A ideia de alguém à frente do seu tempo ajuda a explicar a trajetória pessoal e política do ex-governador José Manuel Fontanillas Fragelli, o José Fragelli. Visionário, ele deixou marcas profundas na modernização de Cuiabá, com obras estruturantes e um projeto de expansão urbana planejada que redefiniu a Capital.
De personalidade firme e incomum, também foi personagem e vítima da histórica disputa política entre Cuiabá e Campo Grande, que atravessou décadas e moldou os rumos do antigo Mato Grosso.

José Fragelli foi um dos líderes mais influentes da política de Mato Grosso, tendo ocupado quase todas as funções públicas — eletivas ou não. Foi presidente da República interino (setembro de 1986), governador, senador, deputado federal e deputado estadual. Apenas não chegou à Prefeitura de Cuiabá.
Também atuou como advogado, jornalista, professor, promotor de Justiça em Campo Grande e pecuarista. Há cinco décadas, já defendia e planejava a integração de Mato Grosso, um tema que permanece no centro das preocupações de gestores públicos até hoje.
Homem de dois séculos, quase centenário, nasceu em Corumbá, em 1915, e morreu em 2010, aos 94 anos, em Aquidauana (MS). Descendente de espanhóis e italianos, cultivou a disciplina e a dedicação ao trabalho como marcas pessoais. Governou o Estado entre 1971 e 1975, indicado pelo governo militar do então presidente Emílio Garrastazu Médici.
Sua longevidade acompanhou a dimensão dos feitos como homem público. Na gestão Fragelli foram pensados, planejados e iniciados projetos estruturantes que redesenharam Cuiabá: o traçado da Avenida Historiador Rubens de Mendonça (a Avenida do CPA), a nova sede do Governo, o Centro Político Administrativo (CPA) e o bairro CPA, há quase 50 anos.
O projeto integrado das três obras previa ligar a nova sede do Governo ao Centro da Capital e, ao mesmo tempo, permitir que os servidores públicos morassem a cerca de três quilômetros do local de trabalho, no bairro planejado.
Também teve início em sua administração a construção do antigo Estádio Verdão, que mais tarde passou a se chamar Estádio Governador José Fragelli e, posteriormente, deu lugar à Arena Pantanal.
A escolha do seu nome para o estádio gerou controvérsia política à época, sob o argumento de que ele era um político ligado ao Sul e não à Capital.
Transpantaneira

Fragelli também idealizou a integração entre Mato Grosso e Mato Grosso do Sul por meio do Pantanal, com a Estrada Transpantaneira, ligando Poconé a Corumbá. O historiador e professor Alfredo da Mota Menezes relembrou essa visão estratégica, recorrente no pensamento do ex-governador.
“A Transpantaneira cortaria todo o Pantanal e chegaria até Corumbá, que era um sonho na época, que todo mundo comentava, aquela coisa toda, que não chegou, mas foi útil. De qualquer maneira, a Transpantaneira está aí”, afirmou ao MidiaNews.
A visão de integração permanece atual e se conecta à decisão recente dos dois Estados de construir uma ponte sobre o Rio São Lourenço, em Porto Jofre, conforme protocolo de intenções firmado pelas Secretarias de Infraestrutura.
Trabalho coletivo
O arquiteto e urbanista José Antônio Lemos destacou o perfil agregador do ex-governador e sua disposição em ouvir os técnicos do Governo. Foi assim na concepção do Centro Político Administrativo e do bairro CPA, cujos projetos começaram a ser elaborados entre 1972 e 1973.
À época estagiário, Lemos integrou o grupo responsável por pensar a nova sede do Governo.
“Os diversos técnicos imaginaram esse futuro e entendiam que era melhor discutir uma área nova, um lugar mais alto inclusive, e que se pudesse preparar esse futuro da cidade”, afirmou.
“Assim surgiu a ideia do Centro Político Administrativo. Tinha também a parte de residência para funcionários. O governador Fragelli aceitou e tocou o barco para frente, inclusive muito criticado”, relembrou.

A proposta inovadora despertava mais dúvidas do que confiança. Ainda assim, tornou-se referência em urbanismo e planejamento ao incorporar, na década de 1970, conceitos hoje associados à sustentabilidade, como a preservação da arborização nativa.
“Diziam que ele não era político, porque praticamente até o último dia do governo ninguém tinha visto a obra do bairro CPA”, relatou.
“Um dos detalhes era deixar o máximo possível da vegetação nativa. As construções ficavam escondidas, a três quilômetros do Centro de Cuiabá”, explicou o arquiteto.
Sem corrupção e com simplicidade
Alfredo da Mota Menezes ressaltou outra marca do ex-governador: a moralidade administrativa, qualidade cobrada da classe política até os dias atuais.
“Ninguém pode acusar o governo Fragelli de corrupção. Ele teve uma trajetória política em Brasília, foi presidente do Senado, e não se vê ao longo da vida dele acusação de malversação do dinheiro público”, avaliou.
Fragelli presidiu o Senado entre 1985 e 1987 e comandou o Congresso Nacional em um dos momentos mais delicados da história recente do País.
Tanto o historiador quanto o arquiteto convergem na descrição de sua personalidade: simplicidade, habilidade de articulação, diálogo e valorização do trabalho em equipe.
“O que eu lembro em primeira mão é a simplicidade, a simpatia de conversar com todos, de qualquer escalão, sempre participando das discussões e respeitando as opiniões técnicas”, disse Lemos.
Segundo Alfredo, esse conjunto de qualidades explica sua ascensão.
“Ele tinha grande habilidade política. Disputou várias eleições, venceu, cresceu na política e chegou ao governo do Estado, nomeado pelo regime militar”, relembrou.
Política nacional

Na esfera nacional, sua trajetória registrou posições distintas. Apoiou o golpe militar de 1964. Anos depois, em 1985, como presidente do Senado, liderou um grupo de 15 senadores que procurou Tancredo Neves para que fosse candidato à Presidência na eleição indireta, no processo de redemocratização após 21 anos de regime militar.
Tancredo venceu, mas foi internado na véspera da posse, em 15 de março de 1985, e morreu em 21 de abril, Dia de Tiradentes. Coube a Fragelli, na condição de presidente do Senado e do Congresso Nacional, dar posse ao vice-presidente eleito, José Sarney.
“Sarney, já está resolvido. Você vai assumir como vice-presidente logo mais, às 10h. Nós vamos lhe dar posse”, disse Fragelli ao telefone, às 3h da manhã do dia 15 de março.
O episódio foi registrado pelo jornalista Ricardo Westin, no Arquivo do Senado, no relato “A madrugada mais longa da República faz 30 anos”, publicado em 2015.
A ascensão de Sarney também se insere no contexto do movimento das Diretas Já, impulsionado, entre outros, pelo ex-governador mato-grossense Dante de Oliveira, autor da emenda que propunha eleições diretas para presidente — rejeitada pelo Congresso, mas decisiva para mobilizar o debate nacional que projetou Tancredo.
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