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05.04.2026 | 08h00 Tamanho do texto A- A+

Pesquisadora de Mato Grosso revolucionou a história de doença letal no país

Rosane Hahn participou da descoberta de uma nova espécie do fungo causador de enfermidade

Victor Ostetti/MidiaNews

Rosane Hahn, pesquisadora responsável por descoberta da nova espécie em MT

Rosane Hahn, pesquisadora responsável por descoberta da nova espécie em MT

LIZ BRUNETTO
DA REDAÇÃO

A descoberta de uma nova espécie do fungo causador da paracoccidioidomicose (PCM) em Mato Grosso revolucionou o entendimento sobre essa doença silenciosa, letal e endêmica na América Latina, considerada hoje a oitava que mais mata por doenças infecciosas no Brasil.

 

Isso revolucionou a história da paracoccidioidomicose, doença endêmica na América Latina

A doença é uma micose sistêmica grave, sem cura, que pode causar sequelas severas e levar à morte. Pessoas que trabalham com a terra — seja na lavoura, no garimpo, operando máquinas agrícolas ou até mesmo cuidando de um jardim — têm maior risco de infecção.

 

A pesquisadora Rosane Hahn, do programa de pós-graduação em Ciências da Saúde da Faculdade de Medicina da UFMT, foi a responsável pela descoberta em Mato Grosso, em parceria com a Universidade de Brasília (UnB).

 

“Foi uma descoberta que eu nunca imaginei na minha trajetória de pesquisa. Isso revolucionou a história da paracoccidioidomicose”, disse em entrevista ao MidiaNews

 

A nova espécie foi descoberta há quase duas décadas, a partir de estudos com amostras de pacientes atendidos no Hospital Universitário Júlio Müller (HUJM), em Cuiabá, referência no tratamento de doenças infecto-parasitárias.

 

 

 

Batizada de Paracoccidioides lutzii, em homenagem ao médico Adolfo Lutz, que descreveu o primeiro caso da doença em 1908, em São Paulo, a nova espécie ajudou a explicar um mistério que, à época, intrigava médicos: pacientes com sintomas graves apresentavam exames negativos. A pesquisa foi fomentada pela Fundaçao de Amparo à Pesquisa do Estado de Mato Grosso (Fapemat).

 

“Há 23 anos, tínhamos pacientes de Cuiabá e de várias cidades de Mato Grosso com quadros leves, moderados e graves, mas com a sorologia negativa. Alguma coisa estava errada, porque o paciente estava doente, piorando, à beira da morte, e a sorologia era negativa. Era um contrassenso. Os médicos ficavam furiosos, tinham vontade de rasgar os exames”, afirmou. 

 

Hoje sabe-se que se tratava de um resultado falso negativo. 

 

 

Existem alguns estados com maior concentração de indivíduos infectados, e Mato Grosso é um deles

À época, apenas uma espécie era conhecida, a Paracoccidioides brasiliensis, utilizada como base nos exames em todo o país. A descoberta mostrou que o soro de 96% dos pacientes de Mato Grosso não reagia ao antígeno produzido em São Paulo, mas sim aos desenvolvidos a partir de amostras locais.

 

“Essa é uma doença endêmica na América Latina. O Brasil, infelizmente, é o campeão de audiência. Existem alguns estados com maior concentração de indivíduos infectados, e Mato Grosso é um deles”, afirmou.

 

A doença atinge principalmente populações mais vulneráveis, especialmente trabalhadores que manipulam o solo.

 

“Mato Grosso é um estado eminentemente agrícola. A gente exporta soja, algodão, tudo o que se planta aqui. Essa característica nos coloca nesse cenário”, disse.

 

 

Novos passos

 

A descoberta da nova espécie, consolidada entre 2009 e 2011, permitiu o desenvolvimento, em 2025, de um antígeno polivalente capaz de reunir todas as variantes conhecidas do fungo — a P. brasiliensis, suas quatro espécies crípticas (S1, PS2, PS3 e PS4) e a P. lutzii.

 

A composição já foi entregue ao Ministério da Saúde, que financiou o projeto e agora, por meio da Fiocruz, será responsável pela produção em escala e distribuição aos Laboratórios Centrais (Lacens) de todo o país. A medida deve evitar que pacientes continuem recebendo resultados falsos negativos em outras regiões.

 

O novo antígeno foi desenvolvido por uma rede de pesquisadores de instituições como USP, Fiocruz (RJ), Unifesp, Instituto Adolfo Lutz (SP) e UFMT.

 

 

 

“Esse é outro passo importante. Mato Grosso foi chamado porque fomos pioneiros no isolamento e na caracterização dessa nova espécie. Não tenha dúvida de que foi a espécie lutzii que deu o grande know-how para esse antígeno, que deve ser produzido pela Fiocruz e distribuído pelo Brasil”.

 

A importância da sorologia vai além do acompanhamento clínico da doença. Em muitos municípios de Mato Grosso, onde não há estrutura laboratorial ou profissionais capacitados para o diagnóstico micológico, ela funciona como ferramenta de diagnóstico indireto.

 

Outro avanço importante foi a inclusão da PCM como doença de notificação compulsória em Mato Grosso, em 2016. Isso significa que todos os casos diagnosticados devem ser registrados no sistema de saúde.

 

O estado é um dos poucos a adotar a medida, que, na prática, trouxe benefícios diretos, permitindo ao paciente receber gratuitamente um tratamento mais eficaz, de até seis meses — que antes levava até dois anos e que muitos abandonavam com a remissão dos sintomas clínicos, ocasionando recidivas.

 

“O tratamento é com a droga itraconazol, um antifúngico que atua diretamente sobre o fungo. É diferente do que a gente tinha, que era um antimicrobiano”, explicou.

 

De acordo com a especialista, a notificação não serve apenas para contabilizar casos, mas principalmente para garantir que o paciente, muitas vezes em situação vulnerável, tenha acesso ao diagnóstico e ao tratamento adequado. Em um contexto de doença negligenciada e de forte impacto socioeconômico, esses avanços representam um ganho significativo para a saúde pública em Mato Grosso.

 

Entenda o risco

 

A PCM é considerada uma doença ocupacional. A infecção ocorre pela inalação de esporos do fungo presentes no solo contaminado. Ela atinge principalmente homens em idade produtiva, entre 30 e 50 anos, mas também pode acometer crianças, adolescentes e adultos jovens. Não é uma doença contagiosa.

As mulheres estão menos protegidas antes da puberdade e após a menopausa

 

Segundo a especialista, a proporção é de 15 homens para cada mulher. Isso ocorre porque o estrogênio, principal hormônio feminino, bloqueia a conversão do esporo — forma infectante que é inalada — para a forma parasitária.

 

“As mulheres estão menos protegidas antes da puberdade e após a menopausa”, explicou.

 

A PCM pode se manifestar em diferentes partes do corpo. Na cavidade oral, provoca lesões com pontos vermelhos que lembram uma amora (estomatite moriforme). Na mucosa nasal, pode causar feridas semelhantes às da leishmaniose. Na pele, surgem nódulos e placas avermelhadas, além de gânglios com e sem pus, como ínguas no pescoço.

 

A doença também pode causar tosse e falta de ar, sendo frequentemente confundida com a tuberculose. No entanto, no raio-X, apresenta uma imagem característica, semelhante a uma “asa de borboleta”.

Victor Ostetti/MidiaNews

Rosane Hanhn mostra fungos Lutzii no laboratório

À esquerda o fungo parasitário (presente no organistmo); à direita, o fungo infectante (presente no ambiente)

 

Além disso, pode provocar emagrecimento devido às lesões na garganta, dificultando a alimentação, e atingir ossos, olhos e, na forma aguda, causar aumento do fígado e do baço.

 

Conforme levantamento de dados do Sinan, no SUS, que será apresentado no Congresso da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical, entre 2015 e 2024, 685 pessoas morreram de PCM.

 

Rosane Hahn alertou, no entanto, que esse número é extremamente subnotificado: “É o número que tem, não é o número real”, disse.

 

“Quanto mais cedo for feito o diagnóstico, maior é a chance desse paciente ter vida normal, sem sequelas e voltar ao trabalho como se nada tivesse acontecido”.

 

Mistérios a serem desvendados

 

A identificação de uma nova espécie do fungo abriu caminhos importantes, mas também trouxe novas dúvidas. Ainda não se sabe se essa variante é mais agressiva do que as já conhecidas, nem se está relacionada aos casos com maior risco de sequelas ou morte.

  

Outra questão em investigação é a possibilidade de um mesmo paciente estar infectado por mais de uma espécie ao mesmo tempo e se isso poderia influenciar na evolução da doença.

 

Outra lacuna que os pesquisadores tentam sanar é o próprio ambiente onde o fungo vive. “Não sabemos a profundidade em que o fungo está no solo nem o tipo de solo. Isso ainda é um enigma. Tentamos isolar o solo e crescem muitos fungos contaminantes”, afirmou a pesquisadora.

 

 

A sorologia

 

A sorologia é um exame de sangue que detecta a resposta do organismo ao fungo, medindo a presença de anticorpos. Embora não seja o método principal de diagnóstico, ela ganha importância em locais onde não há estrutura para identificar o fungo diretamente no microscópio. Nesses casos, um resultado positivo já indica que o paciente está infectado.

 

O exame funciona a partir da reação entre antígeno e anticorpo: o antígeno, produzido em laboratório a partir do fungo isolado, entra em contato com o soro do paciente e, se houver reação, confirma a presença da doença.

 

A reportagem do MidiaNews esteve nos laboratórios da UFMT, e os pesquisadores Rosane Hahn e Ronaldo Souza Pereira, responsável por realizar a sorologia de todas as amostras que chegam tanto do HUJM quanto de projetos em andamento, mostraram como funciona esse processo.

 

Veja:

 

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Rosane Hanhn

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Rosane Hanhn mostra fungos Lutzii no laboratório

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Rosane Hanhn mostra fungos Lutzii no laboratório

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Rosane Hanhn mostra fungos Lutzii no laboratório

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Rosane Hanhn mostra fungos Lutzii no laboratório

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Rosane Hanhn mostra fungos Lutzii no laboratório

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Rosane Hanhn mostra fungos Lutzii no laboratório

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Rosane Hanhn mostra fungos Lutzii no laboratório

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Rosane Hanhn mostra fungos Lutzii no laboratório

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Rosane Hanhn mostra fungos Lutzii no laboratório

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Lâminas de sorologia do fungo Lutzii

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Lâminas de sorologia do fungo Lutzii

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Lâminas de sorologia do fungo Lutzii

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Lâminas de sorologia do fungo Lutzii

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Lâminas de sorologia do fungo Lutzii

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Lâminas de sorologia do fungo Lutzii

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Lâminas de sorologia do fungo Lutzii

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Lâminas de sorologia do fungo Lutzii

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Fungo Lutzii no laboratório da UFMT

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Fungo Lutzii no laboratório da UFMT

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Fungo Lutzii no laboratório da UFMT

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Fungo Lutzii no laboratório da UFMT

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Fungo Lutzii no laboratório da UFMT

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Fungo Lutzii no laboratório da UFMT




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