Os políticos estão alvoroçados. Já começou a temporada de xingamentos que vai estender-se até outubro. Talvez seja a única época em que eles falam a verdade. Não sobre si mesmos, claro, mas sobre os concorrentes.

Também são abundantes os discursos dos que estão deixando os cargos atuais para disputar outras vagas. E eles são enfadonhos, repetitivos e cheios de clichês. Todos relatam a sensação de dever cumprido. Externam uma profunda gratidão ao povo, à família, a Deus.
Falam sobre os desafios, sobre os momentos de angústia, sobre a carga de trabalho. Invariavelmente exaltam as próprias virtudes, entre elas a humildade e a honestidade. No fim, todos tiveram um mandato exitoso: se são parlamentares, deixaram tais e tais contribuições. Se executivos, entregam as Prefeituras, Estados
ou União muito melhores do que os encontraram.
Garantem que nenhuma vaidade os move e que não têm qualquer apego ao poder. E que saem com a cabeça erguida. São tão recorrentes os discursos que, com poucas modificações, o texto lido por um prefeito do interior do Piauí serve para um governador de Santa Catarina. Até mais: o discurso feito por um governador do Amazonas em 1960 é quase igual ao de um prefeito do Rio de Janeiro em 2026, trocando-se somente algumas poucas
palavras que saíram de moda por outras mais atuais.
Temos que suportar isto, porque a política é necessária e não podemos botar no mesmo balaio todos os que militam nela. Mas, ficam algumas indagações: o meio político seria mais viciado que o privado? Os indivíduos são corrompidos pela política ou entram nela porque são corruptos? No meio político há mais pessoas mal-intencionadas, ou, percentualmente, se iguala ao número geral da sociedade? Pessoas comuns não estariam igualmente sujeitas aos desvios de conduta que o meio propicia? Não seria a impunidade o maior estímulo à corrupção?
A percepção de que os políticos são mais desonestos pode ser parcialmente verdadeira, mas também influenciada pela visibilidade de seus atos, pelas oportunidades inerentes ao meio e pela cultura da impunidade.
Enfim, o vício (vileza) e a virtude (honra) não estariam democraticamente distribuídas entre os políticos e a sociedade em geral?
Faço a seguir uma recriação irônica do Soneto 138 de Shakespeare, baseado na tradução de Ivo Barroso.
Quando diz ser probo e dedicado,
No candidato, creio — e sei que mente;
Passo assim por velho inocente,
Tolo, ingênuo e ultrapassado.
Calejado de ver o vício disfarçado,
Finjo crer porque é conveniente.
Mas, de novo, porque é recorrente,
Serei com certeza engabelado.
E, ainda assim, contrariado, noto
Sem outra opção, dar-lhe-ei meu voto.
Renato de Paiva Pereira é escritor e empresário.
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