LUCAS RODRIGUES
DO MIDIAJUR
Irmã do empresário Rivelino Jacques Brunini, assassinado em 2002, a diarista Raquel Brunini disse, em sessão do júri, não ter dúvidas de que seu irmão foi morto a mando do ex-bicheiro João Arcanjo Ribeiro.
“Meu irmão disse que não existia um crime em Mato Grosso que não ocorresse por ordem de João Arcanjo. Minha família foi destruída no dia do assassinato, por este bandido chamado Arcanjo”, disse ela, aos prantos.
Ela disse, ainda, ter sofrido ameaças por parte do ex-bicheiro, o que a teria feito deixar o país.
“Fomos ameaçados por telefone, disseram que se eu ficasse iriam matar todos nós. Tínhamos crianças pequenas, saímos como se fôssemos bandidos. Foi um filme de terror”, afirmou.
Raquel Brunini, que chegou a chorar em diversos momentos, foi a primeira informante ouvida durante o júri popular de Arcanjo, que ocorre nesta quinta-feira (10), em Cuiabá.
O "Comendador", como o ex-bicheiro também era conhecido, é acusado de ser o mandato do

"Fomos ameaçados por telefone, disseram que se eu ficasse iriam matar todos nós. Tínhamos crianças pequenas, saímos como se fôssemos bandidos. Foi um filme de terror"
assassinato de Rivelino Brunini, Fauze Rachid Jaudy e da tentativa de homicídio contra Gisleno Fernandes, em 2002.
O depoimento foi prestado sem a presença de Arcanjo, a pedido de Raquel Brunini, que afirmou estar “apavorada” com a possibilidade de falar na presença dele.
“Eu vivo fora do país há mais de 12 anos, tive que fugir por medo do acusado. Não quero me sentir mais coagida e apavorada do que já vivo, durante todos estes anos. Se eu não me sentisse coagida, viveria em Cuiabá”, disse.
Máquinas caça-níqueisA testemunha relatou que seu irmão começou a trabalhar com máquinas caça-níqueis em 2000, em parceria com vizinhos da casa de praia que a família possuía em Cabo Frio (RJ).
Eles fecharam um negócio para trazer cerca de mil máquinas para Mato Grosso, mas toda a operação teria que ser autorizada por João Arcanjo.
“Na época, Arcanjo tinha o poder no Estado de Mato Grosso, no Judiciário, tudo passava por ele. Precisava da autorização dele. Para cada máquina, tinha que ser pago R$ 200 por mês. Depois, eles colocavam um selinho de colibri nas máquinas, para mostrar que a máquina tinha o aval do Arcanjo”, disse.
De acordo com Raquel Brunini, as máquinas foram distribuídas a vários bicheiros, que operavam os caça-níqueis, cada qual em sua região. As intrigas entre os bicheiros, segundo ela, começaram após o roubo de máquinas e a disputa pelo poder e dinheiro envolvido.
“Meu irmão ficou com a região de Cuiabá. Ele abriu a empresa Mundial para trabalhar com as máquinas, ele tinha uma empresa legal. Mas, muitas dessas máquinas funcionavam por decisão liminar. As máquinas do meu irmão davam R$ 500 por semana, até R$ 1 mil. Eu sei que eles iam uma vez por semana e recolhiam o dinheiro. Eu não sei como distribuíam o dinheiro, qual a porcentagem de divisão”, disse.
Em razão de dívidas de Rivelino Brunini, João Arcanjo teria mandado invadir o galpão onde ficavam as máquinas e confiscado os equipamentos.
Raquel Brunini disse que, quando a situação começou a ficar desfavorável, seu irmão fugiu para Poxoréu (251 km ao Sul de Cuiabá), na casa de uma tia.
Logo após ele tomar conhecimento do assassinato do sargento Jesus, que também controlava máquinas em Cuiabá, Rivelino já teria previsto que estaria com sua vida em risco.
“Ele disse para mim ‘agora, não tem mais jeito, vão me matar’”, relatou a irmã da vítima.
Durante os questionamentos da defesa de Arcanjo, Raquel Brunini chegou a se irritar com as perguntas do advogado Paulo Fabrinny, mas foi advertida "a manter a ordem" pela juíza Mônica Perri.
"Quando o senhor me pergunta dizendo que 'eu ouvi falar', eu entendo que o senhor está dizendo que eu estou mentindo. Eu não passei 12 anos fugida para vir aqui falar mentiras. Eu participei da vida do meu irmão", reclamou Raquel Brunini.
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