Cuiabá, Domingo, 8 de Fevereiro de 2026
1º LUGAR EM MEDICINA DA UFMT
08.02.2026 | 08h00 Tamanho do texto A- A+

Aluna enfrentava 2h de ônibus e escassez de livros e computador

Maria Gabrielly Caldeira, de 21 anos, pretende se especializar em geriatria para ajudar idosos

Arquivo pessoal

Maria Gabrielly Caldeira passou em 1° lugar de Medicina na UFMT

Maria Gabrielly Caldeira passou em 1° lugar de Medicina na UFMT

LARISSA AZEVEDO
DA REDAÇÃO

A jovem Maria Gabrielly Caldeira, de 21 anos, vive dias de alegria e expectativa após conquistar, neste ano, o 1º lugar no curso de Medicina da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). A celebração, no entanto, é acompanhada por uma trajetória marcada por dificuldades estruturais, emocionais e educacionais, que tornam a aprovação ainda mais significativa.

 

A gente não tinha acesso a livros, não tinha uma biblioteca, não tinha um lugar com acesso a computadores, não tinha nada

Natural de Brasnorte (589 km de Cuiabá), Maria Gabrielly estudou a maior parte da vida na zona rural, em um contexto de carência de infraestrutura física e pedagógica. Só para frequentar a Escola Municipal de Educação Básica Adilson José Schumacher, na comunidade rural São Bento, a estudante enfrentava, diariamente, cerca de 2 horas de deslocamento de ônibus.

 

“Saía de casa cedinho, pegava ônibus e andava por duas horas, porque as estradas eram ruins. Às vezes, o ônibus ficava atolado, eu chegava superatrasada à escola e ainda não tinha professores”, desabafou a estudante.

 

“Estudar em escola pública, e ainda na zona rural, foi muito difícil, porque a gente não tinha acesso a muitas coisas. Não tinha acesso a livros, não havia biblioteca, nem um espaço com computadores. Não tinha nada”, complementou.

Arquivo pessoal

Maria Gabrielly comemorando aprovação na Federal

Maria Gabrielly comemorando aprovação na UFMT

Além da precariedade da estrutura e das dificuldades de locomoção, ela não teve acesso regular a disciplinas fundamentais ao longo da educação básica.

 

Até o penúltimo ano escolar, em 2021, a jovem não contou com professores de ciências, física, química, inglês ou espanhol.

 

Historicamente, no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), ciências da natureza é a área em que os estudantes encontram maior dificuldade para alcançar boas notas, justamente aquelas em que Maria Gabrielly apresentava mais defasagem.

 

"Meu primeiro contato com química, física, espanhol e inglês foi apenas no 3º ano do ensino médio, em 2022. Eu tive uma falta muito grande de base nessas matérias. Para mim, conseguir evoluir demorou muito, e foi por isso que levei muitos anos para conseguir passar”, afirmou a jovem.

 

Outro desafio enfrentado foi a convivência, na mesma sala, com alunos da Educação de Jovens e Adultos (EJA), o que dificultava o trabalho dos professores. 

 

“Eu estudei com pessoas que estavam fazendo o EJA, pessoas mais velhas que não sabiam ler, que estavam aprendendo tudo desde o início. Era muito difícil, o professor não conseguia conciliar uma sala do ensino médio com essas pessoas que tinham muita dificuldade para aprender”, relatou.

 

A escassez de docentes também era recorrente, já que poucos aceitavam o deslocamento até a escola rural. “Os professores faziam o que eles podiam, mas era muito difícil”, disse.

 

O último ano do ensino médio foi concluído na Escola Estadual Professor João Batista, em Tangará da Serra, em 2022, longe da família. Após isso, a estudante passou três anos em cursos preparatórios (dois no município e um em Cuiabá), período que, segundo ela, poderia ter sido reduzido caso tivesse recebido uma educação básica adequada desde o início.

 

Dos esforços à conquista 

 

Nos dois primeiros anos após a formação, 2023 e 2024, a família arcou com os custos de um cursinho particular, e ela também participou do pré-Enem, oferecido pela Secretaria de Estado de Educação (Seduc).

 

Arquivo pessoal

Estudos de Maria Gabrielly

Maria Gabrielly fez três anos de cursinho para passar no Enem

“Eu estudava todo dia de manhã e à tarde, quando chegava a noite continuava estudando online, no curso gratuito pelo YouTube”, explicou.

 

Mesmo com a rotina intensa, os resultados iniciais não foram suficientes para alcançar o curso desejado, o que quase a levou à desistência.

 

“Eu enfrentei muitas críticas, comparações, cobranças. Muitas pessoas da família sempre falavam que minha mãe estava gastando dinheiro à toa, que ela tinha que me mandar para a Bolívia ou para o Paraguai, que não ia ter futuro ficar estudando, que ela estava gastando dinheiro, que eu nunca ia conseguir”, afirmou. 

 

“Me abalava muito ver essas pessoas falando para os meus pais que eu estava gastando o dinheiro deles à toa, que eu não ia conseguir. Então, assim, isso dói muito e é muito difícil”, completou. 

 

Me abalava muito ver essas pessoas falando para os meus pais que eu estava gastando o dinheiro deles à toa, que eu não ia conseguir. Então, assim, isso dói muito

Abalada pelas frustrações, pela pressão de parte da família e pela distância dos pais, Maria Gabrielly estava prestes a abandonar o sonho.

 

“Eu pensei em desistir, já não aguentava mais ficar longe do meu pai e da minha mãe. Tudo era muito difícil, porque eu não conseguia vê-los sempre. Então sentei para conversar com minha mãe e expliquei o quanto era difícil. Meu irmão sentou com a gente e disse que, por ele, eu iria embora para Cuiabá e tentaria mais um ano”, relatou.

 

Com o apoio dos pais, do irmão e do namorado, a jovem decidiu tentar pela última vez e se mudou para Cuiabá, no início de 2025. Na Capital, conseguiu uma bolsa de quase 100% em uma escola particular e complementava os estudos com um curso online emprestado por amigas, que assinavam uma plataforma.

 

A rotina era exaustiva: cerca de 18 horas de estudo por dia, com pouco contato com a família, chegando a ficar até três meses sem visitá-la.

 

“Conciliar os estudos com a vida pessoal e a família sempre foi muito difícil, porque, neste último ano, eu não tinha ninguém da família comigo, eu estava sozinha. Além disso,

precisava cuidar das coisas de casa, ir para a escola e estudar, sem ter ninguém para ficar comigo ou para conversar. Eu chorava muito, me sentia muito sozinha”, afirmou.

 

Mesmo assim, manteve contato constante por ligações e seguiu firme até o Enem. “Eu fui fazer a prova já mais leve. Eu não sei explicar o que aconteceu, mas não foi um ano como os outros, em que eu estava pilhada, surtada, achando que tudo estava dando errado. No final, deu tudo certo”, disse.

 

A notícia da aprovação foi recebida ao lado da família, em Brasnorte, e veio acompanhada da conquista do 1º lugar.

 

 

“Nossa, foi uma alegria que não tem nem explicação. Todo mundo chorou muito, todo mundo ficou muito feliz, e eu vi junto com todos eles. [...] Só de conseguir passar em Medicina já é um sonho se tornando realidade; conquistar o 1º lugar é uma sensação indescritível, que não tem explicação. Estou muito, muito feliz”, disse a jovem.

 

Sonho da geriatria 

 

Só de conseguir passar em medicina já é um sonho se tornando realidade, conquistar o 1º lugar é uma sensação incondicional

Maria Gabrielly já definiu a especialidade que deseja seguir: geriatria. A escolha está ligada à experiência pessoal com a avó, que adoeceu e faleceu há alguns anos, após os médicos informarem à família que não havia mais possibilidades de tratamento. A jovem, no entanto, acredita que ainda poderia ter sido feito mais.

 

Além disso, passou a refletir sobre a forma como os idosos são tratados socialmente. “E eu quero tornar isso diferente. Quero poder ajudar pessoas doentes e idosos, dando todo o carinho que eles merecem, porque essas pessoas são muito invisibilizadas. A sociedade as exclui muito, deixando-as sozinhas, abandonadas”, afirmou.

 

Arquivo pessoal

Maria Gabrielly com amigas

Maria Gabrielly e amigas, que a ajudavam no processo de estudos

“Ela [avó] se sentiria realizada, porque eu sempre dizia que queria fazer Medicina, mas isso se tornou mais forte após a morte dela. Acho que ela ficaria muito feliz, muito feliz mesmo, de me ver alcançando o meu sonho”, completou a jovem.

 

Para os sonhadores 

 

Apesar da dedicação extrema aos estudos, Maria Gabrielly reconhece que o excesso pode trazer prejuízos. “Às vezes, você estuda 20 horas por dia. Nossa, que loucura. Não adianta, porque, se cinco horas do seu dia foram produtivas e as outras 15 não, não resolve. Você precisa ter um estudo produtivo”, afirmou.

 

“Ah, e se eu pudesse voltar no tempo e falar comigo mesma, eu diria para ter momentos de lazer, de sair com a minha família, porque eu estudava muito e, às vezes, estudar tanto, tanto, tanto, não é bom”, complementou.

 

Para quem se sente desmotivado, a jovem reforçou que o processo é longo e difícil, mas possível.

 

“Hoje, o meu conselho para quem quer fazer Medicina e se sente atrasado ou desmotivado é: não desista. Não escute as pessoas de fora, porque há muitos comentários negativos, dizendo que você nunca vai passar, que nunca vai conseguir, que é uma decepção. Mas, se for para ser a vontade de Deus, você vai conseguir, sim. Continue lutando pelos seus sonhos”, afirmou.

 

Enquanto aproveita o tempo com a família antes do início das aulas, Maria Gabrielly guarda o orgulho da conquista. A estudante irá cursar Medicina no campus da UFMT em Sinop, mais próximo dos familiares, e aguarda com expectativa os próximos passos da nova fase.

 

“As pessoas não sabem o quanto essa conquista foi difícil e falam que foi fácil, mas não foi. Eu sofri muito, chorei muito e, hoje, essa conquista é, para mim, uma prova viva de que tudo é possível. [...] A minha vez chegou, e de uma forma que eu jamais esperava, porque passar em 1º lugar é um sonho mais do que realizado”, finalizou.

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Arquivo pessoal

Estudos de Maria Gabrielly

Maria Gabrielly estudos

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Maria Gabrielly estudos

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Maria Gabrielly com seus pais

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Maria Gabrielly com irmão e cunhada

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Maria Gabrielly com namorado

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Maria Gabrielly estudos com padrinhos

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Maria Gabrielly com pais após descobrir aprovação

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Maria Gabrielly após último dia de prova no Enem

Arquivo pessoal

Maria Gabrielly comemorando aprovação




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