A investigação sobre o homicídio do advogado Renato Nery, ocorrido em julho de 2024, ganhou um novo desdobramento nesta semana. A Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) de Cuiabá confirmou ter rastreado transferências que somam R$ 215 mil feitas pela empresária Julinere Goulart Bentos em benefício do policial militar Jackson Pereira Barbosa.
Julinere foi detida no dia 9 de maio de 2025, em Primavera do Leste, junto de seu marido, César Jorge Sechi, acusados de serem os mandantes do crime. Jackson foi preso em 17 abril de 2025, apontado como intermediador da execução.
De acordo com o delegado Bruno Abreu, no dia 4 de março de 2025, cerca de quatro meses antes do homicídio, Julinere transferiu R$ 200 mil para a conta de um “laranja”. O valor passou por outro intermediário até chegar à conta da mãe de Jackson.
No dia seguinte, 5 de março, Jackson comprou, sem usar recursos próprios, uma Mercedes-Benz avaliada em aproximadamente R$ 115 mil. Segundo o delegado, o pagamento saiu desse montante e o veículo foi registrado em nome de terceiro.
A estratégia de usar terceiros nas transações, conforme o delegado, seria para não deixar rastros de que o veículo foi adquirido por Jackson, supostamente como parte do pagamento por intermediar o homicídio. A Mercedes foi objeto de busca e apreensão na Operação Office Crime, em 18 de abril, e permanece apreendida.
Victor Ostetti/MidiaNews
O delegado Bruno Abreu, responsável pela investigação
Ainda no mesmo dia, outros R$ 40 mil foram transferidos por terceiros para a conta da mãe do policial militar, enquanto os R$ 45 mil restantes foram enviados diretamente para a conta dele, também por meio de terceiros.
Já em 8 de março, Julinere transferiu R$ 15 mil a Jackson, totalizando R$ 215 mil, valor que, segundo a Polícia, corresponde ao "preço" para a execução do advogado.
As movimentações financeiras coincidem com a confissão do policial militar Heron Teixeira Pena Vieira, o arquiteto do crime, que afirmou que o valor combinado era em torno de R$ 200 mil.
"A pulverização dos valores, identificada após a quebra de sigilo bancário dos investigados, indica que Jackson teria adotado mecanismos para ocultar a origem ilícita do dinheiro, utilizando interpostas pessoas e transferências fracionadas, o que caracteriza, em tese, crime de lavagem de dinheiro. Ele será indiciado por isso", disse o delegado.
O caso segue em investigação.
A encomenda
A investigação da DHPP revelou que o casal de empresários Julinere e César travavam uma batalha judicial por anos com o advogado Renato Nery. O processo envolvia a reintegração de posse da área que o advogado recebeu como pagamento de honorários advocatícios de ação em que atuou por mais de 30 anos.
Meses antes de ser assassinado, Nery havia ganhado uma ação no processo que bloqueou o arrendamento de mais de R$ 2 milhões da propriedade, o que teria sido o estopim para seu assassinato.
Assim, o casal teria contratado o PM Jackson, vizinho de condomínio em Primavera do Leste, para que ele intermediasse o crime. A promessa de pagamento aos executores, segundo as investigações, foi de R$ 200 mil.
Reprodução
O advogado Renato Nery, que foi assassinado em Cuiabá
Dessa forma, Jackson teria feito a ponte com o também PM Heron Teixeira Pena Vieira, que por sua vez foi o responsável por "alugar" o serviço de pistolagem de Alex Roberto de Queiroz Silva, que foi seu caseiro em uma chácara no bairro Capão Grande, em Várzea Grande, durante o planejamento do homicídio e depois, onde ficou escondido.
Segundo revelado pela Polícia, o valor combinado pelo crime não foi pago, o que gerou desagrado entre os envolvidos e resultou na confissão de Heron em depoimento aos investigadores, dias antes da prisão dos supostos mandantes.
Além de Julinere Bentos, César Sechi, Jackson Barbosa, Heron Vieria e Alex Silva, também é réu pelo homicídio o policial militar Ícaro Ferreira, acusado de entregar a pistola utilizada no crime.
O crime
Ex-presidente da OAB-MT, Renato Nery foi atingido por um disparo na cabeça no dia 5 de julho de 2024, quando chegava em seu escritório na Avenida Fernando Corrêa, em Cuiabá.
Socorrido com vida, ele foi levado às pressas para o Complexo Hospitalar Jardim Cuiabá, onde passou por cirurgias, mas não resistiu e morreu no dia seguinte.
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