Cuiabá, Domingo, 22 de Março de 2026
LUCAS OLIVEIRA DE SOUSA
22.03.2026 | 05h30 Tamanho do texto A- A+

Entre a China e o Estreito de Ormuz

Por que o Brasil precisa pensar fertilizantes com visão global

A missão técnica que realizamos na China, após a etapa na Austrália, no âmbito da cooperação entre a UFMT, a Fundação Uniselva e a Secretaria de Desenvolvimento Econômico de Mato Grosso, com apoio da Invest MT, deixou uma constatação clara: o debate sobre fertilizantes já não é apenas técnico ou comercial, mas sim geopolítico e, portanto, estratégico.

 

A mensagem é direta: limitações não justificam (para sempre) a dependência

Ao longo da agenda, passamos pela South China Agricultural University (SCAU), em Guangzhou, participamos da CAC 2026, em Xangai, e visitamos unidades industriais em Yichang. Em todos os ambientes, uma percepção se consolidou: a China opera com visão de longo prazo, combinando planejamento estatal e uso estratégico do mercado.

 

Diante das tensões globais, especialmente com os desdobramentos da guerra envolvendo o Irã (e mais especificamente o Estreito de Ormuz), o país reforçou restrições às exportações para proteger seu abastecimento interno. Em cenários de incerteza, a prioridade chinesa é clara: proteger o mercado nacional.

 

Esse movimento precisa ser compreendido pelo Brasil. Somos altamente dependentes da importação de fertilizantes, e Mato Grosso, como principal potência agrícola do país, está no centro dessa vulnerabilidade. Em um ambiente instável, qualquer ruptura logística ou aumento de preços impacta diretamente nossa produção.

 

Durante a missão, uma profissional da indústria chinesa sintetizou esse desafio: “O Brasil precisará encontrar uma solução para a obtenção de fertilizantes com as matérias-primas disponíveis, mesmo que, atualmente, não sejam eficientes.”

 

A mensagem é direta: limitações não justificam (para sempre) a dependência. Em um setor estratégico, é preciso transformá-las em uma agenda de inovação. Para isso, a ciência aplicada é central nesse processo.

 

Para empresas e governos, a questão deixa de ser apenas eficiência e passa a incluir resiliência. Quais são nossas dependências críticas? E o que estamos fazendo hoje para reduzi-las?

Por isso, o Brasil, e especialmente Mato Grosso, precisam avançar com visão global, fortalecendo parcerias, atraindo investimentos e desenvolvendo capacidades científicas, tecnológicas e comerciais que reduzam a dependência externa. 

 

Se quisermos sustentar nossa liderança no agro, não basta produzir mais. É preciso garantir as condições para continuar produzindo, mesmo em cenários adversos.

No agro do século XXI, competitividade não será apenas produzir mais, mas depender menos.

 

Prof. Dr. Lucas Oliveira de Sousa, PhD em Ciências Agrícolas (Universität Hohenheim, Alemanha), professor da UFMT, especialista em agronegócio e internacionalização.

*Os artigos são de responsabilidade de seus autores e não representam a opinião do MidiaNews. 

 

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