Cuiabá, Sexta-Feira, 3 de Abril de 2026
RENÊ DIÓZ
22.09.2010 | 07h16 Tamanho do texto A- A+

Fuligem na cerveja

Parece que minha geração é mais desiludida do que eu imaginava com esta cidade

Alguns amigos meus amigos gostam de fazer música como terapia. Posto que a maioria sabe tocar violão, eu sempre desconfio de que algum deles, a qualquer momento, pode ter na manga alguma coisa escrita despretensiosamente em casa.

E - olha que beleza! - em português, mas o barato mesmo é que este hobby acaba refletindo estados de espírito, inclusive, quando nada animadores. Numa tarde desse último fim de semana, por exemplo, acompanhei mais uma rodinha com cerveja e viola.

Na rua, os termômetros marcavam 43º C ou mais, talvez reacendendo o instinto cuiabano de tirar fotos de termômetro e postar na internet. Caiu a noite, a temperatura baixou para amenos 34º e a cerveja acabou. Tal como se esgotou o nosso repertório, embora não fosse isso o mais grave. Mas foi por causa dele que pairou a impressão de que minha geração é mais desiludida do que eu imaginava com esta cidade.

Como nas demais rodas de violão, a maioria do repertório era do xomano mais prolífico, Celso. É dono de rimas com um honesto toque de descrença com a cidade onde nasceu. Tenta sempre ser regional, mas não por meramente exaltar a terra ou por um saudosismo que não é seu.

Ele fala de monóxido de carbono, buzina, engarrafamento, fumaça, previsão do tempo, queimada, fuligem, revólver, ignorância, cansaço, gasolina, gravata, chatice, doidões, falta de chuva. Também não é de hoje que, ao violão, canta não haver peixes no rio Cuiabá. Mesmo feitas por puro passatempo, as letras carregam um pressuposto: viver aqui de fato mudou radicalmente para esta nossa geração, que alguns chamam de "Y".

Foi essa a sensação que pairou sobre nós quando, esgotada a cerveja em casa, fomos para um bar a fim de continuar a beber. Perdemos até mesmo o ímpeto de falar bobagem. O papo foi sério: pela quinta vez na semana, fiquei seriamente influenciado por planos de amigos meus de ir embora, escapar dessa qualidade de vida que não nos satisfaz em tantos aspectos (serviços públicos desleixados, ambiente pesado, escassas opções de entretenimento e vida cultural, entre outros).

E quantos já se mandaram. É uma vontade que passa na cabeça de quase todos na minha idade com mínimas condições financeiras de se aventurar n'outra cidade. Falam ser melhor começar do zero em um lugar onde pelo menos haja ar puro. E a sensação térmica não seja uma curva crescente nas estatísticas, por causa do trânsito e suas ilhas de calor.

Tudo isso num ambiente atrasado cada vez mais sem harmonia, sem educação entre as pessoas, só para citar algumas das frustrações. Pelo menos é o que diz o estado de espírito dessa gurizada que tocou violão e foi beber cerveja no mormaço, correndo o risco de cair fuligem no copo. Absurdo. Isso sim foi o fim da picada. Que seja só uma fase.

RENÊ DIÓZ é repórter do jornal Diário de Cuiabá.

*Os artigos são de responsabilidade de seus autores e não representam a opinião do MidiaNews. 

 

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caio magno  22.09.10 14h44
Ta achando ruim, parceiro? Pede pra sair! Vai morar num grande centro, vai! Malditos sejam esses que sugam das nossas riquezas e ainda falam mal da nossa terra...
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pedro paulo bosco  22.09.10 13h24
Meu, amigo, faço minhas suas palavras.. mas prepare-se, jajá vem a cuiabanada chucra e ignorante escrever aqui e mandar vc ir embora mesmo, com frases do tipo: lugar de pau rodado é longe daqui e coisas assim.. vc tem toda a razao.. isso aqui vai se tornar inóspito logo logo.. so nao encherga essa cuiabanada tosca, iludida com copa do mundo... valha me Deus.. abçs
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