É um fenômeno curioso que a figura do vampiro tenha migrado dos pesadelos folclóricos para o panteão dos galãs irresistíveis. Se Nosferatu e Drácula eram criaturas repulsivas e cadavéricas, o cinema e a literatura contemporâneos — de Entrevista com o Vampiro ao fenômeno Crepúsculo — transformaram o predador em um objeto de desejo.
O monstro agora veste linho, tem olhos melancólicos e uma aura de mistério que torna o seu "beijo" mortal um risco que muitos parecem dispostos a correr.
Essa glamourização do predador nas artes não é inofensiva; ela espelha uma perturbadora característica da alma humana: o fascínio pelo mal. Na psicologia, teorias como a da Tríade Sombria (narcisismo, maquiavelismo e psicopatia) ajudam a explicar por que personalidades tóxicas exercem tamanha sedução e influência. O mal, quando revestido de carisma e poder, projeta uma ilusão de segurança e força. Alguns estudos descrevem a chamada hibristofilia, a atração por indivíduos perigosos e criminosos, vendo na vilania uma forma de "proteção" ou uma oportunidade de redenção através do amor.
Transpondo a ficção para a realidade política e social, o cenário é desolador. Assistimos, com frequência, à ascensão de figuras públicas maculadas pela corrupção, pelo abuso de poder e por desvios éticos. Mesmo condenadas e expostas, essas personalidades mantêm legiões de seguidores fervorosos nas redes sociais e recebem votações expressivas em pleitos eleitorais, do Brasil a Israel, dos Estados Unidos à Bielorússia. A sedução que o "líder forte" ou o "corrupto realizador" exerce sobre as pessoas é análoga à do vampiro: ele drena o tesouro público e enxovalha as instituições estatais, mas o faz alternando promessas e ameaças que hipnotizam as vítimas.
O fenômeno se aprofunda quando observamos a sua continuidade no tempo. Herdeiros políticos de ditadores e notórios criminosos não apenas se recusam a renegar ou pedir desculpas pelo legado de dor e pilhagem deixado por seus antecessores, como utilizam-se do mesmo capital simbólico para se sustentarem. Exemplos não faltam, como a volta do clã Marcos nas Filipinas ou a persistência dos Fujimori no Peru ou, ainda, os órfãos de Hitler, Pinochet e Stálin. Novas gerações de vampiros beneficiam-se do sangue já estocado e apresentam-se com faces renovadas e o mesmo apetite de sempre.
Na literatura ou no cinema, o fascínio pelo sombrio pode ser um diletantismo estético. Porém, na vida real e na esfera pública é uma patologia civilizatória. Quando uma sociedade, ciente da maldade e do crime, escolhe voluntariamente entregar o pescoço a carrascos carismáticos, ela abdica de sua própria sobrevivência. Resta-nos indagar se quem se deixa seduzir pelo vampiro — ansiando pela mordida que o perfura — não corre o risco de ver o seu sangue sugado até a última gota.
Luiz Henrique Lima é professor e Doutor em Planejamento Ambiental.
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