A Salgadeira é um local que marca lembranças de muitas pessoas na região metropolitana de Cuiabá, devido à sua importância como espaço de lazer e contato com a natureza, que ao longo de décadas representou um refresco nos dias quentes da baixada cuiabana. Porém, a região da Salgadeira também conta uma interessante história geológica, com registro de cordilheiras, mares e desertos que já existiram em outros momentos da história do nosso planeta. Neste texto, vou contar um pouco dessa história.

Não é difícil observar que a Cachoeira da Salgadeira é composta por dois tipos de rochas distintas. Na base, existem rochas compostas por argilas, com camadas inclinadas, que parecem que foram cortadas na parte superior. Essas rochas contam uma longa história, algo entre cerca de 1 bilhão e uns 500 milhões de anos. As camadas que ali estão já foram o fundo de um mar; depois, devido aos processos tectônicos relacionados à movimentação das placas tectônicas, esse fundo de mar se fechou, formando uma grande cordilheira. Essa cordilheira foi sendo erodida pouco a pouco, e é aí que começa a história das rochas que marcam o topo da cachoeira.
Não é difícil ver que as rochas do topo estão em camadas horizontais, formadas por conglomerados (cascalhos) e areias. Essas rochas marcam a entrada do mar sobre nossa região por volta de 419 milhões de anos. Sim, a Chapada já foi mar, e a Salgadeira já foi uma área próxima a uma praia. Quem fica tomando banho no rio, na parte superior da Salgadeira, justamente fica sobre essas rochas que registram o início da entrada do mar sobre nossa região. Outra curiosidade, é que a linha que marca o contato das camadas de topo, com a camada da base, representa a antiga superfície de erosão que existia no local quando o mar entrou sobre a região.
Mas isso não é tudo: existe um outro fato muito curioso. As águas da Cachoeira da Salgadeira vêm do Aquífero Guarani — sim, aquele mesmo que você já escutou falar na escola ou na televisão. Uma parte desse importante aquífero está bem ali na região das nascentes do córrego da Salgadeira. E o mais interessante: as rochas que hoje guardam as águas do aquífero já foram um grande deserto entre cerca de 150 e 130 milhões de anos.
Quando você estiver subindo para a Chapada, repare nos paredões vermelhos de arenito; você verá as marcas de estratificações que mostram os antigos pedaços de dunas que ficaram preservados ali. A água que fica armazenada entre os grãos de areia desse antigo deserto, que funciona como grande esponja natural, é justamente a água do Aquífero Guarani. E daí vem a água da Salgadeira, do Rio Claro e de muitos outros que nascem na região.
Como as rochas e o solo são a base da biodiversidade, é claro que as mudanças nesses elementos de geodiversidade também proporcionam mudanças no ambiente, influenciando quais plantas e animais existirão em cada local. Tudo isso faz da região da Salgadeira uma área com grande biodiversidade e geodiversidade, um local que, além de proporcionar lazer, também possibilita entender melhor a história do planeta.
Caiubi Emanuel Souza Kuhn é Geólogo, Doutor cotutela em Geociência e Meio Ambiente (UNESP) e Environmental Sciences (Universidade de Tubingen), Professor na UFMT, Presidente da Federação Brasileira de Geólogos (FEBRAGEO)
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