“We don’t need no education” — o refrão da clássica música do Pink Floyd, Another Brick in the Wall, ecoa como um protesto juvenil contra uma escola opressora, que, em vez de libertar, sufoca. Quase meio século depois do lançamento da canção, a crítica continua assustadoramente atual no Brasil. A escola brasileira, com raras exceções, ainda forma “tijolos no muro”, e não cidadãos críticos. É preciso urgentemente repensar os rumos do ensino no país, e nesse cenário, o legado de Paulo Freire ressurge como farol em meio à escuridão.
A crise da educação: números e realidades:
O Brasil amarga indicadores desastrosos. Segundo o IDEB, a média nacional do ensino médio está estagnada. Estudantes saem da escola sem saber interpretar textos simples ou resolver problemas matemáticos básicos. Mas o maior fracasso não é só o da aprendizagem mecânica — é o da formação crítica, da capacidade de pensar.
Temos uma escola que treina para decorar fórmulas, mas não ensina a questionar. Que cobra silêncio, obediência e uniformidade. A mesma escola que o Pink Floyd denunciava nos anos 70 ainda vive em muitos cantos do país — autoritária, desatualizada, desinteressante. Uma escola que ensina a obedecer, mas não a transformar.
Paulo Freire: o educador que queria libertar:
Paulo Freire, injustamente atacado por setores que sequer leram sua obra, propôs justamente o contrário disso. Em vez de tratar o aluno como uma “caixa vazia” a ser preenchida, ele o via como sujeito do seu processo de aprendizagem. A chamada “educação bancária” — onde o professor deposita o conteúdo e o aluno apenas recebe — era, para ele, uma forma de opressão.
Freire propunha uma educação dialógica, em que ensinar e aprender são processos mútuos. O conteúdo escolar deveria partir da realidade do estudante, de seu contexto social, de suas vivências. Mais do que ensinar o “o quê”, Freire queria ensinar o “como” — como pensar, como refletir, como mudar.
“Educação não transforma o mundo. Educação muda as pessoas. Pessoas transformam o mundo”, escreveu.
Another brick in the wall: o alerta do rock progressivo:
Em Another Brick in the Wall, o sistema educacional é retratado como uma máquina de moer sonhos. Crianças marcham em linha reta, padronizadas, sem voz. “Hey, teacher! Leave them kids alone!” — um clamor de liberdade diante de um modelo que suprime a criatividade e a individualidade.
A analogia com o sistema brasileiro é cruel, mas justa. Crianças continuam sendo preparadas para o vestibular, não para a vida. O foco é na nota, não na compreensão. O professor, exausto e mal pago, muitas vezes é pressionado a seguir apostilas padronizadas, sem espaço para adaptar o ensino à realidade dos alunos.
Educação é ato político:
Paulo Freire nunca negou: educar é um ato político. E é exatamente por isso que seu método incomoda. Porque, ao educar para a libertação, ele ameaça a estrutura de dominação. Uma escola crítica forma cidadãos que questionam, e não apenas consumidores ou eleitores passivos.
No fundo, o debate não é apenas sobre métodos pedagógicos. É sobre o tipo de sociedade que queremos construir. Queremos cidadãos pensantes ou apenas mais tijolos no muro?
Se quisermos virar essa página, precisamos valorizar o professor, investir em formação crítica, repensar o currículo e, sobretudo, recuperar a ideia de que a escola deve ser um espaço de liberdade, e não de controle.
Paulo Freire nos deixou o mapa. O Pink Floyd nos alertou sobre o muro. Cabe a nós decidir: vamos continuar empilhando tijolos ou finalmente derrubá-lo?
Rodrigo Rodrigues é jornalista, empresário e graduado em gestão pública.
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4 Comentário(s).
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| aloisio 08.07.25 16h23 | ||||
| Depois de mais de 500 anos ainda não fomos capazes de construir uma educação de qualidade e de amplitude pública. Mais ainda, há pouco interesse nisso. Escola de qualidade nesse país é para a elite. Não dá para discutir com quem atribui a Paulo Freire o fracasso da educação. Isso é grosseria e ignorância, além de revelar uma distância monstruosa da sala de aula. Agora, quando o estado aposta no modelo cívico-militar como política de educação é de se parar o mundo e descer ... pois o mundo civilizado aposta na cognição, enquanto aqui ainda apostamos no comportamento. Salvemos a escola pública! | ||||
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| JOSÉ RICARDO 08.07.25 11h35 | ||||
| Está reclamando de que???? De 2002 para cá o sistema de ensino implantado e seguido no Brasil foi o que a esquerda planejou e colocou em prática. Onde não se cobra conhecimento e o aluno não pode repetir de ano para não comprometer os indicadores. As escolas e universidades estão seguindo EXATAMENTE o que Paulo Freire defendia. A máquina de doutrinação Gramsciniana está a todo vapor e o resultado que estamos vendo é esse que está aí. Alunos do ultimo ano do ensino médio não conseguem fazer uma operação matemática básica e comete duzentos erros de português num parágrafo. "Ah!!! mas eles estão aprendendo a pensar". Pensar em que???? Tigrinho, Tik Tok? PARABÉNS!!! vcs são FANTÁSTICOS!!!!!!! | ||||
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| Deyved Sobrinho 08.07.25 09h55 | ||||
| Contra números não há argumentos! ...Resumindo toda a opinião descrita acima. Os resultado da implantação de escolas na modalidade cívico militares no estado de Mato Grosso já começam a aparecer, e vão se tornar cada vez mais latentes. Toda essa filosofia Paulo Freiriana cai por terra quando comparada ao modelo de ensino baseado em disciplina, hierarquia e respeito com foco em metas bem calibradas, e o resultado final representa um grande serviço à sociedade. Não posso falar em outros estados da federação, pois, não consigo acompanhar de perto suas politicas educacionais, agora, em se tratando de Mato Grosso, tenho certeza que em um futuro próximo, a safra de cidadãos e cidadãs que será entregue á sociedade desse estado através dessa modalidade de ensino fará uma grande diferença, isso em todos os campos, docência, ciência, pesquisa e inovação, na política, na iniciativa privada, no esporte, na cultura dentre outros. Graças a iniciativa das atuais lideranças políticas e do audacioso projeto de implantação das mais de 100 unidades escolares cívico militares não tenho dúvida que Mato Grosso vai colher excelentes frutos de agora em diante. Quem duvidar, acesse os portais do IDEB, comparem os números e tirem suas próprias conclusões. | ||||
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| Henrique do Carmo Barros 08.07.25 07h19 | ||||
| A escola brasileira, com raras exceções, ainda forma “tijolos no muro”, e não cidadãos críticos. Até concordo. Nas escolas públicas, de fato, forma " tijolos no muro", mas de um muro ideológico, planejado e construído por doutrinadores de ESQUERDA. Intransponível para criticas outras que não de um viés político como o do jornalista. | ||||
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