Cuiabá, Quinta-Feira, 1 de Janeiro de 2026
ANGELO SILVA DE OLIVEIRA
01.01.2026 | 05h30 Tamanho do texto A- A+

O ovo, o café e o Banco Central

O balanço de 2025 indica que o Brasil funciona melhor quando seus órgãos estratégicos atuam de forma técnica

O encerramento de 2025 marca o primeiro ano completo da gestão de Gabriel Galípolo à frente do Banco Central do Brasil. Mais do que uma simples mudança de comando, esse período simboliza o fim de um descompasso institucional que marcou a economia brasileira nos últimos anos. 

 

Até 31 de dezembro de 2024, o país conviveu com uma autoridade monetária presidida por alguém indicado por um projeto político derrotado nas eleições de 2022. Trata-se de um modelo legal e previsto em lei, mas que levanta uma questão legítima: até que ponto mandatos fixos em órgãos estratégicos conseguem, na prática, manter-se imunes ao contexto político que lhes deu origem? 

 

O CUSTO DO DESCOMPASSO INSTITUCIONAL 

 

Os números ajudam a ilustrar esse debate. O ano de 2024 terminou como um dos mais difíceis da economia brasileira recente. O dólar acumulou alta de 27,34 por cento, a maior nos últimos anos, refletindo instabilidade, desconfiança e expectativas deterioradas. Falava-se abertamente em um câmbio próximo de sete reais, inflação pressionada e juros em trajetória ascendente. 

 

Esse cenário não ficou restrito a planilhas e relatórios técnicos. Ele chegou à mesa do brasileiro comum. Entre o fim de 2024 e o início de 2025, itens básicos como o ovo e o café, presentes diariamente em praticamente todos os lares, sofreram aumentos expressivos. O café, símbolo do hábito nacional, tornou-se mais caro. O ovo, proteína essencial e acessível, passou a exemplificar como a instabilidade macroeconômica afeta diretamente o custo de vida, sobretudo dos mais pobres. 

 

O ALINHAMENTO E A RETOMADA 

 

Com a mudança na direção do Banco Central em janeiro de 2025, o ambiente econômico começou a se reorganizar. Ao final do ano, os indicadores apontam para um quadro sensivelmente distinto. A inflação voltou a se aproximar do centro da meta, os juros se estabilizaram com perspectiva realista de redução, o dólar apresentou queda no acumulado do ano e o mercado de capitais se fortaleceu, com o Ibovespa alcançando patamares históricos. 

 

É importante destacar que essa melhora não decorre de decisões isoladas ou soluções mágicas, mas de coordenação institucional. Mesmo herdando juros elevados, o governo buscou medidas de alívio direto à população, como a ampliação do crédito consignado para trabalhadores regidos pela CLT. Ao permitir acesso a crédito com taxas mais justas, a política pública demonstrou que técnica e sensibilidade social devem caminhar juntas. 

 

O EMPOBRECIMENTO SILENCIOSO 

 

Esse contexto conduz a uma reflexão mais profunda sobre os efeitos distributivos da política econômica. Há um aspecto muitas vezes subestimado no debate público: quando a inflação avança e os salários não são reajustados, ou o são abaixo da recomposição inflacionária, ocorre uma redução direta do poder de compra. Trata-se de um empobrecimento silencioso, que não aparece de imediato nas estatísticas fiscais, mas se manifesta no cotidiano das famílias. O trabalhador passa a consumir menos, substitui alimentos, posterga cuidados básicos e perde capacidade de planejamento. Na prática, inflação sem recomposição salarial funciona como um imposto regressivo, que recai de forma desproporcional sobre quem vive do próprio trabalho e depende do mercado interno para sobreviver. 

 

Esse ponto ajuda a compreender por que a política monetária não pode ser analisada apenas sob uma ótica abstrata. O Banco Central dispõe de diversos instrumentos de política monetária e cambial para conter a inflação e estabilizar o dólar. O aumento da taxa Selic não é a única alternativa e tampouco deve ser tratado como solução automática ou inevitável. 

 

O uso quase exclusivo da elevação dos juros, frequentemente apresentado como um remédio técnico incontornável, carrega efeitos colaterais relevantes. Juros elevados encarecem o crédito para empresas e famílias, aumentam o custo de produção, desestimulam investimentos e podem, de forma paradoxal, retroalimentar a própria inflação ao pressionar os preços finais. 

 

Da mesma forma, a tolerância com a disparada do dólar impacta diretamente a inflação ao encarecer insumos importados, combustíveis, alimentos e serviços. Além disso, estimula a exportação excessiva de produtos essenciais, reduz a oferta interna e pressiona ainda mais os preços no mercado doméstico. Quando o câmbio se desorganiza e o crédito se torna proibitivo, o peso do ajuste recai sobre quem produz e sobre quem consome, especialmente os mais pobres. 

 

TÉCNICA OU ESTRATÉGIA POLÍTICA? 

 

O debate deixa de ser abstrato quando se observa um episódio emblemático da política econômica recente. Em 2020, o então ministro da Economia utilizou a expressão “granada no bolso do inimigo” ao se referir à suspensão de reajustes salariais de servidores públicos, tratando uma decisão administrativa como instrumento de enfrentamento político. A metáfora, amplamente divulgada à época, revelou uma visão segundo a qual políticas econômicas podem ser utilizadas como mecanismos de desgaste deliberado para governos futuros ou para determinados grupos sociais.

 

Esse episódio ajuda a compreender por que mandatos que atravessam governos, quando dissociados do projeto legitimado nas urnas, podem ser percebidos como heranças problemáticas ou mesmo como obstáculos institucionais deliberadamente deixados para gerar instabilidade. A economia, nesse contexto, deixa de ser apenas um campo técnico e passa a ser também um instrumento de disputa política, ainda que revestido de linguagem aparentemente neutra. 

 

Uma política monetária verdadeiramente técnica exige o uso equilibrado de diferentes instrumentos, como comunicação clara, gestão de expectativas, atuação responsável no mercado de câmbio, coordenação com a política fiscal e regulação adequada do crédito. Soluções simplistas apenas transferem o custo do ajuste para a sociedade e aprofundam desigualdades. 

 

Em uma democracia com eleições frequentes, é legítimo questionar se faz sentido que dirigentes de órgãos centrais, sem concurso público e com mandatos que atravessam governos, permaneçam completamente dissociados do projeto escolhido pela maioria da população. A experiência recente sugere que a separação absoluta entre técnica e política nem sempre é neutra. Muitas vezes, ela apenas oculta alinhamentos, visões de mundo e prioridades que impactam diretamente a vida das pessoas. 

 

Não se trata de defender interferência política indevida, mas de reconhecer que instituições não existem no vácuo. Elas operam dentro de um Estado democrático, e seus resultados precisam dialogar com o interesse público, a estabilidade econômica e a soberania popular. 

 

O balanço de 2025 indica que o Brasil funciona melhor quando seus órgãos estratégicos atuam de forma técnica, responsável e em sintonia com o projeto legitimado pelo voto. Quando isso ocorre, quem ganha não é um governo ou um mercado específico, mas o cidadão comum, que percebe no preço do café, do ovo e do crédito a diferença concreta entre instabilidade e equilíbrio. 

 

Angelo Silva de Oliveira é cidadão brasileiro, mestre em Administração Pública e controlador/auditor interno.

*Os artigos são de responsabilidade de seus autores e não representam a opinião do MidiaNews. 

 

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