Os costumes e o modo de viver em Cuiabá têm algo de mágico. Quem não nasceu aqui dificilmente compreenderá por que, neste coração da América do Sul, as pessoas vivem sempre bem-humoradas e voltadas para o “viver feliz”.

O cuiabano pode ser definido como alguém alegre, que encontra prazer nas pequenas coisas que esta terra oferece. Viver por mais de três séculos quase isolado do restante do país foi, ao mesmo tempo, sofrimento e bênção.
Se por um lado trouxe dificuldades, por outro preservou a cultura, a culinária, o sotaque e o modo de viver.
O cuiabano é, por essência, um verdadeiro “bon vivant”. Valoriza uma cervejinha bem gelada, joga truco espanhol como ninguém e, dos quintais, ecoam gritos que são quase patrimônio imaterial:
— Truco!
— Quero retruco!
— Quero seu chapéu!
— Seu bananinha de bulicho!
— Seu mambira!
Ou ainda as bravatas bem-humoradas:
“Quando vim de Pernambuco, vim montado num burro xucro: eu tenho flor e truco!”
E também o tradicional jogo de bozó, com seus chamados cheios de entusiasmo:
“Quero embaixo! Quero em cima! Vou buscar o general de boca!”
Depois das chuvas, o cuiabano se entrega à pescaria: bagres, pacus e piraputangas. E sempre tem aquela história clássica:
“Este era grande... mamou e mamou, mas escapou!”
Nada se compara às rodas de conversa à sombra de uma mangueira, saboreando uma cabeça de boi assada com mandioca ferventada e vinagre. Isso também é Cuiabá — e como é!
O cuiabano adora uma boa “moagem”. Tem o dom de criar apelidos com naturalidade — nunca por maldade, mas como forma de aproximação e amizade.
Sua hospitalidade é tamanha que, em poucos minutos de conversa, já convida o visitante — o “alienígena” — para uma cervejinha em casa, oferecendo o que tiver na cozinha com alegria sincera.
A cada amanhecer, há um novo motivo para celebrar a vida. Logo cedo, vem o ritual do guaraná ralado na grosa, no vai-e-vem compassado, momento em que se filosofa sobre a vida e se renova o espírito. Estimulante natural, ele revigora e afasta qualquer tristeza.
E o desjejum? Ah, o famoso “quebra-torto”: escaldado de ovo caipira, revirado de carne com farinha ou a tradicional paçoca de carne seca socada no pilão.
Ser cuiabano é, acima de tudo, um estado de espírito. É suportar — e até amar — o calor intenso e o sol escaldante que, para os “paus rodados”, parecem castigo.
Muitos chegam e dizem: “isso aqui parece um inferno”. Mas não entendem: aqui, o calor também aquece a alma.
Os de fora dificilmente alcançarão o bom humor, a espontaneidade e a leveza com que o cuiabano vive. Sua filosofia é simples e profunda: viver bem é espalhar felicidade a quem se aproxima.
Muito prazer… eu sou cuiabano.
Wilson Carlos Fuá é escritor, cronista e graduado em Ciências Econômicas
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