Cuiabá, Sábado, 21 de Fevereiro de 2026
RENATA SELDIN
21.02.2026 | 05h30 Tamanho do texto A- A+

Se eu tivesse pernas, eu te chutaria

Há anos aproveito ano para ver filmes que estão concorrendo ao Oscar

Há anos aproveito o início do ano para ver todos os filmes que estão concorrendo na categoria principal do Oscar. Mas em 2026 resolvi ser um pouco mais audaciosa e incluí também todos os títulos que estão disputando qualquer categoria do prêmio.

 

Isso coloca alguns filmes que definitivamente não curto na minha lista para assistir, como “Jurassic Park”, “Avatar” e “A hora do mal”, mas resolvi encarar o desafio e tive algumas boas surpresas, como o norueguês “A Meia-irmã Feia”, concorrendo a melhor maquiagem e figurino, além de muitos documentários que tocaram meu coração.

 

Mas minha maior surpresa foi “Se eu tive pernas, eu te chutaria", filme que concorre em apenas uma categoria, a de melhor atriz, para Rose Byrne. O filme mostra, de forma ansiosa e angustiante, a vida de uma mulher que é o estereótipo de tudo que se fala quando o assunto são pautas femininas. Aqui já aviso que tem spoiler pela frente, mas eu continuaria a leitura mesmo assim.

 

O filme começa com a versão “mulher-mãe” e, aos poucos, revela que sua filha tem algum tipo de desordem alimentar que a obriga a usar um tubo de alimentação em um buraco na sua barriga (a "mulher-cuidadora"). De forma metafórica, um enorme buraco se abre no teto do quarto principal da casa, inundando o apartamento delas de tal forma que é necessário se mudar para um hotel.

 

Onde está o marido neste momento? Ausente, na terceira de uma viagem de oito semanas, mas presente pelo telefone dando ordens de como resolver o problema da casa ("mulher-dona-de-casa"), além de supervisionar o tratamento da filha.

 

A doença da filha a permite controlar tudo que entra em seu corpo, enquanto a mãe só perde o controle. A menina a acha maleável (manipulável), e ela descobre que realmente o é. Já seu marido a acha exagerada e pouco responsável.

 

Diariamente, a personagem deixa a filha na escola e parte para o trabalho como terapeuta, revelando a "mulher-profissional”. Aliás, no mesmo lugar, faz terapia com um colega homem e ouve dele coisas que simplificam sua situação ao invés de ajudá-la a atravessar os problemas. Interessante é que na sua prática, ela reproduz esse modelo com uma paciente que acabou de virar mãe, propondo-a que se coloque em primeiro lugar, deixe o bebê chorando e vá cuidar um pouco dela, para tirar um momento para respirar antes de voltar ao caos.

 

Sua paciente acaba mesmo sumindo e deixando o filho na sala de terapia, um reflexo do que nossa personagem principal secretamente gostaria de fazer. Mas, na verdade, ela está muito ocupada em lidar com as múltiplas culpas de não dar conta de tudo, além de ser responsabilizada por todos à sua volta como se fosse sua obrigação resolver tudo. O próprio marido, para descredibilizar seus pedidos de ajuda, diz que ela passa o dia todo sentada no trabalho ouvindo as pessoas falarem e que isso não se compara ao trabalho dele.

 

Em um dos momentos mais angustiantes do filme ela grita para seu terapeuta: “Eu só quero alguém que me diga o que fazer” e, na ausência de respostas por parte dele, acaba chegando à conclusão de que o tempo é uma sucessão de coisas a serem superadas.

 

Sem mais spoilers, assim como muitas outras mulheres, depois de múltiplos pedidos de ajuda, de diferentes formas e para diferentes pessoas, o filme caminha para a convicção de que tudo se resolverá por conta própria.

 

Ou será apenas a própria desistência da personagem?

 

Renata Seldin é mentora de carreiras e doutora em Gestão da Inovação.

*Os artigos são de responsabilidade de seus autores e não representam a opinião do MidiaNews. 

 

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