No coração do Mato Grosso, onde o horizonte se estende em lavouras intermináveis e o gado pasta sob o sol largo do Centro-Oeste, há quem confunda mandato com escritura pública.

Como se o voto viesse com cerca, porteira e marca a ferro. A cena é conhecida: ano eleitoral se aproxima e, antes mesmo que as urnas respirem, já há quem distribua cadeiras como quem reparte talhões de terra. “Temos três vagas garantidas”, anuncia o político graúdo, com a serenidade de quem já contabilizou o rebanho.
Não fala em propostas, não menciona debate, tampouco sinaliza respeito ao imprevisível — esse detalhe incômodo chamado eleitor. Fala em vagas. Como se o Legislativo fosse curral e a democracia, apenas protocolo.
Nos bastidores — esses salões onde o ar-condicionado substitui o vento da rua — as decisões parecem tomadas a portas fechadas. Costuram-se alianças, selam-se compromissos, rifam-se candidaturas. Tudo muito organizado, muito estratégico, muito seguro de si. Seguro demais. Porque ali, longe do burburinho das feiras, das filas do SUS, das estradas esburacadas e das salas de aula quentes, cria-se a ilusão de que o povo é paisagem: está sempre ali, mas não interfere.
É curioso como alguns tratam a sociedade mato-grossense como se fosse um grande curral eleitoral — dócil, previsível, conduzido pelo estalo do chicote retórico. Subestimam a memória, a indignação silenciosa, a capacidade de surpresa. Confundem necessidade com submissão. Apostam na descrença geral como estratégia permanente: “ninguém reage”, dizem, como se a apatia fosse cláusula pétrea.
Mas há algo profundamente equivocado nessa matemática de bastidor. Democracia não é soma de acordos privados; é confronto público de ideias. Não se “garante” vaga antes da contagem dos votos — isso se conquista, e se conquista com legitimidade. Quando alguém proclama vitória antecipada, não demonstra força; revela vício. O vício de quem acredita que a política é propriedade e não serviço.
Talvez o maior erro esteja em tratar o eleitor como figurante de uma peça cujo roteiro já foi escrito. A história, no entanto, é teimosa. Já mostrou, em muitos cantos do país, que o que parece consolidado pode ruir numa única tarde de apuração. A soberba tem prazo de validade.
Questionar as decisões tomadas sem o povo não é rebeldia; é cidadania. O que se decide nos bastidores precisa suportar a luz do dia. Se um grupo político acredita ter cadeiras “garantidas”, que explique ao eleitorado por que — com argumentos, resultados e compromissos claros, não com bravatas de fazendeiro satisfeito.
Porque, no fim, a política não é fazenda. Não tem dono. E se há algo que não se cerca é a vontade popular. Ela pode até silenciar por um tempo, mas quando decide falar, não há porteira que a contenha.
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