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22.02.2026 | 08h17 Tamanho do texto A- A+

Fragelli: de deputado a presidente e o traçado da Cuiabá moderna

À frente do seu tempo, planejou a cidade, integrou o Estado e ocupou o topo do poder nacional

Arquivo/Senado Federal

O ex-governador de Mato Grosso, José Fragelli, um homem à frente do seu tempo

O ex-governador de Mato Grosso, José Fragelli, um homem à frente do seu tempo

JONAS DA SILVA
DA REDAÇÃO

A ideia de alguém à frente do seu tempo ajuda a explicar a trajetória pessoal e política do ex-governador José Manuel Fontanillas Fragelli, o José Fragelli. Visionário, ele deixou marcas profundas na modernização de Cuiabá, com obras estruturantes e um projeto de expansão urbana planejada que redefiniu a Capital.

 

De personalidade firme e incomum, também foi personagem e vítima da histórica disputa política entre Cuiabá e Campo Grande, que atravessou décadas e moldou os rumos do antigo Mato Grosso.

A Transpantaneira cortaria todo o Pantanal e chegaria até Corumbá, que era um sonho na época, que todo mundo comentava,

 

José Fragelli foi um dos líderes mais influentes da política de Mato Grosso, tendo ocupado quase todas as funções públicas — eletivas ou não. Foi presidente da República interino (setembro de 1986), governador, senador, deputado federal e deputado estadual. Apenas não chegou à Prefeitura de Cuiabá.

 

Também atuou como advogado, jornalista, professor, promotor de Justiça em Campo Grande e pecuarista. Há cinco décadas, já defendia e planejava a integração de Mato Grosso, um tema que permanece no centro das preocupações de gestores públicos até hoje.

 

Homem de dois séculos, quase centenário, nasceu em Corumbá, em 1915, e morreu em 2010, aos 94 anos, em Aquidauana (MS). Descendente de espanhóis e italianos, cultivou a disciplina e a dedicação ao trabalho como marcas pessoais. Governou o Estado entre 1971 e 1975, indicado pelo governo militar do então presidente Emílio Garrastazu Médici.

 

Sua longevidade acompanhou a dimensão dos feitos como homem público. Na gestão Fragelli foram pensados, planejados e iniciados projetos estruturantes que redesenharam Cuiabá: o traçado da Avenida Historiador Rubens de Mendonça (a Avenida do CPA), a nova sede do Governo, o Centro Político Administrativo (CPA)  e o bairro CPA, há quase 50 anos.

 

O projeto integrado das três obras previa ligar a nova sede do Governo ao Centro da Capital e, ao mesmo tempo, permitir que os servidores públicos morassem a cerca de três quilômetros do local de trabalho, no bairro planejado.

 

Também teve início em sua administração a construção do antigo Estádio Verdão, que mais tarde passou a se chamar Estádio Governador José Fragelli e, posteriormente, deu lugar à Arena Pantanal.

 

A escolha do seu nome para o estádio gerou controvérsia política à época, sob o argumento de que ele era um político ligado ao Sul e não à Capital.

 

 

Transpantaneira

 

A Transpantaneira cortaria todo o Pantanal e chegaria até Corumbá, que era um sonho na época

Fragelli também idealizou a integração entre Mato Grosso e Mato Grosso do Sul por meio do Pantanal, com a Estrada Transpantaneira, ligando Poconé a Corumbá. O historiador e professor Alfredo da Mota Menezes relembrou essa visão estratégica, recorrente no pensamento do ex-governador.

 

“A Transpantaneira cortaria todo o Pantanal e chegaria até Corumbá, que era um sonho na época, que todo mundo comentava, aquela coisa toda, que não chegou, mas foi útil. De qualquer maneira, a Transpantaneira está aí”, afirmou ao MidiaNews.

 

A visão de integração permanece atual e se conecta à decisão recente dos dois Estados de construir uma ponte sobre o Rio São Lourenço, em Porto Jofre, conforme protocolo de intenções firmado pelas Secretarias de Infraestrutura.

 

Trabalho coletivo

 

O arquiteto e urbanista José Antônio Lemos destacou o perfil agregador do ex-governador e sua disposição em ouvir os técnicos do Governo. Foi assim na concepção do Centro Político Administrativo e do bairro CPA, cujos projetos começaram a ser elaborados entre 1972 e 1973.

 

À época estagiário, Lemos integrou o grupo responsável por pensar a nova sede do Governo.

 

“Os diversos técnicos imaginaram esse futuro e entendiam que era melhor discutir uma área nova, um lugar mais alto inclusive, e que se pudesse preparar esse futuro da cidade”, afirmou.

 

“Assim surgiu a ideia do Centro Político Administrativo. Tinha também a parte de residência para funcionários. O governador Fragelli aceitou e tocou o barco para frente, inclusive muito criticado”, relembrou.

 

 

Não se vê ao longo da vida dele acusação de malversação do dinheiro público

A proposta inovadora despertava mais dúvidas do que confiança. Ainda assim, tornou-se referência em urbanismo e planejamento ao incorporar, na década de 1970, conceitos hoje associados à sustentabilidade, como a preservação da arborização nativa.

 

“Diziam que ele não era político, porque praticamente até o último dia do governo ninguém tinha visto a obra do bairro CPA”, relatou.

 

“Um dos detalhes era deixar o máximo possível da vegetação nativa. As construções ficavam escondidas, a três quilômetros do Centro de Cuiabá”, explicou o arquiteto.

 

Sem corrupção e com simplicidade

 

Alfredo da Mota Menezes ressaltou outra marca do ex-governador: a moralidade administrativa, qualidade cobrada da classe política até os dias atuais.

 

“Ninguém pode acusar o governo Fragelli de corrupção. Ele teve uma trajetória política em Brasília, foi presidente do Senado, e não se vê ao longo da vida dele acusação de malversação do dinheiro público”, avaliou.

 

Fragelli presidiu o Senado entre 1985 e 1987 e comandou o Congresso Nacional em um dos momentos mais delicados da história recente do País.

 

 

 

Tanto o historiador quanto o arquiteto convergem na descrição de sua personalidade: simplicidade, habilidade de articulação, diálogo e valorização do trabalho em equipe.

 

“O que eu lembro em primeira mão é a simplicidade, a simpatia de conversar com todos, de qualquer escalão, sempre participando das discussões e respeitando as opiniões técnicas”, disse Lemos.

 

Segundo Alfredo, esse conjunto de qualidades explica sua ascensão.

 

“Ele tinha grande habilidade política. Disputou várias eleições, venceu, cresceu na política e chegou ao governo do Estado, nomeado pelo regime militar”, relembrou.

 

 

 

Política nacional

 

O que eu lembro em primeira mão é a simplicidade, a simpatia de conversar com todos, de qualquer escalão

Na esfera nacional, sua trajetória registrou posições distintas. Apoiou o golpe militar de 1964. Anos depois, em 1985, como presidente do Senado, liderou um grupo de 15 senadores que procurou Tancredo Neves para que fosse candidato à Presidência na eleição indireta, no processo de redemocratização após 21 anos de regime militar.

 

Tancredo venceu, mas foi internado na véspera da posse, em 15 de março de 1985, e morreu em 21 de abril, Dia de Tiradentes. Coube a Fragelli, na condição de presidente do Senado e do Congresso Nacional, dar posse ao vice-presidente eleito, José Sarney.

 

“Sarney, já está resolvido. Você vai assumir como vice-presidente logo mais, às 10h. Nós vamos lhe dar posse”, disse Fragelli ao telefone, às 3h da manhã do dia 15 de março.

 

O episódio foi registrado pelo jornalista Ricardo Westin, no Arquivo do Senado, no relato “A madrugada mais longa da República faz 30 anos”, publicado em 2015.

 

A ascensão de Sarney também se insere no contexto do movimento das Diretas Já, impulsionado, entre outros, pelo ex-governador mato-grossense Dante de Oliveira, autor da emenda que propunha eleições diretas para presidente — rejeitada pelo Congresso, mas decisiva para mobilizar o debate nacional que projetou Tancredo.

 

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