Cuiabá, Quinta-Feira, 26 de Março de 2026
ANGELO SILVA DE OLIVEIRA
01.01.2026 | 05h30 Tamanho do texto A- A+

O ovo, o café e o Banco Central

O balanço de 2025 indica que o Brasil funciona melhor quando seus órgãos estratégicos atuam de forma técnica

O encerramento de 2025 marca o primeiro ano completo da gestão de Gabriel Galípolo à frente do Banco Central do Brasil. Mais do que uma simples mudança de comando, esse período simboliza o fim de um descompasso institucional que marcou a economia brasileira nos últimos anos. 

 

Até 31 de dezembro de 2024, o país conviveu com uma autoridade monetária presidida por alguém indicado por um projeto político derrotado nas eleições de 2022. Trata-se de um modelo legal e previsto em lei, mas que levanta uma questão legítima: até que ponto mandatos fixos em órgãos estratégicos conseguem, na prática, manter-se imunes ao contexto político que lhes deu origem? 

 

O CUSTO DO DESCOMPASSO INSTITUCIONAL 

 

Os números ajudam a ilustrar esse debate. O ano de 2024 terminou como um dos mais difíceis da economia brasileira recente. O dólar acumulou alta de 27,34 por cento, a maior nos últimos anos, refletindo instabilidade, desconfiança e expectativas deterioradas. Falava-se abertamente em um câmbio próximo de sete reais, inflação pressionada e juros em trajetória ascendente. 

 

Esse cenário não ficou restrito a planilhas e relatórios técnicos. Ele chegou à mesa do brasileiro comum. Entre o fim de 2024 e o início de 2025, itens básicos como o ovo e o café, presentes diariamente em praticamente todos os lares, sofreram aumentos expressivos. O café, símbolo do hábito nacional, tornou-se mais caro. O ovo, proteína essencial e acessível, passou a exemplificar como a instabilidade macroeconômica afeta diretamente o custo de vida, sobretudo dos mais pobres. 

 

O ALINHAMENTO E A RETOMADA 

 

Com a mudança na direção do Banco Central em janeiro de 2025, o ambiente econômico começou a se reorganizar. Ao final do ano, os indicadores apontam para um quadro sensivelmente distinto. A inflação voltou a se aproximar do centro da meta, os juros se estabilizaram com perspectiva realista de redução, o dólar apresentou queda no acumulado do ano e o mercado de capitais se fortaleceu, com o Ibovespa alcançando patamares históricos. 

 

É importante destacar que essa melhora não decorre de decisões isoladas ou soluções mágicas, mas de coordenação institucional. Mesmo herdando juros elevados, o governo buscou medidas de alívio direto à população, como a ampliação do crédito consignado para trabalhadores regidos pela CLT. Ao permitir acesso a crédito com taxas mais justas, a política pública demonstrou que técnica e sensibilidade social devem caminhar juntas. 

 

O EMPOBRECIMENTO SILENCIOSO 

 

Esse contexto conduz a uma reflexão mais profunda sobre os efeitos distributivos da política econômica. Há um aspecto muitas vezes subestimado no debate público: quando a inflação avança e os salários não são reajustados, ou o são abaixo da recomposição inflacionária, ocorre uma redução direta do poder de compra. Trata-se de um empobrecimento silencioso, que não aparece de imediato nas estatísticas fiscais, mas se manifesta no cotidiano das famílias. O trabalhador passa a consumir menos, substitui alimentos, posterga cuidados básicos e perde capacidade de planejamento. Na prática, inflação sem recomposição salarial funciona como um imposto regressivo, que recai de forma desproporcional sobre quem vive do próprio trabalho e depende do mercado interno para sobreviver. 

 

Esse ponto ajuda a compreender por que a política monetária não pode ser analisada apenas sob uma ótica abstrata. O Banco Central dispõe de diversos instrumentos de política monetária e cambial para conter a inflação e estabilizar o dólar. O aumento da taxa Selic não é a única alternativa e tampouco deve ser tratado como solução automática ou inevitável. 

 

O uso quase exclusivo da elevação dos juros, frequentemente apresentado como um remédio técnico incontornável, carrega efeitos colaterais relevantes. Juros elevados encarecem o crédito para empresas e famílias, aumentam o custo de produção, desestimulam investimentos e podem, de forma paradoxal, retroalimentar a própria inflação ao pressionar os preços finais. 

 

Da mesma forma, a tolerância com a disparada do dólar impacta diretamente a inflação ao encarecer insumos importados, combustíveis, alimentos e serviços. Além disso, estimula a exportação excessiva de produtos essenciais, reduz a oferta interna e pressiona ainda mais os preços no mercado doméstico. Quando o câmbio se desorganiza e o crédito se torna proibitivo, o peso do ajuste recai sobre quem produz e sobre quem consome, especialmente os mais pobres. 

 

TÉCNICA OU ESTRATÉGIA POLÍTICA? 

 

O debate deixa de ser abstrato quando se observa um episódio emblemático da política econômica recente. Em 2020, o então ministro da Economia utilizou a expressão “granada no bolso do inimigo” ao se referir à suspensão de reajustes salariais de servidores públicos, tratando uma decisão administrativa como instrumento de enfrentamento político. A metáfora, amplamente divulgada à época, revelou uma visão segundo a qual políticas econômicas podem ser utilizadas como mecanismos de desgaste deliberado para governos futuros ou para determinados grupos sociais.

 

Esse episódio ajuda a compreender por que mandatos que atravessam governos, quando dissociados do projeto legitimado nas urnas, podem ser percebidos como heranças problemáticas ou mesmo como obstáculos institucionais deliberadamente deixados para gerar instabilidade. A economia, nesse contexto, deixa de ser apenas um campo técnico e passa a ser também um instrumento de disputa política, ainda que revestido de linguagem aparentemente neutra. 

 

Uma política monetária verdadeiramente técnica exige o uso equilibrado de diferentes instrumentos, como comunicação clara, gestão de expectativas, atuação responsável no mercado de câmbio, coordenação com a política fiscal e regulação adequada do crédito. Soluções simplistas apenas transferem o custo do ajuste para a sociedade e aprofundam desigualdades. 

 

Em uma democracia com eleições frequentes, é legítimo questionar se faz sentido que dirigentes de órgãos centrais, sem concurso público e com mandatos que atravessam governos, permaneçam completamente dissociados do projeto escolhido pela maioria da população. A experiência recente sugere que a separação absoluta entre técnica e política nem sempre é neutra. Muitas vezes, ela apenas oculta alinhamentos, visões de mundo e prioridades que impactam diretamente a vida das pessoas. 

 

Não se trata de defender interferência política indevida, mas de reconhecer que instituições não existem no vácuo. Elas operam dentro de um Estado democrático, e seus resultados precisam dialogar com o interesse público, a estabilidade econômica e a soberania popular. 

 

O balanço de 2025 indica que o Brasil funciona melhor quando seus órgãos estratégicos atuam de forma técnica, responsável e em sintonia com o projeto legitimado pelo voto. Quando isso ocorre, quem ganha não é um governo ou um mercado específico, mas o cidadão comum, que percebe no preço do café, do ovo e do crédito a diferença concreta entre instabilidade e equilíbrio. 

 

Angelo Silva de Oliveira é cidadão brasileiro, mestre em Administração Pública e controlador/auditor interno.

*Os artigos são de responsabilidade de seus autores e não representam a opinião do MidiaNews. 

 

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Alaerte  01.01.26 12h40
Desde o projeto de tem um Banco central independente, torna se decisão de não haver interferência do Governo na entidade monetária. Avaliamos que a gestão anterior, Campos Neto correu, além das reclamações do Lula, Haddade e Simone Tebet, caminhou conforme a politica fiscal do momento. Campos Neto fechou sua gestão com juros de 11,5 e Gallipolo Ampliou para 15 Sem contestação da politica econômica. Sendo assim o Governo Lula sempre contestou o controle monetário pelo Banco Central independente. não fosse sua estrutura montada no mandato Campos Neto, Lula teria interferido com toda fome de gastos que sempre tem. Mais uma vez, semana passada contestou a importância que tem o Banco Central.
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