Cuiabá, Domingo, 15 de Fevereiro de 2026
PIONEIRISMO NA DÉCADA DE 40
15.02.2026 | 10h00 Tamanho do texto A- A+

Primeira prefeita de MT rompeu liderança tradicional de coronéis

Prefeita de Rosário Oeste em 1947 levou energia elétrica à cidade e fazia homeopáticos aos carentes

Reprodução

Imagem de Lígia Borges de Figueiredo, primeira mulher eleita prefeita em Mato Grosso

Imagem de Lígia Borges de Figueiredo, primeira mulher eleita prefeita em Mato Grosso

VITÓRIA GOMES
DA REDAÇÃO

Muito antes da presença feminina se tornar algo comum nas urnas e em cargos políticos, Lígia Borges de Figueiredo desafiava estruturas dominadas por homens no interior de Mato Grosso. Eleita prefeita de Rosário Oeste para o mandato de 1947 a 1949, ela entrou para a história como a primeira mulher a comandar um município mato-grossense por meio do voto popular, feito raro no Brasil da década de 1940.

 

Natural do distrito do Bauxi, em Rosário, Lígia nasceu em 1º de março de 1904. Era filha do coronel Artur de Campos Borges e de Mariana de Moraes Borges, família tradicional da região. Ela cresceu em um ambiente marcado pelas transformações políticas que começavam a ganhar força no País nas primeiras décadas do século XX.

 

Em 1946, quando concorreu ao cargo de prefeita aos 42 anos, o Brasil vivia um momento decisivo de redemocratização após o fim do Estado Novo de Getúlio Vargas. A deposição do presidente, em 1945, abriu caminho para a convocação de eleições gerais e para a elaboração de uma nova Constituição.

 

No pleito presidencial daquele ano, o general cuiabano Eurico Gaspar Dutra foi eleito, marcando o retorno do País à normalidade institucional. Em setembro de 1946, foi promulgada a nova Constituição Federal, restabelecendo garantias democráticas, autonomia dos estados e eleições diretas em diferentes níveis.

 

Nos estados, inclusive em Mato Grosso, esse processo significou a reorganização partidária e a retomada das disputas municipais pelo voto popular. A Constituição estadual de 1947 regulamentou a realização das eleições para prefeitos e vereadores, encerrando a fase em que os chefes do Executivo local eram nomeados.

 

Quebra de paradigma

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Lígia Borges de Figueiredo

Alguns registros de Lígia seguem preservados em arquivos históricos da Prefeitura de Rosário Oeste

 

Foi nesse ambiente de reconstrução democrática, ainda marcado por estruturas políticas conservadoras e pela predominância masculina nos espaços de poder, que Lígia se lançou candidata no interior mato-grossense. Um gesto que, à época, destoava do padrão vigente.

 

Isto porque a eleição de uma mulher naquele contexto era altamente improvável. O voto feminino havia sido reconhecido apenas em 1932 e ainda encontrava resistência cultural, sobretudo em cidades do interior, onde as decisões políticas estavam concentradas nas mãos de lideranças tradicionais, muitas vezes ligadas aos chamados “coronéis”.

 

Concorrer a um cargo majoritário e vencer uma eleição municipal, portanto, representava não apenas uma vitória individual, mas uma ruptura simbólica com padrões sociais profundamente enraizados na época.

 

Grande estudiosa da história de Lígia, a pesquisadora e historiadora Neila Barreto compartilhou parte de seus textos sobre o que descobriu da vida da figura histórica de Rosário.

 

Segundo Neila, à época, outro nome era cotado para disputar a Prefeitura de Rosário. A poucos dias do pleito, diante da avaliação de que a candidatura poderia ser derrotada, lideranças decidiram convidar Lígia para se candidatar a prefeita.

 

Ela aceitou e enfrentou Paulo Modesto nas urnas, saindo vitoriosa com 451 votos contra 161 votos de seu concorrente.

 

A viúva de Paulo Modesto, Aracy Canavarros Modesto, fez um relato a Neila em 2017 em que afirmou que o marido praticamente não fez campanha contra Lígia pelo fato dela ser sua tia.

 

O fato de uma mulher lançar-se candidata e vencer uma eleição municipal naquele período já representava, por si só, uma ruptura histórica.

 

Marcas da gestão

 

De acordo com Neila, à frente do Executivo, Lígia imprimiu dinamismo administrativo. Entre as realizações do mandato estão a doação de terreno para construção do Hospital do Amparo e a cessão de uma área de 150 hectares para a instalação de um Posto Agropecuário do Ministério da Agricultura, iniciativa estratégica para o desenvolvimento rural da região.

 

O projeto mais emblemático, segundo os registros da história e estudos coletados por Neila, foi a construção da Usina Hidrelétrica do Tombador, instalada no ribeirão de mesmo nome.

 

Viabilizada com empréstimo estadual, autorizado em 1949, a obra levou energia elétrica à municipalidade e se tornou referência por ter sido conduzida por uma prefeita em uma época em que a presença feminina na administração pública era praticamente inexistente.

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Lígia Borges de Figueiredo

Parte de sua história inserida em quadro na Sala da Mulher do Instituto Memória do Poder Legislativo

 

A área abriga atualmente a RPPN (Reserva Particular do Patrimônio Natural) Cachoeira do Tombador, reforçando o valor histórico e ambiental do local.

  

Receitas milagrosas

 

Paralelamente à vida política, Lígia também era reconhecida pelo trabalho comunitário. Produzia e distribuía remédios homeopáticos para a população carente de Rosário Oeste, sendo lembrada pelas “receitinhas” que ajudavam a aliviar males cotidianos e pela escuta atenta a quem a procurava.

 

Em uma época de acesso restrito à saúde, sua atuação extrapolava os limites do cargo público.

 

Lembrança que persiste

 

A memória de sua gestão, no entanto, enfrenta lacunas documentais. Parte dos registros se perdeu ao longo das décadas. O que se conhece hoje resulta, em grande medida, de pesquisas históricas e de relatos preservados por familiares e estudiosos como Neila.

 

Apesar da dificuldade de encontrar conteúdos de fácil acesso, em Rosário Oeste a memória de Lígia ainda segue forte e preservada na Prefeitura do município e em galerias históricas.

 

Seu legado político teve continuidade com o filho caçula, Milton Borges de Figueiredo, tendo sido prefeito de Rosário Oeste por duas vezes, de 1967 a 1970 e de 1973 a 1977.

 

O pioneirismo de Lígia antecedeu outras trajetórias femininas de destaque em Mato Grosso, como a de Sarita Baracat de Arruda, e dialoga com marcos nacionais, como a eleição de Alzira Luíza Soriano Teixeira, primeira mulher eleita prefeita no Brasil, em 1928.

 

Lígia morreu em 5 de outubro de 1990, aos 96 anos, em Cuiabá. Segundo Neila, a política deixou registrada na história mato-grossense a marca de uma pioneira que abriu caminho para a presença feminina no poder.

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