Passeando por Florianópolis é possível se deparar com a memória da figura de Antonieta de Barros. Nascida em 11 de julho de 1901, em Florianópolis/SC, e filha de ex-escravizada, se tornou professora, jornalista, escritora e deputada estadual por Santa Catarina em 1934. Fez a passagem em 28 de março de 1952.
Ela cresceu em momento de direitos negados para mulheres negras. E, falar dela, é tratar de um Brasil que insiste em não ser lembrado. Um Brasil negro, feminino, intelectual e popular que, apesar de ter sido decisivo na construção da vida pública nacional, segue frequentemente relegado às margens da memória oficial.
Antonieta não foi apenas a primeira mulher negra a ocupar um mandato parlamentar no país. Mas, sobretudo, uma pensadora da educação como prática de emancipação, e muito antes desse vocabulário ganhar circulação acadêmica. Inclusive, a sua atuação parlamentar foi marcada pela defesa intransigente da educação pública, gratuita e acessível. Para Antonieta, educar não era apenas transmitir conteúdos, mas criar condições materiais e simbólicas para que pessoas historicamente oprimidas pudessem se reconhecer como agentes da própria história.
Com o pseudônimo de Maria da Ilha, a jornalista produziu crônicas e artigos que denunciavam o racismo, a pobreza, questões de educação, a condição das mulheres e o abandono das classes populares. Sua escrita é marcada pela crítica, inclusive, com a recusa ao fatalismo e à ingenuidade. Ela acreditava que a educação deveria contar com políticas públicas concretas, investimento estatal e valorização do magistério.
Apesar das contribuições de Antonieta de Barros, como uma das pessoas pioneiras e inspiração para o movimento negro, seu nome não ocupa a centralidade que deveria nos currículos escolares, nos livros de história, e nas homenagens oficiais. O racismo estrutural é um selecionador de trajetórias, desmerecendo pessoas a serem celebradas.
Em um país que ainda associa poder, inteligência e liderança à branquitude masculina, Antonieta de Barros representa a verdadeira ruptura. Sua vida demonstra que a presença negra na política e na produção intelectual não é recente. É realidade construída, apesar de apagada. Relembrá-la é questionar: quem são as Antonietas de hoje? Quais vozes continuam sendo silenciadas em nome de uma falsa neutralidade?
Antonieta é um símbolo e projeto. O projeto de um país em que se a educação fosse caminho de libertação, não reproduziria desigualdades. Em um local marcado por abismos sociais, raciais e educacionais, celebrar Antonieta é um belo exercício de memória, com a consequente convocação política. A recolocar no centro do debate público é reconhecer que a democracia só se realiza plenamente quando inclui, de fato, aquelas e aqueles que sempre foram mantidos à margem.
A professora e escritora foi importante figura na defesa da emancipação feminina. Em 1919 já escrevia na Revista da Escola Normal, passando a presidir o Grêmio Estudantil em 1920. No ano de 1922 criou o Curso Particular Antonieta de Barros na sua própria casa, que tinha a finalidade de proporcionar alfabetização para a população carente. Fundou e foi diretora do jornal A semana, de 1922 a 1927, sendo a primeira mulher negra a trabalhar na imprensa catarinense.
O Dia do Professor e da Professora, em 15 de outubro, deve recordar Antonieta de Barros, pois foi dela a autoria da Lei Estadual n 145, de 12 de outubro de 1948, que instituiu a data. Anos depois, foi oficializada nacionalmente, em outubro de 1963, pelo presidente da República João Goulart.
O principal túnel de Floripa é o Túnel Antonieta de Barros, que liga o Centro Sul da Ilha através do Maciço do Morro da Cruz, facilitando o tráfego e conectando bairros, como uma das mais importantes obras de mobilidade da capital catarinense.
Antonieta de Barros, presente!
Rosana Leite Antunes de Barros é defensora pública estadual, mestra em Sociologia pela UFMT.
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1 Comentário(s).
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| Michelle 06.01.26 08h44 | ||||
| História que jamais pode ser esquecida. | ||||
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