Quem precisou de um atendimento no SUS em Cuiabá entre 2022 e 2023 sentiu na pele o desmonte. Faltavam médicos, remédios básicos sumiam das prateleiras e exames e internações impossíveis a desorganização era visível. Não era apenas uma percepção: os relatórios mostravam uma gestão municipal paralisada por corrupção, disputas políticas, furos em escalas e atrasos de pagamentos que afastavam os profissionais. Naquele momento, a cobertura da Atenção Primária — a porta de entrada do SUS — patinava em 60%, deixando quase metade da população descoberta.
O fundo do poço dessa crise ética e administrativa foi exposto pela Operação Smartdog, deflagrada em fevereiro de 2023. Enquanto a população sofria com a falta de insumos básicos, a gestão tentava empurrar um contrato suspeito de milhões para chipagem de cães e gatos, sem licitação, alvo de busca e apreensão contra a alta cúpula da Secretaria de Saúde e Vigilância Sanitária corrompidos entre mais de 20 operações policiais no SUS Cuiabá. O mais grave, contudo, foi o silêncio ensurdecedor das instituições que deveriam proteger o sistema: tanto o Conselho Estadual de Saúde quanto o COSEMS se omitiram, falhando em discutir a necessidade da intervenção ou fiscalizar os desvios no momento mais crítico, deixando a sociedade cuiabana órfã de representação enquanto o dinheiro da saúde escoava pelo ralo da má gestão.
Mas a história recente mostra que é possível virar o jogo quando se retoma a seriedade. Entre 2024 e 2025, vivemos um "choque de gestão" inegável pós-intervenção. Os números não mentem: saímos de 110 equipes de Saúde da Família em 2023 para 140 em 2024, um salto impressionante que elevou nossa cobertura para 75,47%. Hoje, temos mais de 1.045 respiradores prontos para salvar vidas, contra 852 que tínhamos em 2022. Houve investimento, houve ampliação e, tecnicamente, há mais saúde disponível.
Porém, se os números são verdes, por que a realidade ainda parece vermelha para tanta gente? O avanço na quantidade ainda não se traduziu totalmente em qualidade. O cidadão percebe o retrocesso quando consegue a consulta no posto demora 4 meses e enfrenta uma via crucis para conseguir um exame ou um especialista. Ainda falhamos no básico: em 2022, nenhum indicador de hipertensão atingiu a meta. Criamos mais "portas", mas o corredor interno do sistema continua engarrafado. A falta de conversa entre o postinho os serviços de referência e o hospital faz com que o paciente se perca na burocracia.
O caminho para um SUS melhor não é mágica, é método e transparência. Precisamos alinhar Cuiabá à Política Nacional de Saúde, focando na regionalização e fortalecendo o controle social para que casos como o da "Smartdog" nunca mais se repitam sob o nariz dos conselhos. O SUS não é do governo, é nosso. A intervenção mostrou que gestão resolve a estrutura, mas só o envolvimento vigilante da comunidade garante que o recurso vá para o paciente, e não para contratos obscuros. A saúde é um direito, mas a fiscalização é um dever de todos nós. Reclame Denuncie não deixe pra lá cuide do SUS para você e seus filhos.
Luiz Fernando Rogerio é especialista em Gestão de Sistemas e Serviços de Saúde.
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