Cuiabá, Quinta-Feira, 26 de Março de 2026
GABRIEL NOVIS NEVES
02.05.2025 | 06h00 Tamanho do texto A- A+

Vento Sul

Cresci ouvindo uma expressão que hoje me faz lembrar de meu pai

Cuiabá sempre foi uma cidade quente durante todo o ano, com um curto período de chuvas.

 

Estamos nos últimos dias de abril e a chuva se faz presente com seus benefícios.

 

Os dias têm sido de temperaturas amenas, acompanhados por um ventinho agradável denominado pelos antigos de vento sul.

 

Lembro-me muito do meu pai, com seu gorro de lã, esfregando as mãos, sentado na cadeira de balanço na calçada de nossa casa, dizendo, com uma alegria inesquecível, o quão gostoso era o vento sul.

Era uma corrente de ar frio, vinda do sul do Estado de Mato Grosso, de São Paulo e do Paraná

 

Era uma corrente de ar frio, vinda do sul do Estado de Mato Grosso, de São Paulo e do Paraná.

 

Cresci ouvindo essa expressão, e em dias como hoje, a lembrança do meu pai me invade — e que saudades sinto dele!

 

Gostaria de saber, não por vaidade, como os meus filhos se lembrarão de mim.

 

Do homem caseiro?

 

Do médico generalista do interior?

 

Do professor universitário, reitor, secretário de Estado?

 

Do marido de uma mulher que mandava em casa, mas com quem vivia em plena harmonia?

 

Do homem pobre que, embora sem dinheiro, tinha credibilidade?

 

Meu pai, homem humilde e de pouca escolaridade, marcou-me intensamente com suas simples e sábias observações.

 

Quantos ensinamentos ele me transmitiu, de maneira tão fácil quanto profunda!

 

Foi um defensor intransigente do meu retorno à cidade natal para exercer a Medicina.

 

A figura do médico, pendurado no balaústre do bonde lotado, de terno e gravata, com punhos e colarinho da camisa branca encardidos pela poeira — era assim que ele me imaginava indo ao hospital, no Rio de Janeiro.

 

Esse quadro forte me fez retornar o mais rápido possível, deixando para trás dois excelentes empregos públicos concursados.

 

Hoje sei que ele tinha razão, diante da carreira que aqui construí.

 

Fica a curiosidade: como meus filhos me recordarão?

 

Eles não pertencem à geração do vento sul, mas da Inteligência Artificial.

 

Como se lembrarão de mim?


Gabriel Novis Neves é médico e ex-reitor da UFMT

 

 

 

*Os artigos são de responsabilidade de seus autores e não representam a opinião do MidiaNews. 

 

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