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18.01.2026 | 10h45 Tamanho do texto A- A+

A história de Dante de Oliveira: das Diretas Já à morte precoce

Semana foi marcada por morte de mãe de político; em 2026 completam 20 anos da partida dele

Memorial da Democracia

Dante de Oliveira na época em que era deputado federal e propôs a emenda das Diretas Já

Dante de Oliveira na época em que era deputado federal e propôs a emenda das Diretas Já

VITÓRIA GOMES
DA REDAÇÃO

A morte da matriarca da família Oliveira, Maria Benedita Martins de Oliveira, no dia 12 de janeiro, aos 104 anos, reacendeu o interesse em um dos políticos mais emblemáticos da história de Mato Grosso: Dante Martins de Oliveira.

 

Dante era um estadista, estava sempre mirando o futuro. Exigia metas dos secretários

Em julho de 2026, completam-se 20 anos da morte de Dante. Ex-prefeito de Cuiabá, ex-governador do Estado e autor da emenda constitucional que deu nome ao movimento das Diretas Já, ele deixou um legado que ultrapassa obras e mandatos.

  

Para quem conviveu com ele de perto, como a viúva, ex-deputada federal e ex-prefeita de Chapada dos Guimarães, Thelma de Oliveira, Dante era, antes de tudo, um homem disciplinado, afetuoso e movido por propósitos.

 

“Foram 27 anos de casamento e um ano de namoro, 28 anos juntos. Ele era extremamente disciplinado, tinha objetivos diários muito definidos, desde caminhada, alimentação, tudo. E, ao mesmo tempo, era extremamente carinhoso, gostava muito de crianças, de idosos, sempre tinha uma disponibilidade natural para as pessoas”, relembrou ela em entrevista ao MidiaNews.

 

Thelma o descreveu como um homem atento às relações familiares e humanas, que fazia questão de pequenos rituais, como tomar café da manhã diariamente com a mãe, dona Maria. Ao mesmo tempo, segundo Thelma, Dante era um gestor exigente.

 

“Dante era um estadista, estava sempre mirando o futuro. Exigia metas dos secretários, cumprimento de projetos, mas não gostava de ficar preso só ao dia a dia. Gostava de pensar sempre no futuro”, afirmou.

 

Destaque nacional

 

Essa combinação entre sensibilidade social e visão estratégica foi uma marca registrada desde o início da trajetória política. Segundo Thelma, foi ouvindo as pessoas nas ruas que Dante amadureceu a ideia que o colocaria no centro da história política nacional: a proposta de eleições diretas para presidente, em pleno regime militar.

 

“O Dante ia muito para a rua, discutia com a população e ouvia muito. As pessoas diziam: ‘Não é possível que a gente não possa eleger o nosso presidente, estamos na ditadura’. Foi o que o levou a apresentar a emenda das Diretas Já”, contou ela.

 

Orientou o Dante a fazer uma proposta simples, que as pessoas pudessem compreender e abraçar

Havia outros projetos sobre o tema no Congresso, mas Dante seguiu um conselho decisivo do pai, Sebastião de Oliveira, conhecido como doutor Paraná, que era jurista e também político experiente.

 

“Ele disse que os projetos eram complexos demais, que a população não entenderia. Orientou o Dante a fazer uma proposta simples, que as pessoas pudessem compreender e abraçar”, relatou Thelma.

 

A emenda Dante de Oliveira não foi aprovada, mas desencadeou a maior mobilização popular da história recente do país com o objetivo de colocar fim à ditadura. O movimento das Diretas Já ganhou dimensão nacional de forma espontânea.

 

“Começou com os estudantes, depois foi para os sindicatos e para outros setores da sociedade. Atingiu todos os partidos e todas as classes, das pessoas mais simples aos empresários e à imprensa, que teve papel fundamental”, lembrou.

 

Jovem deputado federal recém-chegado a Brasília, Dante não imaginava a magnitude do que estava ajudando a construir, mas rapidamente se tornou um símbolo da redemocratização.

 

 

Política no sangue

 

A vocação política vinha de família. O pai foi deputado-constituinte. Ainda assim, o caminho inicialmente traçado para Dante era outro: formar-se engenheiro no Rio de Janeiro e voltar a Cuiabá como profissional liberal.

 

O envolvimento com o movimento estudantil contra a ditadura, porém, mudou tudo. “Ele se apaixonou pela política ali”, disse Thelma.

 

Esse político de projeção nacional manteve, ao longo da vida, uma identidade profundamente popular, pois suas raízes na política se iniciaram pelo engajamento com o povo.

 

Reprodução

Dante de Oliveira

A morte de Dante, aos 54 anos, chocou todo o Estado em 2006

“Apesar de ser de família tradicional, era carismático, ia às casas das pessoas, bares, comia salgado, tomava uma cervejinha, gostava de café. Cresceu muito na periferia, ouvindo a população”, afirmou.

 

Foi dessa escuta que nasceu o projeto “Muda Cuiabá”, base de suas gestões como prefeito, com ênfase na participação popular e em áreas críticas como Saúde, Educação e Infraestrutura.

 

Para Thelma, um dos maiores legados de Dante foi humano e institucional.

 

“Ele dizia que era importante formar seres humanos. Investia muito em escolas, em capacitação dos servidores. Todos tinham oportunidade de aprender. Ele não tomava decisões isoladamente, ouvia, convencia, mas não impunha. E exigia que as pessoas se capacitassem, crescessem. Esse legado existe até hoje”, disse.

 

Da vaia ao reconhecimento

 

O deputado estadual Carlos Avallone (PSDB), que foi secretário municipal e estadual de Dante antes de iniciar a própria carreira política, reforçou essa visão. Para ele, Dante exercia uma liderança rara.

 

“Ele liderava a partir de políticas públicas e posturas bem definidas. Era transparente, tinha uma relação muito próxima com o povo”, afirmou.

 

Avallone lembrou que, como prefeito, em um período de expansão acelerada de Cuiabá, Dante promoveu mudanças estruturantes, como a Perimetral, soluções para resíduos sólidos e projetos financiados por organismos internacionais.

 

Avallone definiu a gestão de Dante no Governo do Estado como uma ruptura histórica.

 

Ele demitiu 16 mil servidores de um total de 44 mil. A gente ia ao cinema e era vaiado

“Ele fez a grande transformação, preparou o Estado para o futuro. Enxugou um Estado pesado e o transformou em moderno, sem perder as funções sociais”, disse.

 

Foram oito anos marcados por projetos estruturantes: resolução do problema energético, implantação de linhões, avanço da ferrovia, gasoduto, consolidação de Manso e políticas sociais.

 

Avallone lembrou que essas mudanças tiveram custo político imediato, pois as mudanças, por mais importantes que fossem, no início não foram bem aceitas.

 

“Ele demitiu 16 mil servidores de um total de 44 mil. A gente ia ao cinema e era vaiado. Mas ele nunca deixou de participar da vida da cidade. Depois, a população reconheceu e o reelegeu”, relatou.

 

“Dante foi o único estadista que conheci. Pensava Cuiabá e Mato Grosso como objetivo de vida”, disse.

 

Líder nato e morte precoce

 

O jornalista e analista político Onofre Ribeiro, conselheiro informal de Dante, destacou a vocação natural para a liderança. “De tempos em tempos nascem pessoas vocacionadas para determinadas áreas. O Dante tinha vocação de grande líder”.

 

Onofre conviveu com o lado menos formal do governador, ouvindo as angústias e reflexões. Dante se queixava do corporativismo e da falta de visão de futuro da Assembleia Legislativa e da inércia de parte do funcionalismo, mas mantinha firme o olhar estratégico.

 

Onofre também ressaltou a influência da mãe, dona Maria, figura discreta e inspiradora. “Ele tinha um respeito imenso por ela, escutava muito. Ela tinha uma leitura profunda do que acontecia”, contou.

 

Reprodução

Dante de Oliveira

Dante ganhou destaque nacional ao dar início ao movimento das Diretas Já, que mobilizou milhões em todo Brasil

Para ele, a morte de Dante provocou “uma sensação de orfandade” na política mato-grossense.

 

“Foi um choque para Mato Grosso, porque o fato dele ter perdido a eleição em 2002 não anulou ele, continuou sendo um grande líder. De repente ele morre, trouxe uma sensação de orfandade para a política do Estado. [...] A morte interrompeu isso de forma abrupta”.

 

O historiador Alfredo Menezes avaliou que Dante foi um político que entendeu o seu tempo.

 

“Era urbano, engenheiro, mas percebeu o crescimento do agro e deu todo o apoio possível, com incentivos fiscais, criação do Fethab (Fundo Estadual de Transporte e Habitação) e políticas que fortaleceram o setor”, explicou.

 

Para Alfredo, a morte de Dante deixou um vazio na centro-esquerda estadual, impedindo a formação de um contraponto político mais equilibrado nos anos seguintes em Mato Grosso.

 

“Poucas lideranças chegaram ao patamar do Dante. Outros tiveram peso estadual, mas ele teve o fator nacional das Diretas Já. Sem dúvida, esse movimento foi decisivo para empurrar o regime militar para a saída”, afirmou o historiador.

 

Para Thelma, a perda segue viva, mesmo após duas décadas. A morte repentina, após um quadro de pneumonia que evoluiu de forma inesperada, chocou o Estado.

 

“Foi uma coisa inacreditável. Ele se cuidava muito. Foi tudo muito rápido e doloroso”, relembrou, emocionada. Ainda assim, para ela, é o amor e o legado que permanecem na memória dos anos que passaram juntos. 

 

“A gente fazia tudo juntos: caminhadas, bicicleta, cinema, viagens, pescarias. Andávamos sempre juntos. Foi uma dor muito grande”, lembrou.

 

“A gente gostava de tudo que fazia junto. Esse crescimento pessoal e político era algo muito gostoso de compartilhar. Tínhamos muito carinho e muito amor”, disse.

 

Para Thelma e Alfredo, vinte anos após a morte, Dante de Oliveira segue presente na memória coletiva como símbolo de um tempo em que a política se fazia com escuta, coragem e projeto de futuro. "Um líder que ajudou a devolver o voto ao povo brasileiro e que pensou Mato Grosso para além do seu tempo", completou Thelma.

 

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