Ao rever imagens do álbum de meus registros fotográficos, fui inundada por emoções, tal como as águas de março… Memórias despertaram e me visitaram, arremessando-me diretamente no tobogã do tempo.

Então, senti o desejo de compartilhar algumas reflexões.
O tempo passou, a idade avançou e é como se eu tivesse atravessado a fronteira do tempo, entre a juventude e a maturidade, quase sem me dar conta. Agora é mais fácil entender quando dizem que o tempo passa tão rápido.
Na idade de sessenta+, a relação com a vida mudou. Com o espelho também. Agora, diante do espelho, percebo-me de forma diferente: uma expressão com a sua própria unicidade, a qual não rotulo mais de bonita ou feia, como antes. Cada vez mais, me desapego da imagem física. Afinal, nós não somos o corpo.
Questiono-me acerca do mistério da alma contido nas camadas profundas do corpo. Quem é esse Ser na sua totalidade? Ser que o corpo cobre e testemunha tudo o que lhe acontece! Quem olha através dos meus olhos para o espelho? Quais as faces que permanecem desconhecidas dentro de mim e que ainda poderão ser reveladas?
Faço uma retrospectiva e vejo meu corpo como um palco no qual transcorreram cenas de lutas com vitórias e derrotas, resistências e entregas, atos de bravura e fraqueza, encontros e desencontros, risos e prantos, gritos e silêncios, amargores e êxtases.
Cenas que não tiveram ensaios prévios, acontecimentos que me propiciaram vivências muito marcantes, levando-me a buscar o encontro comigo mesma com intensidade, sem o qual é impossível a nossa comunhão com o Todo.
Experiências vivenciadas neste corpo me foram desamarrando, libertando de ilusões e de muitos apegos, dando-me a impressão de ter vivido mais de uma encarnação num único corpo.
Quantas transformações! Algumas fáceis de lidar e aceitar, enquanto outras, me exigiram forças gigantescas para permanecer de pé e continuar a marcha do viver!…
Nesta experiência com o espelho, o corpo e o reflexo, chegam-me as palavras do Mestre Sufi Kiran Baba: “A vida é um processo de aprendizado. Você vai de uma aula para a outra. Não há ponto final na vida. É somente movimento até você morrer.”
Vivendo a maturidade, constato que certos frutos só podem ser colhidos nesta época. E descubro que, em qualquer idade, é possível revelar o nosso melhor ângulo.
Recordo-me do compartilhar de Kiran Baba: “A beleza da mulher não tem nada a ver com a forma ou a expressão do corpo, é algo além. Não é a forma do nariz, dos olhos, do rosto, do corpo. É algo muito similar com a beleza de uma flor, a beleza do pôr do sol, a beleza de tudo que está aí e que o leva àquela sintonia, àquela harmonia. Beleza não está na idade, está na harmonia”.
De repente, ao cruzar dores profundas, o espelho nos surpreende: revela mais que o tempo e suas marcas. Ele reflete a luz de quem sobreviveu aos ventos tempestuosos da vida, que encontrou forças para viver e ressurgiu de dentro de si, parindo um novo ser.
Dou graças à Vida por saber que, dentro do corpo, há aquela parte que não envelhece, que nunca morre, não se apega nem se identifica com nenhum reflexo. Apenas testemunha tudo o que nos acontece, que é somente Consciência.
Enildes Corrêa é administradora, cronista e palestrante.
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