A democracia brasileira, construída sobre a diversidade cultural, religiosa e social, enfrenta um teste recorrente: a tentativa de misturar convicções teocráticas com a lógica institucional do Estado democrático de direito. Em Mato Grosso, esse fenômeno ganha contornos próprios às vésperas de 2026, quando discursos extremistas voltam a disputar espaço com o debate qualificado sobre políticas públicas e desenvolvimento social.

A Constituição é clara ao definir o Brasil como um Estado laico. Isso não significa hostilidade à religião, mas sim a garantia de que nenhuma crença — ou ausência dela — seja imposta como diretriz política. Quando lideranças confundem púlpito com palanque, o risco não está apenas na exclusão de quem pensa diferente, mas na corrosão do próprio princípio democrático: o diálogo baseado em direitos, evidências e interesse público.
Discursos extremistas prosperam justamente nesse terreno confuso. Eles simplificam problemas complexos, elegem inimigos abstratos e oferecem soluções morais para desafios que são, na prática, estruturais. Em vez de enfrentar dados, planejar políticas e avaliar resultados, opta-se por narrativas que mobilizam o medo, a fé ou a indignação.
O resultado é uma política ruidosa, porém pouco efetiva. Os desafios reais de Mato Grosso em 2026 passam longe desse radicalismo retórico. O estado precisa avançar na diversificação econômica, reduzindo a dependência excessiva de commodities e agregando valor à produção. Precisa enfrentar gargalos históricos em infraestrutura, especialmente logística, saneamento e mobilidade urbana, que impactam tanto o crescimento quanto a qualidade de vida. Na área social, os dilemas são igualmente concretos.
Educação básica com qualidade desigual entre regiões, acesso à saúde em municípios distantes dos grandes centros e políticas ambientais que conciliem preservação com produção sustentável exigem planejamento técnico e cooperação federativa — não slogans ideológicos. A democracia não se fortalece com a substituição do debate público por dogmas, nem com a demonização do adversário político.
Ela se consolida quando instituições funcionam, quando políticas públicas são avaliadas com transparência e quando a pluralidade é vista como riqueza, não como ameaça. Mato Grosso tem potencial para ser referência nacional em desenvolvimento sustentável e inclusão social. Para isso, em 2026, será necessário separar fé de Estado, emoção de política pública e discurso extremista de soluções reais. O futuro democrático do estado depende menos de certezas absolutas e mais da disposição para enfrentar a complexidade do mundo real com responsabilidade, dados e diálogo.
O avanço acelerado da reestruturação econômica e produtiva no Brasil tem aprofundado, de forma silenciosa, a desigualdade e a exclusão social. Os ganhos de produtividade, frequentemente celebrados como sinais de modernização, têm sido obtidos, em grande parte, à custa da degradação salarial, da automatização dos processos produtivos e do fechamento de postos de trabalho tradicionais.
O resultado é a expansão do subemprego, muitas vezes travestido de “empreendedorismo”, mas que, na prática, revela uma precarização generalizada do trabalho. Esse cenário cria uma simbiose perigosa entre marginalidade econômica e marginalidade social. Diante disso, o Estado passa a deslocar sua atuação para a manutenção da ordem, da segurança e da disciplina, em vez de investir em políticas públicas estruturantes capazes de promover inclusão e cidadania. Com o avanço da globalização econômica, milhões de brasileiros são progressivamente afastados não apenas do mercado de trabalho formal, mas também das condições materiais mínimas para o exercício pleno de seus direitos.
Nesse contexto, o discurso das chamadas “reformas do Estado” ganha força, sobretudo em um país marcado por profundas desigualdades como o Brasil. No entanto, a pergunta central permanece: reformas para quem? Com frequência, essas reformas priorizam ajustes fiscais e interesses de mercado, enquanto os custos sociais recaem sobre os mais vulneráveis.
O impacto desse processo também se reflete no campo político. Observa-se um crescimento da apatia política e do voto orientado por relações clientelistas, em detrimento de escolhas baseadas em projetos, propostas ou convicções programáticas. Muitas decisões eleitorais passam a ser guiadas por emoções, ressentimentos ou pelo chamado voto de protesto, e não por critérios públicos e racionais. Esse ambiente favorece a ascensão de figuras sem preparo para a vida pública, eleitas mais por sua visibilidade midiática ou discurso simplista do que por competência técnica ou compromisso democrático.
O resultado é o aprofundamento do descrédito nas instituições e o enfraquecimento da já frágil democracia brasileira. O filósofo Norberto Bobbio alertava que a democracia carrega paradoxos e promessas não cumpridas. Prometeu ampliar a participação e a representação, mas acabou concentrando o poder em elites políticas e econômicas; prometeu decisões coletivas transparentes, mas muitas escolhas fundamentais, especialmente na política econômica, seguem sendo tomadas longe do controle popular; prometeu eliminar poderes invisíveis, mas estes persistem, sobretudo na forma da tecnocracia.
Em meio a esse quadro, economistas e formuladores de políticas frequentemente recorrem a números e modelos como se fossem verdades absolutas. No entanto, economia não é uma ciência exata, nem uma receita pronta. E, ao contrário do discurso dominante, o Estado não é o problema em si, mas parte essencial da solução quando orientado por critérios democráticos e sociais.
O Brasil parece preso a um ciclo recorrente: mudam-se os personagens, mas repetemse os erros. Entre democracia e economia, permanece um paradoxo não resolvido. Rompê-lo exige mais do que reformas pontuais ou discursos fáceis — exige reconstruir o sentido da política como instrumento de interesse público, inclusão social e fortalecimento democrático.
Fernando Henrique da Conceição Dias é economista.
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