Vanderlei Alves de Moraes
Fora do perímetro urbano de Cuiabá, após passar por inúmeras fazendas e pastos verdes, onde a temperatura é amenizada pela presença de árvores e o ar se torna mais leve, está o distrito de Aguaçu. Em suas ruas tranquilas, formadas majoritariamente por residências e alguns comércios, vive uma pequena população.

Marcelino da Cruz, de 68 anos, é uma dessas pessoas. Nascido e criado no distrito de Aguaçu, ele afirmou em entrevista ao MidiaNews que não há lugar no mundo que substitua a região.
“Nasci e fui criado aqui. No mesmo lugar em que fui criado, criei meus cinco filhos. [...] Conheço bastante lugarzinhos em Mato Grosso e Goiás, onde estive a trabalho, mas um lugar tão bom quanto aqui, para mim, nunca existiu, nunca vi”, afirmou.
O pedreiro aposentado, que trabalhava fora por falta de empregos suficientes na comunidade, pertence a uma época em que as crianças sequer tinham bola e brincavam com a própria criatividade, adaptando-se ao ambiente.
Criado em maio de 2011 pela Lei Municipal nº 5.395, o distrito do Aguaçu pertencia anteriormente ao distrito de Nossa Senhora da Guia, juntamente com as comunidades de Sucuri e Pequizeiro. No entanto, muito antes disso, já possuía história e identidade próprias.
“Eu me acostumei aqui, é tranquilo, tem muita paz. A qualquer hora da noite você pode sair e sentar na varanda, não tem perigo de nada. Já fiquei em Cuiabá, na casa da minha filha, e lá, quando escurece, tem que estar tudo para dentro. Ah, não me acostumo com isso”, disse.
Apesar do cenário atual, a região — batizada em referência ao Rio Coxipó-Açu — que abriga 1.455 moradores, distribuídos entre 169 residências urbanas e 384 rurais, segundo o Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), nem sempre apresentou esse perfil pacífico.
Ali, onde também foram criadas as sesmarias, propriedades concedidas pelo governo português a grandes proprietários, iniciou-se a formação de diferentes grupos sociais.
Victor Ostetti/MidiaNews
Praça do Distrito do Aguaçu
Victor Ostetti/MidiaNews
O Distrito do Aguaçu fica a aproximadamente 35 km de Cuiabá
As festas de santo mobilizam famílias inteiras, definem responsabilidades coletivas e reforçam os laços entre vizinhos. Por meio de doações, mutirões e rituais, os moradores conseguem manter essas tradições ao longo de décadas.
“Há várias festas, aqui temos cerca de seis por ano, muito boas, com três dias de duração. No sábado tem o festão, no domingo o leilão, com itens e até gado e, na segunda-feira, o encerramento com feijoada gratuita para a população”, afirmou o subprefeito do distrito, Vanderlei Alves de Moraes, conhecido como Derlei Primo.
As preparações para a próxima festa, em homenagem ao Senhor Bom Jesus, já começaram. Apesar de ocorrer apenas em junho, no salão comunitário, a arrecadação de doações é feita com antecedência.
“Por exemplo, para a festa de junho, já saiu a bandeira. Os festeiros percorrem as comunidades da região aos sábados, anunciando o evento e pedindo contribuições. Há fazendeiros que doam gado, outros ajudam com diferentes itens. As festas de santo funcionam muito nesse sistema de colaboração”, explicou.
“A festividade é alegria total. Vêm bandas de Cuiabá, pessoas de fora, porque muita gente tem parentes aqui. A festa é boa, chama atenção, é divulgada nas redes sociais e no rádio. Chegam a vir três ou quatro bandas, e reúne muita gente”, acrescentou.
Apesar da predominância do catolicismo, há também igrejas evangélicas na região, que mantêm suas próprias tradições, como feiras gastronômicas, festivais de pamonha e brechós.
Todas essas atividades atraem grande público, especialmente aos fins de semana e feriados, quando o distrito de Aguaçu recebe muitos turistas e proprietários de chácaras que buscam contato com a natureza, principalmente às margens do Rio Coxipó-Açu.
O rio, aliás, é o principal ponto turístico da comunidade e representa uma importante fonte de renda para os moradores, conforme destacou o subprefeito.
“A principal atração aqui é o banho. Aos domingos, sábados e feriados é quando o dinheiro circula na comunidade, porque o pessoal vem aos mercados, compra bebidas, carnes. Alguns já trazem de Cuiabá, mas, quando falta, compram aqui. Há muitas chácaras, então o pessoal chega cedo e faz as compras”, relatou.

Além disso, o almoço nesses dias é o forte da comunidade, especialmente a galinha caipira, que atrai os visitantes. Diversas mulheres da comunidade, incluindo a esposa de Marcelino, Valvina Pinho da Cruz, preparam grandes quantidades de comida para atender ao público.
“Tem opção da pessoa vir no final de semana, ou dia de semana mesmo, almoçar para cá, quando quer comer uma comida diferente, por exemplo”, disse Derlei.
No entanto, o carro-chefe do distrito continua sendo a agricultura familiar, com pequenos produtores de hortaliças, mandioca, quiabo, jiló, abóbora e limão.
Eles fornecem produtos para a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) e para feiras de Cuiabá, garantindo a circulação da economia local.
A renda da população também é complementada por trabalhadores do comércio local, por aqueles que se deslocam até Cuiabá e por funcionários de empresas de cimento próximas ao distrito.
Conquistas recentes
A realidade do Distrito do Aguaçu começou a mudar de forma mais concreta a partir da reorganização da própria comunidade. Segundo Derlei, esse processo teve início com a retomada da associação de moradores, que estava desativada há anos.
“O Aguaçu evoluiu muito. Quando a gente chegou aqui, uns 14 anos atrás, estava tudo meio parado. A gente conseguiu sacudir o Aguaçu”, afirmou.
De acordo com ele, o então presidente havia se afastado há algum tempo, e um novo grupo decidiu reorganizar a entidade. Com apoio da Federação Mato-grossense de Associações de Bairros (Femab), os moradores formaram uma chapa e realizaram um processo de aclamação para retomar oficialmente as atividades.
Uma das primeiras conquistas veio na área do abastecimento de água, que até então era limitado e irregular. A água vinha de um reservatório de 15 mil litros.
Com a mobilização comunitária, os moradores passaram a cobrar soluções do poder público e a regularizar cadastros, evidenciando a demanda existente.
O resultado foi a ampliação significativa da capacidade de abastecimento. “Hoje nós temos duas caixas d’água, cada uma com 150 mil litros, que gera 300 mil litros, e uma bomba com vazão potente. Nem falta água, todo dia tem água”, disse.
Com essa questão encaminhada, a associação passou a buscar outra demanda histórica: o asfaltamento das vias de acesso.
“A gente correu atrás do asfalto. O progresso está chegando e não podia ser diferente aqui. [...] A gente conseguiu parceiros, fizemos reuniões, e falaram: vamos conseguir, o governador Mauro Mendes vai ajudar. E conseguimos trazer o asfalto”, disse.
As obras contemplaram rodovias importantes, como a MT-401, já concluída, e a MT-402, em fase final.
A chegada do asfalto abriu caminho para outra conquista aguardada há anos: a implantação do transporte coletivo regular entre o Aguaçu e Cuiabá. “A linha de ônibus é um sonho nosso desde 2019”, afirmou Derlei.
Antes disso, o transporte era mantido de forma particular por um morador. “Tem que agradecer muito ao Dauto. Ele aguentou todos esses anos levando pessoas doentes, produtores, ajudando a comunidade”, disse.
Com o desgaste dos veículos, o serviço se tornou inviável para o morador. No entanto, com o asfalto concluído, a associação conseguiu o transporte público, que começou a funcionar a menos de dois meses, de segunda a sábado.
O principal desafio
Apesar dos avanços, a principal dificuldade da comunidade ainda é a locomoção dos moradores.
Larissa Azevedo/MidiaNews
Escola Professora Udeney Gonçalves de Amorim
Isso porque muitas famílias que vivem em áreas rurais, como a Cooperativa e o Assentamento da Paz, estão a quilômetros da região central do distrito de Aguaçu, onde ficam o posto de saúde e a escola, e enfrentam dificuldades para acessar esses serviços.
A situação é agravada pelas condições precárias das estradas, ainda sem pavimentação, além de uma ponte deteriorada que, segundo Derlei, está próxima de se tornar inutilizável.
A comunidade já acionou a Prefeitura de Cuiabá, responsável pela manutenção das vias, e aguarda providências.
Outro desafio está na educação. O distrito conta com a Escola Professora Udeney Gonçalves de Amorim, mas a unidade não oferece ensino médio, o que obriga os jovens a se deslocarem até a Escola Estadual Filogônio Corrêa, no distrito da Guia.
A rotina diária acaba se tornando desgastante para as famílias, conforme relata o subprefeito.
“As aulas na Guia eram à noite. Conseguimos conversar e trazer para o período diurno, mas ainda estava difícil. Neste ano, o ensino médio até começou atrasado. Também havia problemas no transporte, mas conseguimos ajustar, e hoje ele funciona nos períodos matutino e vespertino”, disse.
Ainda assim, os moradores aguardam o dia em que não precisarão enviar os filhos a outros distritos ou à Capital para estudar.
Victor Ostetti/MidiaNews
Marcelino e Valvina criaram os cinco filhos no Distrito do Aguaçu
A Educação de Jovens e Adultos (EJA) também é uma demanda latente, especialmente entre aqueles que não tiveram oportunidade de estudar, já que, no passado, o ensino local não ultrapassava a 4ª série.
“Tem muitos chacareiros aqui que querem fazer a EJA, terminar os estudos, e não têm condições, porque trabalham de manhã e à tarde. Se houvesse a EJA à noite aqui, eles conseguiriam concluir”, afirmou.
Mesmo diante dos desafios, o distrito de Aguaçu, com sua praça central, igrejas, escola, posto de saúde e um campo de futebol conhecido até entre jogadores amadores de Cuiabá, ocupa um espaço singular na vida de seus moradores.
Para Marcelino e sua esposa, que não puderam concluir os estudos, mas incentivaram os cinco filhos a seguir esse caminho; para Vanderlei, que se encantou gradualmente pelo local, a ponto de deixar a Capital para viver ali; e para as pouco mais de mil pessoas que tiram dali o sustento, a região não é apenas um distrito de Cuiabá é, acima de tudo, lar.
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