Que motivos podem levar alguém a odiar um professor?
Fiz-me a pergunta ao me deparar pela enésima vez com mensagens em redes sociais de ódio a um professor. O curioso é que o referido professor faleceu há quase três décadas. Nunca foi acusado de corrupção, improbidade, assédio moral ou qualquer outro crime. Na realidade, grande parte dos seus detratores não o conheceu, nunca o viu ou ouviu, tampouco leu um dos seus livros ou artigos. Ainda assim, transpiram raiva e multiplicam ofensas.
Semana passada, num grupo de WhatsApp exclusivo para membros graduados de tribunais, um dos participantes, ele próprio autor de publicações na sua área de conhecimento, qualificou o referido professor como “semovente”.
Ora, estava falando de um pernambucano que recebeu nada menos que 41 títulos de Doutor Honoris Causa das mais prestigiadas universidades do mundo, incluindo Oxford, Cambridge, Harvard, Genebra e Bolonha. Foi agraciado com prêmios pela UNESCO, OEA e governo da Bélgica. Tem um monumento em sua homenagem em Estocolmo e institutos com seu nome na Áustria, Alemanha, África do Sul, Estados Unidos e Finlândia. É, portanto, um dos brasileiros com maior reconhecimento no cenário acadêmico internacional e uma de suas obras é a terceira mais citada em todo o mundo na área de ciências humanas.
Aparentemente, em vez de inspirar admiração, esses feitos só aguçam a ira dos ressentidos.
Sim, esse professor foi perseguido pela maldita ditadura de 1964 e foi exilado por 16 anos, no Chile, Estados Unidos e Suíça, período em que publicou as suas principais obras, traduzidas em cerca de 40 idiomas.
E qual a origem do ódio? É que esse professor dedicou a sua vida, o seu trabalho e as suas pesquisas à educação dos pobres e à alfabetização dos adultos. Buscou uma prática pedagógica não elitista, mas inclusiva, que respeitasse e dialogasse com as classes populares. Lutou por uma educação emancipadora e não reprodutora de preconceitos e privilégios. Como todo pensador, suas teses são sujeitas a questionamentos, mas, como poucos, suas ideias ajudaram a transformar a realidade em várias partes do mundo.
O nome desse professor é Paulo Freire. Tive o privilégio de conhecê-lo pessoalmente e de, como vereador carioca à época, aprovar o título de cidadão honorário que recebeu em 1983.
Quem odeia e ofende um educador revela muito mais sobre si mesmo, sua fragilidade moral e sua insegurança emocional, do que sobre aquele que tentou, sem sucesso, atingir.
Luiz Henrique Lima é professor e conselheiro independente certificado.
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