Em 2022, alunos do Curso de Engenharia Sanitária e Ambiental da UFMT realizavam levantamentos da gestão e manejo dos resíduos sólidos nas farmácias de Cuiabá.

Acompanhando o trabalho, fiquei sabendo de quantas eram as farmácias nesta cidade e tomei um susto. Eram mais de quatrocentas farmácias! Uma farmácia para cerca de 2 mil habitantes. Em 2025, o susto foi ainda maior: as farmácias já passavam de 460.
São Paulo, Salvador e Fortaleza são as cidades com mais farmácias no País: 4 mil, 1.300 e mil, respectivamente. A Organização Mundial de Saúde (OMS) preceitua a proporção de uma farmácia para cada 10 mil habitantes.
Nossa cidade tem, pois, cinco vezes mais farmácias do que recomenda a OMS. E chama a atenção a alta frequência de clientes nos estabelecimentos, todos os dias, a qualquer hora.
No Brasil, o número de farmácias é quase quatro vezes superior àquele da OMS. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) quer uma farmácia para cada 3 mil habitantes: não sendo assim, fica comprometida a fiscalização.
Nos Estados Unidos, casa grande da indústria farmacêutica, há uma farmácia para cada 5 mil habitantes. Na Holanda e Dinamarca, há uma farmácia para cada 10 mil e 20 mil habitantes, respectivamente.
Embora possa parecer plausível, mais farmácias não indica população de menos saúde. O número elevado de estabelecimentos pode acusar falhas na atenção primária ou medicação de cuidado ou, na pior hipótese, carga crônica de doenças.
Farmácias com foco na assistência farmacêutica importam muito para a saúde da população. No entanto, a exploração do negócio com excessivo foco na ampliação das vendas pode gerar riscos de automedicação.
Até os anos sessentas, Cuiabá não possuía mais que quinze farmácias. Muitas faziam a manipulação de remédios. Naquele tempo, não se lidava com tantos medicamentos. A cidade cresceu, sua população multiplicou-se por onze, mas o número de farmácias foi multiplicado por trinta.
Daqueles longínquos dias foram as farmácias de Arquimedes da Luz e Humberto Marcílio, Antônio Monteiro da Silva, Balbino Latorraca, Benedito Abdala Herani, Benedito Borralho Dias, Benedito Gabriel, Edson Borges Figueiredo, Ênio Carlos de Souza Vieira, Ivan Araújo.
Além do João Borralho, José de Souza Vieira, Manoel Soares Campos, Odir Ferreira Gomes, Oriente Tenuta Filho, Paulo Modesto. Houve outros farmacêuticos mais antigos de quem só tive conhecimento pelo que o meu pai dizia deles: Hermenegildo de Oliveira, Pedro Celestino Corrêa da Costa, Sizenando Rabello Leite. A farmácia de Hermenegildo (Farmácia Americana) e a de Sizenando (Farmácia Rabello) foram compradas por José Vieira e Ênio Vieira, respectivamente.
O ramo das farmácias mudou muito, evidentemente. As muitas unidades de hoje buscam quase só maior faturamento. Elas não se limitam apenas ao comércio de medicamentos, vendem também uma profusão de produtos para atender à exigente clientela, sempre ávida de artigos para satisfazer suas necessidades reais ou fictícias.
Sabe-se que cerca de 80% da população brasileira tem o hábito da automedicação. Não se pode favorecer as condições para a farmacodependência. Recomendável seria que o conselho da classe implementasse ações e programas educativos voltados ao uso racional de medicamentos.
Quando entro numa farmácia, saudosas lembranças emergem de minha memória. Penso nos odores daqueles antigos estabelecimentos, que eram a marca daqueles lugares. Hoje não sinto cheiro de nada. Fico com a impressão de estar numa agência bancária.
A ausência da sensação olfativa, a estética modernosa, a sensibilidade fria, o atendimento impessoal das farmácias atuais levam-me a lamentar o desaparecimento das cheirosas farmácias de antanho.
Especialmente, lembro-me da farmácia São João Batista era delícia olfativa de tinturas, unguentos, especiarias, essências, drogas aromáticas. Todos aqueles aromas das antigas farmácias esvaíram-se nos ares que sopraram os novos tempos.
Engenheiro Paulo Modesto Filho é Doutor em Meio Ambiente e Biologia Aplicada (UCL-Bélgica)
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