Estudantes durante o intercâmbio
“A sociedade, por muito tempo, via os filhos da escola pública como descuidados e desleixados. E hoje, graças a esse projeto, eles recuperaram a sua dignidade.” A declaração é de Luciana Matos, mãe de Matheus de Matos, de 16 anos, que acaba de retornar de um intercâmbio de 21 dias na Inglaterra.

O programa MT no Mundo, que leva estudantes da rede estadual para experiências internacionais, é apontado por famílias como decisivo para transformar a percepção sobre a escola pública e resgatar o orgulho dos alunos.
A fala de Luciana resume uma história que por anos foi marcada pelo descrédito e pelo abandono da rede pública de ensino. Ex-aluna, ela ainda carrega viva a memória do estigma e da falta de oportunidades que acompanhavam quem estudava em escola pública.
“Há muitos anos, nós, filhos da rede pública, tínhamos vergonha de dizer de onde éramos. O Governo não está apenas dando a oportunidade de conhecer o mundo, mas está resgatando esse orgulho, esse respeito pela escola pública”, afirmou.
“Antes, a rede pública era vista como desacreditada, abandonada. Hoje, os estudantes andam de cabeça erguida. Eles não têm mais vergonha de dizer que são alunos da rede pública. E isso é o mais importante desse projeto".
Matheus foi um dos cem estudantes da rede estadual selecionados para a edição de 2025. Entre os escolhidos - de um universo de cerca de 350 mil alunos — também estão Gabriel Roque, de 15 anos, e Giovanna Souza, de 16.
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Matheus e a mãe, Luciana, que veem o programa como chave para mudança na educação pública
Estudantes de escolas da região metropolitana de Cuiabá, eles viajaram em outubro e foram acolhidos na terra da rainha por host families, famílias locais que os receberam em casa.
Durante três semanas, dedicaram mais de 20 horas semanais ao estudo intensivo do idioma. A oportunidade, que antes parecia um sonho distante, demorou a “cair a ficha”.
“Eu sabia que concorria, mas não acreditava. Quando soube que fui selecionada, fiquei impressionada, sem palavras, sem reação, na verdade. Eu não estava acreditando. Minha ficha demorou mais de cinco meses para cair de verdade, para eu entender que ia para fora do Brasil”, contou Giovanna.
“Diferente do eu de agora, antes eu não tinha esse potencial de falar: ‘ah, eu vou conseguir um intercâmbio para fora do país entre 300 mil alunos da rede estadual’. Eu não esperava, mas agora comecei a acreditar que consigo as coisas”, disse Gabriel.
Giovanna e Gabriel estudam em escolas de tempo integral vocacionadas ao ensino de idiomas, a Antônio Epaminondas, no bairro Baú, em Cuiabá, e a Honório Rodrigues de Amorim, no bairro Cristo Rei, em Várzea Grande, respectivamente.
O foco dessas unidades no ensino de inglês e espanhol faz parte da mudança de cenário mencionada pela mãe de Matheus.
Reestruturação
A lembrança de Luciana não é de uma realidade tão distante, o próprio filho viveu isso. Segundo Matheus, que estudava na escola Prof.ª Alice Fontes, até pouco tempo a unidade tinha estrutura precária e alagava quando chovia forte.
“Antigamente, a escola não tinha muita estrutura, sabe? Então era bem difícil. Teve um dia em que chegou a inundar a minha sala com a água da chuva. Mas eles conseguiram melhorar, mudar isso”, relatou o estudante.
Entretanto, nos últimos anos a educação tem passado por uma reestruturação no estado. Segundo a Seduc (Secretaria de Estado de Educação), atualmente a Pasta investe R$ 86,1 milhões na reforma de nove escolas e desde 2019 já destinou R$ 381,9 milhões para a modernização da infraestrutura escolar somente em Cuiabá, com a reforma de 32 escolas já entregues, incluindo a da própria Alice Fontes, onde ele estudou.
Tudo isso faz parte de uma política pública que envolve outros componentes e que já vem mostrando resultado. O Programa Educação 10 Anos reúne uma série de iniciativas para que, em 2032, o estado tenha índices melhores que há dez anos antes, em 2022, no Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica), na alfabetização e na evasão escolar. Veja o gráfico abaixo:

O diretor da escola Honório Rodrigues de Amorim, onde estuda Gabriel, o servidor Sergio Fidélis, disse que até pouco tempo atrás pensar que um aluno de sua escola pudesse ter a chance de fazer um intercâmbio era “inviável”. A escola teve dois selecionados na última edição. Na edição de 2025, alunos de 55 municípios do estado foram selecionados. Veja o mapa abaixo:

“Os servidores falam assim eu trabalho em uma escola onde tem alunos que participam do intercâmbio, com orgulho, e isso até pouco tempo era inviável. [O intercâmbio] é algo inédito, que eu tinha visto só na rede particular, para a rede pública é inédito”, declarou.
Aliás, o termo “orgulho” é também citado por outras pessoas, como a professora de inglês de Giovanna, Gonçalina Auxiliadora Monteiro, ao descrever o que sente vendo a aluna realizar um sonho.
“Eu fico muito feliz, um orgulho. A felicidade dela é a minha, porque quando eu vejo que meu aluno está saindo de uma escola que você está ensinando, que você está mostrando para ele o futuro, isso eu me sinto mais feliz de meu aluno conseguir ir do que eu mesma ter ido”, contou a professora.
Segundo a Gonçalina, a estudante retornou com uma visão mais ampla de outras culturas, já que teve acesso a outra vivência e contato com pessoas de outras nacionalidades.
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Giovanna e sua professora de Inglês Gonçalina, que relatou orgulho da aluna
“Ela abriu os olhos dela, hoje ela vê o inglês com outros olhos, aprendeu a valorizar coisas que ela não valorizava antes, então eu fico muito feliz. Ela teve essa oportunidade que pouca gente tem, é um ganho profissional porque ele vai abrir um leque na profissão, o inglês é uma língua falada no mundo todo”.
Luciana também conta que seu filho Matheus voltou diferente da viagem. “Ele veio muito mais independente, mais cuidadoso com a parte financeira. Esse projeto é tão interessante, que eles mostram pro aluno que eles estão preparados para o mundo, para se virar sozinhos”.
Reflexos
Quando se pensa em um programa de intercâmbio no exterior para jovens de baixa renda, é impossível não pensar nos efeitos sociais que a oportunidade por ter. Com o foco no ensino de um novo idioma, o certificado traz um novo peso ao currículo dos estudantes que em breve entrarão no mercado de trabalho com esse diferencial.
Todos eles destacaram para a reportagem como a viagem foi muito importante para cada um, do despertar da abertura da mente até o peso para a vida profissional. Entretanto, um outro aspecto não pode ser ignorado.
Além de afetar a vida pessoal de cada selecionado, isso tem causado um ‘efeito borboleta’ no ambiente escolar de cada um. Ao ver o colega conseguindo a oportunidade, mais estudantes estão se dedicando mais, se inspirando para, quem sabe, estar na lista de selecionados para a edição seguinte.
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Gabriel Roque e o diretor Sergio Fidélis; escola teve dois alunos selecionados
Agora, o sonho distante é algo ‘palpável’.
“É um incentivo a mais para aqueles alunos que de uma certa forma estão um pouco desmotivados. Vendo o seu colega do lado da sala de aula participando do intercâmbio, indo para um outro país, motiva mais sim”, disse o diretor da Honório Rodrigues, observando o comportamento de seus alunos.
O fator pode contribuir para a melhora da nota de Mato Grosso no IDEB, indicador que mede a qualidade da educação básica no Brasil.
O índice de Mato Grosso já vem melhorando nos últimos anos, passando da 22º colocação em 2019 para a 8º em 2023, de acordo com os dados divulgados em 2024. Com isso, o estado já atingiu a meta que tinha para 2026, de estar entre os 10 primeiros colocados. Veja o gráfico:

“Até a questão de matrículas novas para a escola, aumentou este ano [para o próximo], após esse intercâmbio. Então, creio que, de um modo geral, a escola ficou mais motivada”, garantiu Fidélis.

Segundo o diretor, isso mexe até com a autoestima dos servidores. É como se o voo não atingisse somente quem decola, mas toda a comunidade.
“Todos os servidores ficaram contentes, da cozinha, da limpeza, da secretaria, da parte administrativa. Isso reforça o nosso propósito de vir trabalhar, fazer o nosso papel ao ver esse resultado, que é o fruto do que a gente planta todos os dias”.
O Programa
O MT no Mundo teve sua primeira edição em 2023 e, em 2026, deve seguir para sua quarta edição. Alunos do nono ano do Ensino Fundamental e dos três anos do Ensino Médio podem participar.
O Estado custeia um valor semanal de 250 libras esterlinas e também todas as despesas com a preparação, emissão de documentos, viagem, translado, hospedagem, alimentação, chip de celular com acesso à internet, cartão de transporte público no país, entre outros.
A iniciativa soma mais de R$ 16 milhões em investimentos. Além do curso de inglês em escolas da Inglaterra, com 30 aulas semanais de 40 minutos cada e material didático, os alunos têm cartão de transporte público no país estrangeiro de destino no trajeto da acomodação à escola.
A seleção dos estudantes geralmente obedece uma disponibilidade de vagas por Diretoria Regional de Educação (DRE) da qual o estudante fez parte e também uma avaliação com a nota calculada em TRI (proficiência), composta pela somatória do Sistema Estruturado de Ensino e da Plataforma Letrus.
A seleção dos monitores para a edição de 2026 já está aberta.
Leia mais:
Seduc publica edital de participação da 4ª edição de Programa de Intercâmbio
Veja a galeria:
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