Cuiabá, Segunda-Feira, 5 de Janeiro de 2026
ESTUDO
04.01.2026 | 10h23 Tamanho do texto A- A+

Professores negros aumentam sucesso de estudantes negros

Presença destes docentes melhora chances de alunos da mesma raça concluírem o ensino médio e o superior

Youtube/STFR

Aula ministrada por professor negro, e alunos de diversidade racial

Aula ministrada por professor negro, e alunos de diversidade racial

FERNANDA MENA
FOLHAPRESS

Nas cadeiras das muitas salas de aula por onde passou como estudante, toda vez que o advogado e sociólogo José Vicente, 76, "virava para o lado e via um professor negro, ficava mais seguro e aliviado".

 

"Uma presença negra na sala de aula é encorajadora para um aluno negro. Dá mais segurança e estímulo. Fortalece o desejo e a disposição para estudar", explica o hoje reitor da Universidade Zumbi dos Palmares.

 

Como professor, diante de alunos negros e periféricos, Vicente viu o outro lado da moeda. "Eu me vi como uma peça importante na recepção desses alunos, que se sentiam representados e participantes. E o pertencimento e o acolhimento são potentes demais", conclui.

 

Num Brasil em que pessoas negras têm 53% menos chance de concluir o ensino superior e onde ganham 41% menos do que pessoas brancas, um novo estudo quantificou experiências como a de Vicente ao comprovar que a composição racial do corpo docente melhora o desempenho de alunos negros na educação e na remuneração profissional.

 

O estudo demonstrou que aumentar de 0% para 50% a presença de professores negros eleva também as chances de conclusão do ensino médio (em 1,9%), de ingresso no ensino superior (3,9%), de conclusão do ensino superior aos 25 anos (5,2%) e de aumento dos rendimentos do trabalho (2,3%), sem interferência no desempenho de alunos brancos.

 

Esse impacto é ainda mais importante entre aqueles alunos que tiveram pior desempenho no início da vida escolar e que são justamente aqueles que costumam ficar para trás e abandonar os estudos.

 

Ainda que esses percentuais pareçam modestos, o economista Pedro Lopes, doutor pela Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas (EESP-FGV) e autor do estudo, explica que eles representam uma redução bastante significativa na desigualdade racial entre alunos brancos e negros: de 30% no nível educacional e de 60% no rendimento do trabalho.

 

"Os resultados ilustram que os professores negros já têm importância na redução das desigualdades e que há potencial quando a composição racial do corpo docente é similar à da população", explica Lopes.

 

Para chegar a esta conclusão, Lopes utilizou múltiplas bases de dados vinculadas —como Censo escolar, Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb), ENEM, entre outros, para acompanhar dois grupos, cada um com cerca de um milhão de estudantes de todo o país, ao longo de 12 anos, ou seja, da escola à faculdade e ao mercado de trabalho.

 

Entre 2012 e 2023, Lopes analisou se aqueles que tiveram mais professores negros apresentavam diferenças nas notas em provas padronizadas, na conclusão do ensino médio e da faculdade, e nos rendimentos monetários na vida adulta. Ao comparar, dentro da mesma escola, alunos semelhantes em turmas diferentes expostos ou não a professores negros, ele identificou um efeito causal de ter professores negros nos resultados dos alunos.

 

Seu estudo mostrou também que os alunos com mais professores negros vão melhor em disciplinas como matemática —mesmo que seu professor negro não seja o professor de matemática.

 

O pesquisador destaca que esse efeito positivo sobre o sucesso escolar e profissional pode ser potencializado com a contratação de mais profissionais negros para a carreira docente.

Dados do Censo Escolar de 2024 mostra que 56,8% dos alunos com raça declarada se identificam como negros enquanto, entre professores, esse percentual é de apenas 44,4%.

 

O economista explica que a presença de um professor negro atualiza a crença dos estudantes negros sobre educação, e os alunos começam a se esforçar mais na escola, o que gera um melhor rendimento no futuro.

 

"Professores podem dar mais atenção, suporte e mentoria para alunos que compartilham da sua raça. O professor negro pode ter mais empatia com um aluno negro, e torná-lo mais ativo na sala de aula", avalia.

 

A psicóloga social Cida Bento lembra que estudos já mostraram que professores brancos têm expectativas menores em relação a seus alunos negros. "Isso significa que investem menos nesses alunos. E, provavelmente, você tem uma realidade oposta quando se tem professores e alunos negros interagindo", afirma.

 

Autora de livros como "Psicologia Social do Racismo" e "O Pacto da Branquitude", ela avalia que o professor negro inspira o aluno negro a "ver outro futuro para ele".

 

"Isso cria um sentimento de pertencimento à escola e de a escola lhe pertencer. Ela se torna um lugar em que o menino circula, não como uma figura ameaçadora, mas com mais autoestima e confiança", diz.

 

O economista Michael França, colunista da Folha, afirma que o estudo "aponta mais um caminho para diminuir as lacunas raciais em termos de aprendizagem no Brasil".

 

Na visão de França, parte deste resultado tem a ver com a vivência e as experiências do professor negro e, por isso, é algo que tende a se repetir também em outros recortes demográficos.

 

"Um professor que é um homem branco e rico terá seu viés de classe social, de gênero e de raça. Ele pode ter boas intenções, mas não pode esquecer que foi constituído em um contexto particular que não alcança a vivência de uma pessoa pobre, de periferia, mulher e negra, por exemplo. Esse conhecimento tácito ele não tem", explica.

 

"O professor negro pode trazer mais esse conhecimento tácito para dentro da sala de aula, ter mais empatia para determinadas situações, perceber certas discriminações e ser um outro tipo de mentor."

 

Foi essa figura que fez falta para o advogado Daniel Teixeira, hoje diretor-executivo do Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades (Ceert). "Eu passei por situações com professores que não entendiam quando eu reclamava de racismo na sala de aula", lembra.

 

"Eu falei que estava sofrendo, que um garoto maior do que eu me disse que não gostava de preto, e a professora silenciou. E isso traz um sofrimento psíquico na sala de aula que perdura por muito tempo. Mas, quando há um professor negro, ele em geral vai perceber essas situações de outra forma."

 

Segundo Teixeira, além da dimensão protetiva, há a vantagem da identificação. "O aluno se enxerga possível tanto na escola como no mundo do trabalho. Hoje, existe um mantra de que a saída é pela educação. Só que se a educação reproduz o racismo, ela não só deseduca como desumaniza, e isso também pode gerar uma identificação negativa do estudante, a ideia de que ele não é possível."

 

Lopes, o autor do estudo, conta que já considerava a agenda de cotas importante e que ela pode colaborar para aumentar a proporção de professores negros nas escolas e faculdades.

 

"Outras políticas também podem ajudar, como tornar a carreira docente mais atrativa, implementar programas de educação antirracista nas escolas e garantir que o material didático valorize a cultura e identidade negra", exemplifica.

 

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Reginaldo  05.01.26 07h01
Sun Tzu já dizia isso há séculos… separar para conquistar! A agenda está sendo seguida à risca! Perde quem acredita que a separação nos engrandece!
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