Cuiabá, Sábado, 14 de Fevereiro de 2026
EUSTÁQUIO RODRIGUES
14.02.2026 | 05h30 Tamanho do texto A- A+

Chegou o carnaval

Acadêmicos do Executivo, Unidos do Legislativo, Império do Judiciário

Chegou a época do ano em que o povo toma uma dose de “morfina social”, esquece de todos os problemas e sossega para ver os desfiles, acompanhar os bloquinhos e dar um tempo da correria do dia a dia. Mas as agremiações não param de brincar com a cara do povo e sacaneiam a gente antes, durante e depois do carnaval ferrando todo brasileiro.

 

E o destaque desse ano é o Acadêmicos do Executivo, que de acadêmico não tem nada, pois o presidente de honra da escola é semianalfabeto. Dessa vez vão homenagear o Partido das Trevas, destacando na sua comissão de frente o que possuem de melhor: a corrupção, a demagogia e a hipocrisia. Amam as fantasias de presidiários, de meliantes e de delinquentes. Atenção para a ala com dinheiro na cueca e para a ala de ditadores, fantasias que amam e que são mestres artesãos.

 

No abre-alas o destaque vai para a primeira dama, que, além de ser desprovida de beleza, de inteligência e de educação, samba igual os bonecos gigantes de Olinda. No carro símbolo da escola, as grades brilhantes emolduram o sol quadrado que deveriam ver para o resto da vida. Para fechar o desfile, o Descondenado segura uma garrafa de cachaça e brada para os quatro cantos: “bando de otários, quem mandou votar em mim pela terceira vez?”

 

Outra forte candidata a campeã esse ano é a Unidos do Legislativo. A única escola com dois presidentes que governam, mas não mandam em nada, prisioneiros de suas fichas sujas. A comissão de frente vem cheia de mamatas, de esquemas e negociatas. O abre ala está cheio de emendas que ninguém sabe para onde vão e nem para que servem. É a escola que sempre desfila para si mesma, não se importando com o povo nas arquibancadas.

 

Seus destaques sempre frequentaram as páginas policiais, seja pela corrupção, pelo fisiologismo ou pelo clientelismo. Suas fantasias preferidas são os ternos de alta costura bancados pelo dinheiro público, carinhosamente chamados de auxílio-paletó. Seus carros alegóricos oficiais são trocados todos os anos por veículos cada vez mais luxuosos, tudo pago com o seu dinheiro, cidadão. Como sempre ditou as regras do desfile, ganhou por anos ininterruptos, até ser desbancada pelo Império do Judiciário, agora a nova dinastia reinante no país.

 

A Império do Judiciário vem forte esse ano. Campeã dos desfiles desde 2019, quando inventou a Fábula das Fake News, desbancou, de lavada, a Unidos do Legislativo, deixando essa escola debaixo de sua sola de sapato por anos a fio. Com seus craques na criação de fantasias, alegorias e adereços – Carecone Trinta, Rosa do Taiaiá e Arlindo Mendes – a Império do Judiciário tomou a Avenida da República de assalto nos últimos anos e não tem para ninguém: nessa escola pode tudo.

 

Eles são organizadores do evento, criam regras, desfilam, fazem a apuração e sempre se declaram vencedores, mesmo que mudem a regra dia sim, dia não, afinal, a última palavra sempre é deles. Embora nos últimos tempos vários casos de corrupção tenham atingido a cúpula da escola, nada parece abalar a confiança de seus membros de que vão se safar e sair vencedores sempre. Não importa o que aconteça ao longo do desfile.

 

Enquanto isso, o povo, anestesiado nas arquibancadas, observa bovinamente a vida passar na avenida, quieto e achincalhado, esperando, finalmente o ano começar.

 

Eustáquio Rodrigues Filho é servidor público e escritor.

*Os artigos são de responsabilidade de seus autores e não representam a opinião do MidiaNews. 

 

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