom som: quero ser baiano também.

 

Há algo na Bahia que transcende a geografia, ultrapassa os limites do tempo e se instala na alma como uma bem-aventurança indefinida

Há algo na Bahia que transcende a geografia, ultrapassa os limites do tempo e se instala na alma como uma bem-aventurança indefinida.

 

Não é apenas a beleza natural de praias de águas cálidas e um vento refrescante que balança os coqueirais. É muito mais. É a pulsação cultural que emana da combinação de múltiplas matrizes étnicas e se traduz na elegância refinada da obra de Ruy Barbosa, na beleza arrebatadora e indignada dos versos do Navio Negreiro de Castro Alves, na harmonia singela das composições de Caymmi, na poderosa voz de Betânia e na poesia dançante de Gil.

 

Quero ser baiano porque ser baiano é carregar consigo um patrimônio imaterial de arte, história, cultura e espiritualidade.

 

Ruy Barbosa, a Águia de Haia, simboliza a inteligência que floresce na terra baiana. Sua eloquência e integridade combinam força e delicadeza, como as ondas que quebram nas falésias de Itacaré. Castro Alves, com sua poesia apaixonada e engajada, mostra a Bahia como um berço de vozes que clamam por justiça e liberdade.

 

E Jorge Amado! Por meio de suas obras, conhecemos um povo, uma terra, um modo de ser. Ele nos apresenta a Bahia em sua essência: vibrante, colorida, repleta de histórias e personagens tão reais que parecem velhos conhecidos que saem das ruas do Pelourinho ou de Ilhéus para nos abraçar. É como se cada página fosse impregnada pelo aroma do dendê e pelo som dos atabaques e berimbaus de uma roda de capoeira.

 

Quando Dorival Caymmi canta o mar de Itapoã e a beleza de Marina Morena nos transporta para uma Bahia de simplicidade e leveza na vida cotidiana. Com Gil, a música baiana torna-se uma ponte entre tradição e inovação, conectando tambores ancestrais às guitarras elétricas em ritmos irresistíveis. E Betânia... Maria Betânia é a alma baiana em forma de canção. Sua voz ressoa como um canto puro e forte que transmite altivez, autenticidade e beleza.

 

E tanto mais poderia ainda falar.

 

Assisti recentemente a um vídeo em que uma autoridade do Poder Judiciário, em plena sessão de julgamento em Brasília, fazia galhofas preconceituosas contra o povo baiano, reproduzindo estereótipos que, à guisa de troças, disseminam discriminação entre brasileiros. Penalizei-me com a sua pobreza de espírito. Se ele não ama a Bahia é porque não a conhece. E se não a conhece, merece piedade.

 

Não nasci e ainda não me tornei baiano, mas sinto que renasço lá, a cada vez que me alimento de sua cultura inesgotável. Talvez um dia, sem abandonar as minhas raízes que amo e venero, consiga ser baiano também e sentir-me parte desse poema vivo que tão bem expressa o que o Brasil tem de melhor.

 

Luiz Henrique Lima é professor e conselheiro certificado independente.

*Os artigos são de responsabilidade de seus autores e não representam a opinião do MidiaNews. 

 

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