Cuiabá, Domingo, 11 de Janeiro de 2026
JANEIRO BRANCO; VÍDEOS
11.01.2026 | 08h00 Tamanho do texto A- A+

“Terapia ainda é vista como coisa de quem está em surto ou louco”

Profissional destacou a importância do acompanhamento psicológico como forma de prevenção

Yasmin Silva/MidiaNews

A psicóloga Isabella Souza, que atua no programa Viver Bem da Unimed

A psicóloga Isabella Souza, que atua no programa Viver Bem da Unimed

LIZ BRUNETTO
DA REDAÇÃO

O Janeiro Branco, campanha voltada à conscientização sobre a saúde mental, escancara um tabu que ainda persiste na sociedade: a ideia de que procurar terapia é sinal de fraqueza ou coisa “de quem está em surto ou é louco”.

 

O alerta é da psicóloga Isabella Souza, do programa de medicina preventiva Viver Bem, da Unimed, que defende o cuidado psicológico como parte da rotina, e não apenas em momentos extremos.

A gente tem, às vezes, essas comparações, ou até mesmo a ideia de que é um sinal de fraqueza

 

“Ainda existe a ideia de que terapia é para quem está em surto, para quem é louco. A gente tem, às vezes, essas comparações, ou até mesmo a ideia de que é um sinal de fraqueza”, disse.

 

Na avaliação da psicóloga, o preconceito em torno da terapia ainda está ligado à desinformação e a padrões culturais que reforçam a ideia de “suportar tudo em silêncio” e priorizar a produtividade exacerbada.

 

Isabella chamou atenção para a campanha do Janeiro Branco, que convida a sociedade a refletir sobre a saúde mental logo no início do ano. Segundo ela, o período é simbólico por representar recomeços e planejamentos, mas também, por vezes, é carregado de culpas e frustrações por metas não cumpridas e pressões internas e externas. 

 

Isabella também falou sobre ansiedade, depressão e estresse, além da importância da prevenção, do acesso à informação e mais.

 

Confira os principais trechos da entrevista: 

 

MidiaNews - O que é o Janeiro Branco e por que ele é tão importante no contexto atual?

 

Isabella Souza - O Janeiro Branco é uma campanha de conscientização nacional que trata da prevenção de sofrimentos psíquicos. Ela engloba transtornos como ansiedade, depressão e, atualmente, também o burnout e sofrimentos emocionais de forma geral.

 

 

MidiaNews - Quais são hoje os fatores que mais impactam a saúde mental das pessoas?

 

Isabella Souza - Acredito que um dos maiores seja a sobrecarga de trabalho. A maior parte das pessoas está em um grande processo de trabalho o tempo todo; insegurança financeira, que nos últimos anos tem sido muito forte; excesso de estímulos por meio de celular, computador, telas no geral; redes sociais, a comparação com a vida de outras pessoas, a pressão por desempenho; dificuldade de descanso, de realmente relaxar, de ter aquele momento de não fazer nada. A gente está sempre sendo muito cobrado para ser produtivo; e relações que muitas vezes são fragilizadas, que não acrescentam ou que também trazem sofrimento emocional. Esses são os principais fatores.

 

MidiaNews - A senhora citou o uso de redes sociais como fator que impacta a saúde mental. Onde está o limite entre o uso saudável e o adoecimento?

 

Quanto mais tempo você está vendo as telas, mais você é estimulado e mais o seu cérebro quer essa dopamina

Isabella Souza - Quando a gente começa a fazer grandes comparações com a vida alheia, alguém que andou um pouco mais que você e, de repente, você está no começo dessa caminhada. A comparação é algo realmente muito ruim. Quanto mais tempo você está vendo as telas, mais você é estimulado e mais o seu cérebro quer essa dopamina. Então, o uso de telas, sem dúvida, agrava isso.

 

MidiaNews - Ainda existe muito preconceito em relação à terapia?

 

Isabella Souza - Sim, existe. Tem diminuído com os anos. Desde a pandemia, a gente ouve falar de uma forma muito mais aberta sobre saúde mental e, querendo ou não, isso foi positivo. Mas ainda existe a ideia de que terapia é para quem está em surto, para quem é louco. A gente tem, às vezes, essas comparações, ou até mesmo a ideia de que é um sinal de fraqueza. Mas acredito que as coisas vão melhorar no decorrer dos anos.

 

MidiaNews - Na sua avaliação, por que cuidar da mente ainda é visto por parte da população como fraqueza?

 

Isabella Souza - Porque, culturalmente, nós fomos ensinados a suportar tudo em silêncio, a priorizar essa produtividade, e acabamos esquecendo do bem-estar.

 

MidiaNews - Em que momento a tristeza, o estresse ou a ansiedade deixam de ser “normais” e passam a ser um sinal de alerta para buscar ajuda profissional?

 

Isabella Souza - Principalmente pela frequência. Quando há uma grande frequência, quando é intenso, duradouro, está presente em todos os momentos e começa a interferir no sono, no trabalho, nos relacionamentos - tanto amorosos quanto com amigos e familiares - e, no geral, na qualidade de vida, quando ela começa a ser comprometida.

 

MidiaNews - Quais sinais costumam ser ignorados, mas indicam que a saúde mental pode estar comprometida?

 

Isabella Souza - Um deles é a irritabilidade constante. Nós temos algumas irritações normais no dia a dia, mas quando ela se torna constante na maior parte das situações da vida, é um alerta. Tem também o isolamento social. Às vezes a gente ouve assim: “a pessoa é quietinha no canto dela, não gosta de socializar”, mas esse isolamento social demasiado, quando a pessoa não quer ver ninguém, não quer socializar com ninguém, não quer estar com ninguém, isso é um grande alerta, um grande sinal emocional.


Instabilidades e alterações no sono, se a pessoa começa a acordar várias vezes durante a noite, perde o sono em determinados horários; cansaço excessivo, não aquele cansaço de um dia de trabalho, mas um cansaço exaustivo que não te permite fazer outras atividades. Perder a vontade de fazer coisas que eram prazerosas, sair com os amigos, assistir, ler. Então, a pessoa acaba perdendo esse prazer. E a dificuldade de concentração pelos grandes estímulos.

 

 

 

MidiaNews - A senhora mencionou o isolamento como um sinal de alerta, mas existem pessoas mais introspectivas. Em que momento o isolamento se torna um sintoma?

 

Isabella Souza - O sintoma é o isolamento constante. As pessoas que geralmente são mais isoladas naturalmente vão evitar certas situações, lugares com muita gente, lugares com muito barulho, são situações pontuais. Mas o isolamento social preocupante é quando ela, além dessas situações pontuais, começa a não querer ir trabalhar, não querer ver seus familiares, seus amigos, fazer atividades que geralmente gostaria de fazer, sempre dar uma desculpa para não estar com as pessoas. Então, esse isolamento é algo preocupante.

 

MidiaNews - Como a falta de cuidado com a saúde mental pode afetar áreas como trabalho, relacionamentos e saúde física?

 

Isabella Souza - Uma das coisas é que você vai começar a ficar improdutivo, comprometer a sua produtividade, porque você acaba perdendo o interesse em fazer as coisas. Se antes trabalhava de uma forma mais alegre e constante, tinha prazer, já não tem mais prazer no trabalho. Aumentam os conflitos interpessoais por essa irritabilidade maior.


Adoecimento físico: não existe divisão entre mente e corpo, nós somos interligados. Isso afeta o nosso corpo físico de forma bem significativa: perda ou aumento de peso, aparecimento de deficiências de vitaminas, problemas hormonais, dores crônicas - uma dor que não passa, nenhum medicamento passa, nenhum tratamento resolve — problemas gastrointestinais, às vezes acontece de tudo o que a pessoa come passar mal, refluxo, úlceras, coisas relacionadas ao intestino, estômago e baixa imunidade também.

 

MidiaNews - O início do ano costuma trazer cobranças, metas e frustrações. Por que esse período pode ser especialmente delicado para a saúde mental e emocional?

 

Isabella Souza - Vamos voltar um pouco. Em dezembro, geralmente, muitas pessoas fazem metas para o ano que vai iniciar e, de repente, elas chegam no final do ano e não conseguem ver boa parte das coisas funcionando. A gente volta à questão da comparação: você vê outras pessoas conquistando coisas. Então, por que janeiro é tão difícil para muitas pessoas? Porque elas começam a enxergar as metas que não foram feitas ou a fazer essas comparações. Existe muita cobrança interna e, muitas vezes, externa, de familiares, amigos e do trabalho. Frustrações grandes somadas ao cansaço que veio do ano anterior trazem todos esses sentimentos, essa dualidade, esses conflitos. Por isso, muitas pessoas são acometidas por grande sofrimento no início do ano, e é por isso que a campanha é estrategicamente neste mês.

 

 

 

MidiaNews - Quais atitudes simples, no dia a dia, podem ajudar a preservar a saúde mental, mesmo em uma rotina corrida?

 

Isabella Souza - Priorizar dormir de forma produtiva e boa. Nem sempre muitas horas de sono querem dizer que existe descanso. Procurar dormir melhor, dormir um pouco mais cedo para tentar alcançar as horas mínimas de sono. Sei que é muito difícil alcançar oito horas, mas às vezes umas seis horas talvez a gente consiga. Diminuir estímulos à noite também ajuda.


Respeitar seus limites é importante, saber quais são eles. Por isso, a ajuda psicológica, psicoterapeutas e pessoas próximas que auxiliem também é fundamental. Fazer pausas é muito importante. Às vezes, você está em um ritmo muito intenso, de muitas horas fazendo algo, e acaba esquecendo que precisa comer, beber água, esticar as pernas. Reduzir a autocrítica, manter alguma atividade física de forma regular e buscar, é claro, ajuda de profissionais sempre que necessário.

 

MidiaNews - Muitas pessoas dizem que “não têm tempo” ou “não têm dinheiro” para cuidar da saúde mental. O que diria para quem pensa assim?

 

Isabella Souza - Cuidar da saúde mental é prevenção. A maior parte das pessoas busca ajuda psicológica quando as coisas já estão em uma situação muito difícil. Seria muito melhor se isso fosse feito de forma preventiva. Saúde mental é prevenir. Então, esse custo pode ser muito alto depois.

 

Cuidar da saúde mental é prevenção. A maior parte das pessoas busca ajuda psicológica quando as coisas já estão em uma situação muito difícil

MidiaNews - Como familiares e amigos podem identificar que alguém próximo precisa de ajuda psicológica e qual a melhor forma de oferecer apoio?

 

Isabella Souza - O principal são as mudanças de comportamento. Se a pessoa tinha uma forma de se comportar, de agir, de falar, e de repente isso muda. Muitas vezes, não é de repente, mas de forma gradual, e acaba que as pessoas ao redor não conseguem perceber. É preciso prestar atenção nesses comportamentos que foram mudados. Oferecer uma escuta sem julgamento. Sei que isso é muito difícil, porque quando a gente ouve a história de alguém, quer palpitar. Mas ouvir sem julgamento e incentivar a busca profissional, se for preciso.

 

MidiaNews - O autocuidado tem sido muito falado, especialmente nas redes sociais. Na prática, o que realmente significa o autocuidado e qual é o impacto dele para a saúde emocional?

 

Isabella Souza - O autocuidado é justamente olhar para si, para dentro de si, o que é muito difícil, porque muitas vezes nós nos julgamos, mas é necessário. O autocuidado impacta na qualidade de vida, porque você consegue perceber o que está desajustado, quando está desajustado, e procurar o que pode ser melhorado.


Geralmente, a gente consegue encontrar o problema, nem sempre a solução. São atividades prazerosas: fazer uma atividade, um esporte porque gosta ou porque começa a ter resultados no próprio corpo; fazer uma maquiagem para se sentir bem; ter hobbies, ir ao cinema. Cuidar de si, não só por fora, mas por dentro. Ler livros interessantes, histórias interessantes, conviver com outras pessoas. Tudo isso pode ser englobado em autocuidado.

 

MidiaNews - Acredita que autocuidado seja um luxo? O que diria para quem acredita nisso?

 

Isabella Souza - Não, autocuidado não é um luxo, é uma necessidade. É necessário que tenhamos um olhar para nós mesmos. Porque, se a gente não olhar, quem vai fazer isso por nós? Então, não é luxo. É uma necessidade, sem dúvida.

 

MidiaNews - Quais são os principais mitos sobre terapia que gostaria de desconstruir durante o Janeiro Branco?

 

Isabella Souza - Os principais são que a terapia é para quem está em crise, para quem está em uma situação de muita vulnerabilidade, ou aqueles sintomas clássicos em que a pessoa não consegue sair de casa, não toma banho, não come. Não é só para essas situações extremas. Pensar que é um sinal de fraqueza é um mito. Às vezes a gente ouve: “quem busca ajuda é fraco, não foi forte, não foi resiliente”. Isso é um grande mito. E que conversar com amigos substitui a ajuda profissional. Os amigos têm um papel importante na vida, mas não ocupam o papel da ajuda profissional. Isso também é um mito.

 

MidiaNews - Na sua experiência, houve uma mudança no perfil dos pacientes nos últimos anos? As pessoas estão adoecendo mais emocionalmente?

 

Isabella Souza - Sim, com certeza. A gente vê questões como ansiedade, aumento do estresse no dia a dia, uma exaustão não só física, mas também emocional, porque as pessoas precisam ser muito produtivas. A gente perde muita qualidade de vida. O sofrimento psíquico tem sido muito silenciado, muito silencioso. Como estamos sempre vendo pessoas conquistando coisas, vivendo, sendo felizes — e as redes sociais falam muito sobre isso —, muitas vezes as pessoas silenciam as próprias dores. Sobrecarga de trabalho, de estímulos e pressão por desempenho. Hoje afeta muito mais mulheres, mas talvez seja porque as mulheres buscam muito mais ajuda do que os homens. Acredito que pessoas em vulnerabilidade econômica sofram mais, muitas vezes por não terem recursos financeiros ou por falta de conhecimento de que esse tipo de atendimento pode ser ofertado de várias formas. Esses são os perfis que mais sofrem atualmente.

 

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